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0:00 A cada seis horas, uma mulher é assassinada no Brasil – apenas por ser mulher. O número de feminicídios está aumentando. Apesar das penas mais severas, a violência contra as mulheres continua crescendo. Os agressores são geralmente parceiros ou ex-companheiros. Quem sobrevive, muitas vezes sofre pelo resto da vida com as consequências. Eu só lembro dele apontando a arma – e foi um tiro que veio aqui, nesse lugar aqui. As vítimas – ou seus familiares – muitas vezes precisam lutar por justiça. O que acontece quando o medo vira parte do cotidiano? E como uma patrulha policial tenta conter a violência contra as mulheres?
1:02 Cristiane Gomes viveu por onze anos em um relacionamento violento. Presa em um ciclo de agressão, medo e esperança. As cicatrizes serão sempre uma lembrança. Eram agressões pesadas mesmo, que eu sofria: de ficar com o olho roxo, de orelha inchada porque ele dava socos, de cabeça doendo, porque ele puxava cabelo, estômago, chutes. Era totalmente agressivo. Eu sabia que era perigoso, tudo que eu vivia. Porém, me pegou de surpresa esse dia do tiro, realmente. Há oito anos, aconteceu o pior: o então companheiro de Cristiane atirou no rosto dela após uma discussão, dentro do banheiro.
1:48 Eu só lembro que eu olhava para o chão – e era muito sangue! Eu perdi muito sangue... Nesse momento até eu lembro que eu pensei na minha cabeça de me fingir de morta, porque eu fiquei com medo dele disparar mais alguns tiros. E os meus filhos estavam ali. Eu vi os três paralisados assim, em choque. Eles não choraram. E aquilo me desesperava. Os filhos gêmeos tinham oito anos na época, o caçula, apenas dois anos. O parceiro de Cristiane fugiu após o crime, enquanto ela lutava para sobreviver. Cristiane passou quatro dias em coma induzido e duas semanas na UTI. Ter sobrevivido é considerado um milagre da medicina. Mas, mesmo após oito cirurgias no rosto,
2:37 ela ainda sofre ao se ver no espelho. Dá muita saudade do meu antes. Eu fico olhando e até as vezes eu falo para Deus: ‘Ai Deus, só queria voltar como era antes’! Assim, sabe. Tanto que eu não tenho muitas fotos de antes assim, porque eu prefiro não olhar. Os filhos de Cristiane chegam em casa. Para ela, é um teste emocional – eles passaram o fim de semana com o pai. Ele foi condenado a cerca de 13 anos de prisão. Já cumpriu metade da pena. E há cerca de um ano, tem direito a saídas temporárias a cada poucos meses. A primeira saída dele foi desesperador! Ele queria ver os meninos. Então eu resolvi levá-los.
3:27 Eu mesma, sozinha, ir com eles. Foi muito desafiador! Eu falei, que a gente tinha três filhos juntos e que eles precisavam seguir com a vida deles tranquilos e sem medo de alguma coisa. Uma situação difícil para Cristiane. Mas ela diz que quer evitar qualquer conflito com o ex-parceiro. Também porque ele pode ser libertado antecipadamente... A única coisa que eu quero é que ele me deixe em paz! Ela tenta se virar como pode para sustentar os três filhos. Cristiane cuida praticamente sozinha deles, sem apoio significativo do pai. O apartamento alugado é pequeno. Ela divide o quarto com os filhos que, muitas vezes, precisam
4:13 ficar sozinhos em casa — enquanto ela corre de um trabalho para outro – entre Osasco e São Paulo. Nos fins de semana, Cristiane trabalha em uma pizzaria; durante a semana, na contabilidade de uma empresa — e, entre um turno e outro, como babá. Com isso, ela consegue cerca de quatro mil e quinhentos reais por mês. Mal dá para cobrir os gastos básicos. Muitas vezes eu tenho esse esgotamento, esse cansaço mental, esgotada e até um pouco injustiçada eu me sinto. Que as vezes eu me
5:02 tranco ali no quarto e fico ali por horas ou até um dia inteiro. E eu me busco. Eu busco essa fortaleza nesses meus momentos de mim comigo mesma, assim sabe. A meditação, ela tem me curado todos os dias, me dado essa força de poder viver, de estar aqui, de ter continuado - e sabendo que muitas não têm esse privilégio. Quase 1.500 mulheres no Brasil não sobreviveram a ataques como esse só no último ano. Esse é o
5:53 número de feminicídios registrados: mulheres assassinadas por causa do seu gênero. Na maioria dos casos, pelos próprios parceiros ou ex-companheiros. Durante muito tempo, esses crimes foram chamados de “crimes passionais”. Há dez anos, o Brasil passou a reconhecer oficialmente esse tipo de crime como feminicídio. Desde então, os números vêm crescendo quase continuamente. Cada vez mais mulheres solicitam medidas protetivas. Viemos para Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de Janeiro, para saber como essas medidas são aplicadas. Essa é uma das primeiras cidades do país a implementar uma patrulha de proteção à mulher — batizada com o nome de uma das maiores referências na luta contra a violência doméstica: Maria da Penha.
