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0:09 Boa tarde a todos. Estamos aqui de volta para dar continuidade ao curso de História da Democracia. Na aula anterior, a gente analisou um pouquinho da origem do conceito de democracia. Então, a gente visitou os gregos, especialmente a cidade de Atenas, para analisar a origem da palavra democracia e seu significado original naquele contexto muito específico do surgimento da polis, e do desenvolvimento das instituições que vão caracterizar o que a gente chama de democracia. No entanto, a gente também avaliou que nem sempre as palavras vão manter o mesmo significado. As palavras permanecem, mas o conteúdo dessas palavras mudam. Então, quando os conteúdos
0:55 mudam, a gente tem que estar muito atento para contextualizar e reinterpretar os conceitos. E é exatamente o que acontece com democracia. A gente percebeu que Quando os atenienses aperfeiçoam a ideia democrática, eles estão apresentando um modelo que é muito diferente do nosso, e a gente mergulhou um pouco naquelas instituições para tentar entender como havia divisão do poder, como funcionava a democracia direta ateniense, como era o sistema de sorteio, que era bem interessante, você não tinha a eleição para o cargo legislativo, entre aspas, dos atenienses, você tinha um método de sorteio, enfim... e a participação do cidadão direto na Ágora. Então, você tinha ali aquele sistema de aprovação ou veto
1:40 dos projetos de lei que eram feitos diretamente pela população através da sua atuação política. Depois disso, a gente viu que a queda da cidade de Atenas trouxe um certo ostracismo, até brincando com a palavra, que o ostracismo era uma das instituições que existiam na cidade-estado de Atenas, mas o termo democracia sofreu um ostracismo de mais de dois mil anos, até ser recuperado de um passado muito longíquo para ser ressignificado na luz do século XVIII, a partir das instituições do iluminismo. A partir daí, a gente começou a analisar que o conceito de democracia vai ser trazido à tona novamente, repaginado com novos elementos e incorporando também alguns atributos do pensamento liberal, A ideia de ter a defesa da
2:30 liberdade atrelada à democracia começa aqui, que era algo que não tinha, essa lógica não existia na democracia dos antigos. E a gente olhou rapidinho o contexto, um panorama do século XIX para ver que as principais forças ideológicas já estavam compostas naquele momento. A gente falou do liberalismo, da democracia, das doutrinas sociais e do conservadorismo e do nacionalismo. E, com isso, a gente encerrou a última aula. permitindo que a gente começasse essa nossa aula nos módulos 3 e 4, que são esses aqui, da Era da Catástrofe e a Consolidação da Democracia, onde a gente vai analisar, já no século XX, a questão da crise econômica de 1929 e
3:16 a ascensão de um projeto que vai ser o maior adversário da democracia, que é o fascismo. Então, aqui hoje, a gente vai definir o que é fascismo para sair do senso comum, sair daquelas... Definições apressadas, a gente vai tentar entender o que de fato é fascismo para poder categorizar de forma correta essa ideologia política. E a reboque do fascismo, a gente também analisa os regimes ditos totalitários, pegando aí o texto clássico da Hannah Arendt, uma filósofa muito importante que trabalha com esse conceito, que escreve logo no imediato pós-segunda guerra para tentar entender também o que significa totalitarismo. e qual a diferença de uma ditadura dita ordinária, uma ditadura normal, entre aspas, as ditaduras comuns, e ditaduras ditas totalitárias. Uma diferença bem grande aqui, a gente vai