6:39 A unidade especial verifica se medidas protetivas, como proibição de contato ou aproximação, estão sendo respeitadas, explica a chefe da patrulha, Neuseli Pereira. A nossa missão é evitar que essas mulheres sejam agredidas novamente. Elas já fizeram um registro de ocorrência, foram agredidas e a gente quer evitar que elas sejam agredidas, nem que sofram feminicídio. Todos os dias, duas patrulhas circulam pela cidade e fazem visitas domiciliares às vítimas. A maioria delas demorou muito tempo para denunciar as agressões e solicitar medidas de proteção. Por medo! Medo de que o homem a piore – que a
7:24 violência seja pior. Por vergonha. Por desconhecimento do que pode acontecer. Porque assim, a gente não aprende na escola o que faz quando é agredido, né. Então, as mulheres não sabem o que fazer. Elas não sabem nem aonde ir. Elas acham que elas estão sozinhas, que não tem ninguém para ajudar. As patrulhas de proteção à mulher atendem cerca de 1.300 vítimas de violência doméstica na região. Em casos de risco iminente, elas são visitadas diariamente. Em outros casos, apenas quando necessário. Hoje, a patrulha vai até a casa da Fernanda. Ela conta que, ao longo de seus relacionamentos, suportou muitas coisas — desde agressões até ameaças de morte. Mas perdoou os parceiros várias vezes. E no final sou surpreendida por um abandono na
8:13 gravidez. Mais uma ameaça de morte, que ele ia abrir minha barriga e tirar a criança se eu não abortasse. Eu falei: ‘Eu não vou abortar! Eu não vou abortar!’ E isso é um ciclo que se repete, porque eu, aos 10 anos de idade, vi meu pai matar minha mãe na minha frente. Eu vivo violência desde o ventre da minha mãe até os 37 anos... Fernanda é formada em gestão de segurança. Impulsionada por sua própria história, ela quer estudar Direito e se tornar juíza. Ela tem uma medida protetiva em vigor contra um de seus ex-parceiros — por medo de que ele volte a procurá-la. Fernanda: Esses aqui são todos
8:59 boletins de ocorrência... Todos esses aqui. Neuseli: Nossa! E ele foi preso uma vez? Fernanda: Quatro! Inclusive eu quero saber da minha medida protetiva? Neuseli: Ela vai ficar válida... Fernanda: Até... Neuseli: ...enquanto você se sentir com medo. E esteja pronta para você formar prova também. Tira foto, filma... Fernanda: Porque eu não vou passar por isso de novo! Neuseli: Só Fernanda, não se coloque de risco de jeito nenhum! Que você tem dois filhos dependendo de você. Fernanda: Recuar também é estratégico. Neuseli: Recuar também é estratégico, isso mesmo! Pode contar com a patrulha. A gente está aqui pronta para te proteger. Isso não vai acontecer de novo, tá! Tem fé? Eu também tenho! Neuseli conta com orgulho que, entre as mulheres atendidas pela patrulha, nenhuma foi vítima de feminicídio até hoje. Há nove anos,
9:46 ela ajudou a criar e ampliar a Patrulha Maria da Penha na cidade. O mais importante é a gente se sensibilizar com a história dela e a gente entender que a mulher não precisa só de segurança, ela precisa de diversas outras coisas. Ela precisa ser acolhida nas necessidades dela. A gente precisa encaminhar essas mulheres para os equipamentos que podem ajudar. Neuseli: Ingrid! Ingrid faz parte do programa de proteção há cerca de sete anos. Pouquíssimas pessoas sabem seu endereço — além da patrulha. Ela ainda tem medo do ex-parceiro, que, segundo ela, a agrediu física, emocional e sexualmente por anos. Neuseli: Você não soube mais nada dele?
10:37 Ingrid: Tem dois meses que as coisas parecem que estão mais calmas. Neuseli: E assim, com relação à segurança da casa? Ingrid: Ainda fico muito tensa. Ele já esteve aqui na rua. Então a gente sempre fica com medo. Douglas: E as crianças indo para escola normalmente? Ingrid: Eles vão para escola normalmente, mas a gente tem uma dinâmica de mais segurança: Eles não brincam no quintal sozinhos. Só saio com eles, se for de carro. Neuseli: Continua fazendo as coisas, a prevenção que você já vem fazendo. Se precisar, estamos aqui. Depois de tantos anos, os membros da patrulha são praticamente parte da família. Eles me ajudaram em tudo assim. Todas as vezes que eu me sentia em perigo, foi para eles que eu liguei. Quando eu comecei o meu relacionamento, eles foram as primeiras pessoas para quem eu
11:23 contei. Eles estiveram no meu casamento. E eu digo que eles são os anjos de farda da minha vida. Talvez se não fosse a Patrulha Maria da Penha eu não estivesse aqui. A vida com os filhos e o novo companheiro não é vivida com leveza: Ingrid mal sai na rua — e se sente presa dentro de sua própria casa. Apesar de tudo, ela é imensamente grata por ter escapado do ciclo de violência. Por causa de histórias como essa, a patrulha de proteção à mulher está em ação dia e noite. Dá muita importância, dá muito sentido! Quando
12:10 a gente vê uma mulher que sofre esse tipo de violência e ela consegue dar a volta por cima, ela consegue redirecionar a vida dela, não desistir, não ter medo é muito bom! À noite, a equipe fica na sede da polícia municipal de Duque de Caxias. Sempre pronta para agir em caso de emergência. É um trabalho perigoso. O uso de colete à prova de balas é obrigatório. Cerca de 600 mil medidas protetivas de urgência foram concedidas no Brasil só no último ano — um recorde triste. Se o agressor se aproximar da vítima apesar de ter recebido ordens para não o fazer, ele pode ser preso — mesmo sem cometer um novo ataque. Patrulhas de proteção à mulher estão sendo criadas em todo o país.
12:57 A unidade de Neuseli serve de modelo para outras. Um estudo da polícia local reforça a importância do trabalho realizado. Fazer o registro e pedir a medida protetiva é a coisa mais importante que elas podem fazer. Mais de 90% dos casos em que as mulheres morreram por feminicídio, elas não fizeram registro nenhuma vez. O silêncio mata. Carolina Magalhães, de Belo Horizonte, era advogada e ficou em silêncio. Ela morreu no dia 8 de junho de 2022. Vitor e Lucas, filhos de Carolina, estão convencidos de que a mãe foi assassinada pelo então parceiro dela. Eles contam que era
13:44 um relacionamento tenso. Vitor: Eles vieram de um relacionamento entre idas e vindas. Lucas: Ele sempre pressionava o retorno do relacionamento deles. E isso era de uma forma assim, que era até doentia: dele seguir ela, aparecer na porta do trabalho, mandar e-mail – ela tinha bloqueado ele de tudo – aí ele começou a mandar e-mail para ela. Vitor: Ela acabava não contando todas as coisas que aconteciam no relacionamento. Tentava resolver isso sozinha.” Fotos que lembram uma infância feliz com a mãe, que os criou praticamente sozinha. Esse era o beijinho de esquimó. A gente fazia assim...