4:04 trabalhar isso hoje. E, finalmente, tentar entender como a gente passa de uma era de quase desaparecimento da democracia para uma era na qual ela vai se consolidar, junto com a ideia de direitos humanos e junto com a ideia da paz como um valor a ser preservado. com ideias muito diferentes daquelas que antecederam a segunda metade do século XX. Finalmente, a gente entra no módulo quarto, depois do nosso intervalo, onde a gente vai analisar os desafios e os dilemas do presente. A ideia de crise de representatividade política, que hoje afeta todos os países do Ocidente, onde há democracia, há crise de representatividade na política hoje. A gente vai tentar entender por que esse fenômeno ocorre em escala global. falar um pouco sobre os novos
4:51 populismos e os novos extremismos e, finalmente, traçar um panorama para tentar entender um pouquinho os desafios da democracia após esse contexto que nós estamos vivendo, que ainda está inserido na lógica da Covid-19, de uma pandemia, a maior pandemia desde a gripe espanhola do início do século XX, da era da catástrofe. Então, esse é um pouco do panorama que a gente vai ter hoje. Bom, dito isso, gente, vamos lá, então, primeiro, né? tentar entender por que a gente chama de Era da Catástrofe, o período que pega a primeira metade do século XX. Por que Era da Catástrofe? Porque uma pessoa que nasceu no ano 1900, imagine, tá? Um sujeito europeu, pode ser de qualquer país, vamos botar a Alemanha, nasceu no ano 1900. Quando essa pessoa tiver 14 anos,
5:42 ele vai presenciar a maior guerra que já houve na história da humanidade. Você vai ter a Primeira Guerra Mundial. A Primeira Guerra Mundial é uma guerra diferente. É uma guerra na qual você não tem mais uma lógica de cavaleirismo, desaparece qualquer ideia de bom combate, entre muitas aspas, e a guerra passa a fazer parte do cotidiano das pessoas. A gente chama a Primeira Guerra de guerra total. Uma guerra total é quando você envolve toda a sociedade no esforço de guerra. Antigamente não era dessa forma. As guerras napoleônicas, por exemplo, elas ocorriam em campo de batalha e não afetavam o cotidiano das pessoas que não estivessem diretamente envolvidas. A Primeira Guerra Mundial é uma guerra que vai envolver a sociedade como um todo. Todas as pessoas vão estar
6:29 envolvidas no esforço de guerra, incluindo as empresas, todo mundo mesmo. Os homens vão para o campo de batalha e aí abrem-se os postos, as vagas de trabalho para as mulheres. Com isso, a mulher começa a se inserir com maior vigor no mercado de trabalho. As empresas se adaptam para a guerra. Uma fábrica de parafusos começa a produzir munição. Uma fábrica de sapato começa a produzir coturno. Uma fábrica de automóveis começa a produzir blindados. Uma fábrica como a Fiat, por exemplo, na Itália, começa a produzir motor de avião. Essa é a lógica da Primeira Guerra Mundial. É uma guerra total por isso. Todo mundo fica envolvido no conflito, diretamente ou indiretamente. Então vamos lá, esse nosso alemão imaginário tem 14 anos e ele vai viver dos
7:18 14 até os 18 no esforço de guerra, vendo a sua sociedade imersa no esforço de guerra, vendo junto com a guerra todas as penalidades que ocorrem no campo econômico, racionamento, por exemplo, fome, escassez. Junto com isso, explode em 17, no contexto da guerra ainda, uma pandemia, que é a gripe espanhola. Você tem guerra total com peste, espalhando e ganhando escala global. Junto com isso, morte. Se a gente parar para pensar, os quatro cavaleiros do apocalipse estão aqui nesse contexto, do início da década do século XX. Você tem guerra, peste, fome e morte. Então é um momento em que as pessoas ficam muito pessimistas.
8:08 Mesmo assim, a guerra acaba e o lado vencedor da guerra... Uma guerra que envolveu dois blocos, basicamente. Um bloco composto por países líderes que estavam sustentados nos ideais liberais democráticos e outros que estavam sustentados em regimes autoritários. O bloco liberal democrático ganha a guerra. E, ao ganhar a guerra, a democracia ganha um impulso extra. Nesse momento, na década de 20, já no pós-Primeira Guerra, a gente começa a ter a difusão da liberal democracia. E além da difusão dos valores liberais e democráticos, a gente vê a fusão desses dois valores. A gente começa a tratar quase que as duas coisas como se fosse uma só. Falar que um país é democrático é quase que o sinônimo de dizer que tem liberdades
8:57 também naquele país. Isso é a fusão do liberalismo com a democracia, que a gente se acostumou a ver dessa forma. A gente vai ver no final da aula de hoje, depois do intervalo, que há um processo de separação desses dois. Mas vamos guardar isso para daqui a pouco. E, claro, junto com o bloco vencedor, que é inspirado nos valores liberais democráticos, a gente tem também a disseminação das instituições e desses valores. Então, o iniciozinho da década de 20 é um período no qual a Europa inteira, com exceção da Rússia, que passa pela Revolução Socialista e já começa a se inclinar para um regime ditatorial, a gente vai ter, nesse bloco, pensando a Europa Ocidental, praticamente todos os países mais ou menos enquadrados dentro de um regime que, para os
9:43 critérios da época, a gente pode chamar de liberal democrático. As mulheres ainda não votam, mas já é considerado democracia para os critérios da época, sem pensar de acordo com o critério do período, para não cometer nenhum anacronismo. E os anos 20 são também os anos loucos, como está aqui nessa imagem que eu selecionei aqui para vocês. Depois de passar por guerra e peste, morte e fome, as pessoas, vivendo agora em ambiente democrático, vão querer aproveitar a vida. E os anos 20 são anos muito interessantes desse ponto de vista, da libertação feminina mesmo também. Aqui a gente vê as mulheres num café parisiense, o que não era uma cena muito comum no século 19, por exemplo. Então as pessoas começam a tentar aproveitar a vida. É um período de
10:32 muita liberalidade nos costumes, É um período de muito otimismo, porque a Europa se democratizou muito rápido, mas, como todo sonho bom, isso dura pouco. A gente vai ver que os anos loucos, que é o ano de festa, música, cabarets, a elite se encontrando, uma classe média crescente, isso vai durar muito pouco e vai praticamente desaparecer no final da década. Eu gosto sempre de misturar... misturar um pouco a arte política e mostrar que até moda é política também. Aqui eu peguei só uma das pequenas revoluções que acontecem na década de 20 para mostrar como a roupa, as vestimentas femininas mudam nesse momento de maior liberalidade. Parece que
11:18 três séculos separam uma mulher da outra. Aqui a gente vê a mulher moderna já. E ali a gente vê uma mulher com trajes, parece aquelas novelas de época que a gente assiste. Mas, na verdade, são dez anos que separam uma da outra só. Quem estuda com história da moda, geralmente fala que o último resquício do antigo regime, daquele mundo lá de trás, pré-iluminista, o último vestígio dele estava nas vestimentas das mulheres. E vai ter uma pessoa que vai ser responsável por enterrar o antigo regime de vez, que é uma dos ícones da moda, que é a Gabrielle Chanel, também conhecida como Coco Chanel, que é inclusive ela que está aqui na imagem. ela lança o perfil da mulher moderna, da mulher adequada a um mundo que está pedindo voto feminino,
12:04 a um mundo que se liberaliza e a um mundo que tem democracia, e um mundo no qual as mulheres estão cada vez mais buscando uma inserção na sociedade em busca da isonomia plena em relação aos homens. Então, aqui a gente vê que política, às vezes, não é só analisar a data, os grandes combates, a política vai muito além disso, ela está incorporada na cultura, nos elementos sociais, E quando a gente faz esse trabalho, é sempre muito interessante, porque causa sempre um estranhamento, a gente achar que a política não pode ser lida por outros campos para além dela própria, do que a gente acha que é alta política. Mas isso aqui é política também. Bom, vamos lá então. Antes disso aqui, eu tenho que falar como acabam os anos loucos. Então, ok, a gente está aí na década de 20, esse período de liberalidade interessante
12:53 demais, mas vai durar pouco. Resgatando o nosso amigo alemão, que nasceu em 1900 e já presenciou uma guerra dos 14 aos 18 anos e uma pandemia, ele agora vai presenciar outra coisa. Ele vai presenciar a maior crise econômica da história, que é o crash da Bolsa de Nova York em 1929. Uma crise econômica terrível, terrível. A Bolsa quebrou. E com a quebra da bolsa, as empresas quebraram, e com a quebra das empresas, as pessoas ficaram desempregadas, e com o desemprego reduziu o potencial de consumo, e sem dinheiro para consumir, a economia entrou em colapso. Nos Estados Unidos, para o mundo. Porque os Estados Unidos já eram a principal economia nesse momento.