14:32 Desde a morte da mãe, há três anos, eles vivem com os avós. Uma família de advogados muito unida, com escritório próprio — onde Carolina também trabalhava. A imagem dela tatuada no corpo motiva o irmão Demian a continuar buscando provas de que ela foi assassinada. Durante o relacionamento de quase um ano, sua irmã foi se isolando cada vez mais. Mas após tentar terminar, voltou a se aproximar dos amigos. Essas mensagens ela trocou mensagens com a amiga logo depois do último término que eles tiveram: ‘Ele vai ser ruim comigo agora, vai tentar de tudo para me atingir. Pedir ao meu anjo da guarda proteção!’ A amiga dela falou: Você não pode jamais aceitar e permitir que uma pessoa comande a sua vida. Aceitar tudo! Ainda
15:22 mais do jeito que estava sendo: com ameaças! Muitos detalhes da relação só vieram à tona agora, conta a mãe, Maria Ignes. Apesar de alguns sinais de alerta, ninguém imaginava que terminaria dessa forma. De agressão eu desconfiei uma única vez: eu vi marca no pescoço dela. Ela entendeu que eu tinha entendido e não quis comentar. Porque sempre nos retornos ela achava que ia começar tudo bem de novo, como realmente era o que ele prometia para ela. Eu acho que só no final que ela viu que não haveria essa mudança de comportamento dele. Então eu acredito que naquele dia, no último dia de vida dela, ela tentou terminar
16:15 com ele definitivamente e ele não aceitou. Visitamos o condomínio onde Carolina morava. Demian mostra o local onde sua irmã morreu. Ela caiu do oitavo andar do prédio. A polícia inicialmente investigou como suicídio, já que o parceiro alegou ter saído do apartamento antes da queda. Mas a família nunca acreditou que Carolina tenha se jogado. A rede de proteção da varanda ela foi cortada numa posição num formato oval horizontal, bem largo o suficiente para passar um corpo na posição horizontal, deitado. E bem rente
17:01 a parte inferior da rede - quase no parapeito - foi encontrado uma mecha de cabelo dela. O que de certa forma denota que a cabeça dela passou naquela altura – então ela estaria deitada. A família acredita que Carolina já estava ferida antes da queda e foi empurrada inconsciente da varanda. Segundo a família, o tipo de ferimentos e o estado do apartamento também indicariam a culpa do parceiro. Com todas as evidências que foram levantadas naquela noite, inclusive assim, sinais de briga com taça de vinho quebrada no quarto, eles deveriam tê-lo conduzido à delegacia. No dia seguinte, Demian verificou as imagens das câmeras de segurança do prédio e os horários registrados.
17:47 O casal chegou em casa por volta das 7 e meia da noite. Essas são as últimas imagens de Carolina com vida. Pouco depois das 11 da noite, ela caiu da janela. Só então o parceiro desceu pelo elevador, segundo Demian. As câmeras colocavam ele dentro do apartamento no momento da queda e isso era de fácil constatação. Se a polícia tivesse tido o cuidado de verificar isso na noite do fato, ele não teria saído daqui livre. Ele teria provavelmente sido preso em flagrante naquele momento. Demorou mais de dois anos, mas agora o ex-parceiro de Carolina responde na Justiça por feminicídio.
18:32 No processo, ele nega as acusações e questiona a estabilidade emocional de Carolina. Nossas perguntas a ele ficaram sem resposta. Até que haja uma sentença final, a espera é dolorosa para os filhos e toda a família. O pior é ver ele solto, respondendo em liberdade depois dele ter matado nossa mãe. E ele está solto, vivendo a vida como se nada tivesse acontecido. Nós não estamos na Idade da Pedra. Nós temos ética, nós temos lei. Os homens não são proprietários das são proprietários das mulheres. Nós queremos justiça. Não é vingança. Nós queremos justiça. As leis no Brasil foram endurecidas nos últimos
19:23 anos, e a pena para o feminicídio aumentou. Mas nem todos os agressores chegam a ser julgados. Cada vez mais campanhas incentivam a população a denunciar a violência doméstica. Estudos mostram que um dos principais problemas apontados é o machismo — ou seja, a sensação de superioridade masculina. Isso é algo profundamente enraizado na cultura. Por isso, é preciso combater o problema desde cedo, acredita Neuseli Pereira, da Patrulha Maria da Penha em Duque de Caxias. Ela e seus colegas visitam uma escola diferente a cada semana. É um assunto de gente grande, más é um assunto muito importante para vocês. Vocês sabiam, que a maioria das mulheres, que sofreram feminicídio,
20:10 foi porque elas disseram ‘não’?! Elas falaram: ‘Não quero mais namorar!’ Vocês acham isso justo? Crianças: Não! A nossa proteção é preventiva, mas dá muito certo! Nenhum homem quer ser preso! Quando ele vê que tem uma patrulha protegendo ele vai embora e ele não perturba mais a mulher. É por isso que a gente conta com a ajuda de quem está próximo: para denunciar, para conversar, para encaminhar as pessoas, falar ’procurem uma ajuda’! O número de tentativas de feminicídio mais que dobrou nos últimos cinco anos — apesar das penas mais duras. Aumentou o tempo de prisão. Mas assim, o homem, quando ele está pensando em cometer um crime, ele não pensa
20:59 nisso. Por isso que eu acho que prevenção é o melhor. Só punir as vezes não é suficiente, porque já fez, a gente quer que não faça. As vítimas de tentativas de feminicídio muitas vezes enfrentam consequências pelo resto da vida — como Cristiane Gomes, em São Paulo. A médica dela, Dra. Carla Góes, é especialista em reconstrução facial. Aqui ó, dá para gente ver a diferença. Está vendo? Foi exatamente aqui, que o projetil entrou. E quando ele entrou, Cris, teve as fraturas aqui ósseas. E também teve a lesão facial. Por isso que tem essa queda desse lado. E esse é o lado que entrou: bateu aqui, bateu aqui e fraturou.
21:48 Há alguns meses, Cristiane voltou a sentir dores no lado do rosto atingido. Ela encontra ajuda nesta clínica particular em São Paulo. A dermatologista e cirurgiã trata vítimas de violência doméstica gratuitamente. O agressor, ele escolhe o rosto para dar os golpes de faca, para tirar a dignidade, para marcar aquela pessoa, para quebrar aquela pessoa e deixá-la cada vez mais fora da sociedade. São cicatrizes muito, muito dolorosas e que marcam o rosto para sempre. A médica trata o inchaço e as cicatrizes no rosto de Cristiane. E explica que uma nova cirurgia grande será inevitável. O corpo de Cristiane
22:38 parece estar rejeitando a malha metálica que sustenta parte de seu rosto. Será a nona cirurgia. É um caminho doloroso até a recuperação. É bem doloroso, porque não é só a parte física, mas o emocional também. Então, foi uma jornada muito longa e como eu te falei, meio que acostumei com essa dor, com essa tensão. Porém ainda vem muitos gatilhos quando eu estou próximo a cada cirurgia. As feridas emocionais também são profundas. Uma vez por semana, Cristiane participa de um grupo de apoio no Instituto Um Novo Olhar. A ONG foi fundada por sua médica, com o objetivo de oferecer às mulheres não apenas um novo rosto,
23:26 mas também uma nova perspectiva de vida. Lá, elas recebem também apoio jurídico e psicológico. Cristiane só conheceu esses serviços — públicos e privados — depois da tentativa de feminicídio. Como a maioria das mulheres ali, ela vivia presa entre o medo e a esperança. Eu vivia na agressão, porém eu não falava. As meninas que trabalhavam comigo – eu trabalhava já há 4 anos lá - e ninguém sabia que eu sofria violência. Porque era exatamente assim: ‘Que você está fazendo com esse cara? Que que você quer com ele? Sai!’ E não é fácil assim! E aí a gente fica com medo e se fecha. Conseguir sair de um ambiente que te machuca e ser acolhida, ter um apoio, ter uma escuta – isso te dá uma força para não voltar para aquela situação!
24:19 Quando a gente está junta assim e escuta outros casos, a gente vê que a gente não está sozinha. Segundo estudos, quase um terço das brasileiras já sofreu violência doméstica. A psicóloga Giuliana Carvalho também aponta o machismo como uma das principais causas. O machismo, ele vem de gerações para gerações, se multiplicando cada vez mais. Se eu aprendi que o meu pai, ele agride a minha mãe, ele bate na minha mãe, ele xinga e ele humilha. Qual é a outra referência que eu vou ter para não fazer isso com uma mulher? Cristiane acredita que, apesar das campanhas de conscientização e das leis mais rígidas, ainda há muito a ser feito. Mesmo quando um agressor é condenado, muitas vezes ele
25:08 é libertado antes do fim da pena. Ela teme que isso aconteça também com seu ex-parceiro. Fica muito fácil assim agredir uma mulher, bater até a morte ou atirar no próprio rosto, um tiro à queima roupa que seria fatal - mas Deus me quis aqui - e fica tudo bem! E não é assim! Então acho que para minha vida agora eu abracei a causa não só por mim, mas por todas nós. E eu vou lutar daqui para frente para que a gente tenha melhorias aí. Não é só mais uma luta minha. Eu acho que agora é uma luta de todas nós. Cristiane representa mais de 100 milhões de mulheres no país. Cada vez mais delas estão
25:55 saindo do silêncio e buscando proteção e força na coletividade. Muitas vezes, esse é o único caminho para interromper a violência — antes que ela termine em feminicídio.