13:39 Então, a crise de 29 não é só uma crise econômica, ela é uma crise de valores também. Atribuía-se à crise e até hoje se atribui, uma ideia de desregulamentação que está dentro da lógica liberal na economia. Então, a lógica de interpretação da época foi a seguinte. A falta de presença do Estado na economia permitiu que houvesse uma crise econômica nessa proporção. Então, o liberalismo econômico provocou a crise de 1929. Com a falência do pensamento liberal econômico, você puxa junto o liberalismo político. e o liberalismo político puxa junto a democracia. De um só golpe, todos aqueles valores estruturados desde o século XVII vão escoar para o ralo. Ninguém mais acredita
14:29 no liberalismo e ninguém mais acredita na democracia. O que as pessoas pensam a partir de 1929 é a democracia é tão ruim que permitiu essa crise absurda. O liberalismo é tão ruim que permitiu que as economias quebrassem. Com isso, a gente começa a ter, já na década de 30, a proliferação do fascismo e de regimes autoritários. Ninguém mais acredita no regime democrático e agora todo mundo começa a buscar como alternativa regimes autoritários. Então, aquele alemão que viveu, dos 14 a 18, uma guerra e uma pandemia, ele vai ver a partir de 33 o partido fascista chegar ao poder. O fascismo alemão, também conhecido como nacionalsocialismo. Então, ele já vai viver numa ditadura.
15:19 E, depois disso, o projeto nazista era um projeto de tentativa de reconstrução do mundo, eliminando qualquer vestígio democrático e liberal. E, por isso, junto com uma lógica que a gente já vai analisar daqui a pouco, a gente vai ter uma Segunda Guerra Mundial já em 1939. Então, o sujeito que está vivendo numa ditadura dos 1933 até 1939, agora ele vai viver também uma Segunda Guerra Mundial. Uma Segunda Guerra Mundial que vai ser muito maior do que a primeira, que já tinha sido a maior guerra da história da humanidade, com mais de 20 milhões de mortos. Agora são mais de 60 milhões de mortos. As cifras são enormes, ainda mais se a gente considera a população da época. E, além disso, a Segunda Guerra Mundial traz requintes de crueldades que a primeira não teve.
16:09 Você vai ter o Holocausto na Alemanha. que é você coordenar a eliminação de pessoas simplesmente por elas terem uma origem que é considerada impura pelo governo alemão. Estou falando aqui dos judeus, principalmente, mas também de ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência, que eram eliminadas dentro de uma lógica industrial. E a guerra termina com duas bombas nucleares. Então... pela primeira vez, o ser humano vai ter capacidade de extinguir a própria espécie, a partir desse novo armamento que foi desenvolvido. Então, soma tudo isso, duas guerras mundiais, crise econômica, pandemia, bomba nuclear, nazifascismo, regimes autoritários, e aí você
16:54 entende por que a gente chama os historiadores a primeira metade do século XX de Era da Catástrofe. De fato, a gente nunca chegou tão próximo do fundo do poço do como foi dentro desse período. O que é até uma grande contradição, porque, ao mesmo tempo, é uma época de muita geração de riqueza, que é o mundo industrial a pleno vapor. Bom, e aí a gente tem que analisar um dos regimes que é justamente aquele que vai rivalizar com a democracia. O fascismo é o regime que mais se colocou contra o que a gente conhece como liberal-democracia. E aí vamos lá, porque aqui é perigoso o caminho, porque fascismo e comunismo são dois termos que você usa para atribuir a quem pensa
17:43 diferente de você. E é muito perigoso quando você tem uma simplificação do conceito desse jeito. Vamos entender um pouquinho do fascismo. O fascismo é uma invenção italiana. A Itália, gente, na Primeira Guerra Mundial, ela trocou de lado no meio do conflito. Ela virou casaca nas duas guerras, isso é engraçado de se pensar. Na primeira, ela vira casaca, vai para o lado dos vencedores, mas, quando acaba a guerra, os italianos ficam de fora das negociações mais decisivas. Isso gera um termo que os italianos usam muito nesse momento aqui, que é a ideia de vitória mutilada. Eles estavam do lado vencedor, ajudaram o bloco vencedor a ganhar, mas, na hora de ter os espólios da guerra, eles ficam de fora. Isso
18:31 gera um ressentimento nos italianos. E ressentimento é a base do ultranacionalismo. Você se sente injustiçado. Começa a ter um momento de muita radicalização política na Itália. Nesse momento, há de fato ameaças de grupos extremistas, tanto à esquerda como à direita. E na direita você vai ter o surgimento dos camisas negras. Os camisas negras vão formar o chamado fácil de combatimento, que é o fascismo. O fascismo não surge como um partido político, ele surge como um grupo paramilitar para combater na via direta os seus adversários políticos. Leia-se, esquerda, e liberais também, em alguma medida. O símbolo do fascismo já traz para a
19:19 gente um pouquinho do que ele significa. A gente vê aqui vários feixes que estão atados e no topo deles a gente vê aquele machado com uma lâmina só. Isso aqui dá uma ideia de que a união faz a força. Se você pega um feixe desse e tenta quebrar, você consegue. Mas se você junta vários feixes, por mais fininhos que eles sejam, você não consegue quebrar o conjunto. É a ideia de que a totalidade é mais forte do que a unidade. E o símbolo de autoridade, representado pela lâmina. O símbolo do fascismo, gente, como eu falei na aula passada, todo símbolo na política é ressignificado o tempo todo. ele não significava originalmente fascismo. No entanto, esse símbolo hoje, quando a gente bate o olho, a gente
20:08 pensa fascismo. Então, cuidado, porque em frente ao Palácio Tiradentes, em pedra portuguesa no chão, você tem o símbolo do fascismo. Mas ali não é o fascismo italiano, ali é o símbolo original do fácil. Isso aqui remete à Roma republicana, é um símbolo republicano. A gente tem que ter muito cuidado com isso, porque assim como as palavras mudam de conteúdo, os símbolos também são o tempo inteiro ressignificados e têm o seu simbolismo alterado a partir daí. Mas, enfim, o fascismo, portanto, surge como um movimento paramilitar, mas ele vai estrategicamente moderar o seu discurso, porque é muito mais inteligente você destruir a democracia por dentro.
20:55 que a democracia é o único regime que permite crítica a ele mesmo. Então, o que eles vão fazer? Os fascistas vão se transformar num partido político, moderar o discurso e, a partir daí, tentar ganhar as eleições. Fiasco total em 19, quando o movimento surge, eles não conseguem nenhuma cadeira no parlamento, mas em 21 eles já conseguem um número pouco expressivo, mais de 35 cadeiras. No entanto, gente, esse é o momento na Itália de muita polarização social. E cada vez mais você tem movimentos de extrema esquerda e fascistas se enfrentando nas ruas. E diante desse cenário de instabilidade, a gente começa a ter o temor dessas classes médias e das elites de que o país entrasse num colapso que permitisse a ascensão de um governo comunista.
21:45 Nessa época, faz sentido pensar em ameaça comunista. É diferente de hoje, né? Hoje a gente não tem nenhum referencial de comunismo externo. real, da mesma forma que fascismo hoje é meio complicado de se falar, mas enfim, daqui a pouco eu te comento isso. Mas na época havia o risco dos dois. Tem que lembrar que a Rússia fez a sua revolução socialista em 1917, a gente está em 1919 aqui, é muito próximo, existe o temor de fato. E com isso, a gente vai ter o apoio das direitas tradicionais, que eram as direitas democráticas, ao projeto fascista. Isso aqui foi um erro tático, gente. que se vocês pegarem um livro muito bom que vem de hoje, que se chama Como as Democracias Morrem, o primeiro capítulo fala disso. Do erro que é quando você é estratégicamente... Você é um democrata, mas você
22:33 vê alguém radical do seu campo político. Você pode ser de esquerda democrata e ter alguém radical de extrema esquerda, ou de direita e ver alguém radical de extrema direita. É você achar que eu me alio com esse radical, ele derruba o meu adversário e depois eu controlo ele. Esse erro... foi o erro que foi cometido pelas direitas democráticas na Itália. Achavam que poderiam usar os fascistas para acabar com a extrema esquerda e depois controlar os fascistas. A lógica é o contrário. Eles achavam que os fascistas são troncos, são burros. Não, eles são grosseiros. É muito fácil a gente ter a manha aqui do sistema político. No entanto, eles são engolidos pelos fascistas. Engolidos. São tão engolidos que a gente vai ter, em 1922, a Marcha sobre Roma.
23:21 Ou seja, a marcha sobre Roma é o momento em que Mussolini vai tomar o poder na Itália. Isso aqui é muito mais uma fantasia do que um grande evento. Mas todo líder autoritário gosta de fabricar um passado idealizado. Então eles fabricam o episódio deles aqui na marcha sobre Roma. Os militantes fascistas marcham sobre Roma e Mussolini é convidado a governar pelo rei Vítor Emanuel III. Lembrando que a Itália é uma monarquia parlamentar. nesse momento. E aí você vai ter... E eles achando, não, a gente controla o Mussolini, deixa ele tomar o poder, a gente usa os fascistas contra a esquerda, depois a gente controla os fascistas. Em 1926, você já tem uma ditadura na Itália. Os fascistas engoliram a classe política tradicional.
24:09 Como é que se transforma numa ditadura? Primeiro, sistema unipartidário. Eles vão extinguir os outros partidos políticos, incluindo aquela direita que ajudou os fascistas. Controle da imprensa, polícia política e unipartidarismo. E, perdão, e corporativismo, que eu já vou falar o que é, que é uma característica econômica do regime fascista. Como resultado, gente, a gente vai ter praticamente a eliminação total das esquerdas na Itália e tribunais especiais e controle sobre sindicatos. Ou seja, todo e qualquer projeto de esquerda foi amordaçado ou eliminado durante esse momento. E as direitas que tinham apoiado o fascismo também. Agora você tem um partido político só, que é o partido fascista.
24:56 Bom, ok. Mas até então, o fascismo era basicamente uma experiência esquisita que um país estava adotando, que era a Itália. Lembra que eu falei? Os países da Europa no início da década de 20, todos eles, com exceção da Rússia, são mais ou menos democráticos. Eles estão vendo um negócio esquisito na Itália. Chegou um cara novo, Benito Mussolini, com um projeto novo. Negócio bem diferente. Mas tudo bem, a gente está aqui numa época boa. A democracia venceu. Venceu até chegar à crise de 1929. Aqui tem um jornal da época, do New York Times, falando do crash da Bolsa. Como eu falei, em 1929, com a quebra da Bolsa de Nova York, o
25:43 sistema liberal como um todo entra em colapso. Não só o liberalismo econômico, mas o político também, e com ele, a democracia. E a partir daí, é ladeira abaixo. Ladeira abaixo mesmo. Por quê? A partir da crise de 1929, você vai ter um outro partido que vai se inspirar no partido fascista italiano e que vai chegar ao poder. Mas agora não vai ser num país de porte médio, como é a Itália. Vai ser num país de ponta, com um parque industrial sólido, que é a Alemanha. Hitler vai copiar o modelo fascista, vai tomar de assalto o Partido Trabalhista Alemão, modificá-lo por dentro e transformá-lo no
26:28 chamado Partido Nacional Socialista. E esse vai ser o fascismo adaptado para a Alemanha. Isso aqui é uma breve cronologia. O desempenho do Partido Nazista é absurdamente alto após o crash da Bolsa. Antes da Bolsa quebrar... os nazistas tinham até conseguido chegar ao parlamento alemão, mas chegaram, sei lá, cinco ou seis deputados, e eles são ultranacionalistas, e eles entraram no parlamento com aquela roupa típica do traje alemão, com aquela bermudinha, e o parlamento inteiro vestido como o parlamento alemão se vestia, com terno. Quando os nazistas entram, todo mundo começa a gargalhar. Tipo, eles eram os caras idiotas, sabe? Ah, chegaram aqueles caras estranhos, né? Eles entraram, todo mundo
27:14 riu. Então, assim, era uma piada, né? Nossa, esse discurso louco desses caras. Enfim, tá, tem seis cadeiras. Em 1932, depois da crise, os alemães vão em peso apoiar o projeto nazista. E eles vão ter 280 assentos se tornando o maior partido político no parlamento, o que era uma piada, se torna uma tragédia. O que era uma piada se torna uma tragédia. Por quê? Sendo o maior partido, eles conseguem nomear o chanceler. O chanceler é o primeiro-ministro, Adolf Hitler, o líder do partido. Em 1933, o parlamento alemão pega fogo, num caso até hoje nunca solucionado. O discurso do Hitler foi que os comunistas não aceitaram a derrota e tocaram fogo no parlamento. A interpretação que a maioria tem é que Hitler tocou fogo no parlamento,
28:04 os nazistas tocaram fogo para poder dar um alto golpe. O que faz mais sentido, porque o fascismo tem como característico o uso da violência. A gente vai falar isso daqui a pouco. Eles só usam a democracia enquanto é conveniente. Geralmente, eles vão, como se fosse cupim, para dentro da democracia, para corroê-la por dentro e fazer o edifício desabar. Foi isso que aconteceu na Itália e foi isso que aconteceu na Alemanha. E uma vez que morre o presidente da Alemanha, o Hindenburg, o Hitler acumula os dois cargos e aí você tem o fechamento político da Alemanha e consolida-se a ditadura nazista. Já no ano seguinte, as leis de Nuremberg vão afirmar a ideia eugênica do nazismo? A ideia da seleção artificial de
28:51 pessoas. Existem pessoas que merecem a categoria de cidadão de primeira classe, e esses são os que podem provar sua ascendência germânica até pelo menos o século XVII e XVIII, e existem aqueles que, embora as gerações morando na Alemanha não podem ser considerados alemães. Judeus. A gente fala dos judeus na Alemanha nazista como se fosse alguém que imigrou, um migrante. Não é, gente. Eram alemães, que já estavam ali há gerações, tinham suas lojas, bancos, seus empreendimentos, ou enfim, eram trabalhadores, mas que vão ser, pelas leis de Nuremberg, descredibilizados enquanto cidadão. Então, assim, é um negócio trágico. Você usa o critério racial para selecionar pessoas. Isso
29:36 é uma ideia que a gente chama de eugenia. E isso vai também se expandir para outros setores da sociedade, como eu já falei, homossexuais, judeus, homossexuais. ou judeus, claro, os deficientes também, físicos, ciganos, todo aquele que fosse indesejado poderia ser descredibilizado como cidadão. Bom, tem um filme que é muito bom, que se chama Fita Branca, que ganhou inclusive a palma de ouro. Esse filme se passa antes da Alemanha nazista, mas é interessante ver porque ele tenta mostrar que a violência que os nazistas exploram já estava presente na cultura alemã da época. É um filme muito bom, muito bom. Você passa antes dos nazistas chegarem ao poder. Bom, então,
30:25 diferente da Itália, que não tem um grande crescimento econômico, como o Mussolini, a Alemanha começa a ter feitos impressionantes do ponto de vista econômico. E o Hitler vai ser o grande difusor do fascismo. Por quê? Porque você vai ter os países que estão vivendo uma crise absurda, que é atrelada ao liberalismo econômico-político e à democracia, eles vão olhar para a Alemanha nazista e falar, olha, aquilo ali é o futuro. Olha que coisa doida, né? A gente pensa no nazismo hoje, a gente vê como algo absurdo, como algo antiquado, como algo que foi de uma época e que foi um erro. Mas nessa época, os países que estão mergulhados na crise, na miséria, no desemprego, na inflação, estão olhando para as realizações do Hitler e falando, olha,
31:14 Ali está a solução. O futuro é fascismo. Hitler consegue recuperar rapidamente a economia alemã, elimina o desemprego e consegue rearmar o país, tornando ele de novo uma potência, mesmo tendo sido derrotado na Primeira Guerra e humilhado no Tratado de Versalhes, que foi o tratado que foi feito após a Primeira Guerra, para justamente impedir que a Alemanha voltasse de novo a se reerguer enquanto nação. Os dados que eu tenho aqui, entre 1933 e 1936, O crescimento econômico da Alemanha foi de quase 10%. Um crescimento chinês, se a gente for olhar com o parâmetro de hoje. Sendo que a indústria alemã cresceu nessa época 17%. Então isso aqui começa a atrair os olhares de todo mundo. Começa a ser um referencial de futuro
32:02 o fascismo. Olha que estranho pensar dessa forma, né? Para a gente é referencial de passado a ser combatido. Aqui é referencial de futuro. É tanto referencial de futuro que você tem um movimento artístico chamado Futurismo, que é um movimento de vanguarda na Itália, que apoia o fascismo italiano. Eles têm um manifesto escrito em 1909 no jornal francês Le Figaro, que antecede em dez anos o surgimento do fascismo. E se você ler o manifesto Futurista, você vê que ele já é um movimento fascista antes do fascismo existir. Por isso que é interessante pensar que muitas coisas na política já estão estruturadas socialmente antes de elas aparecerem. O fascismo italiano é um caso. Então, dos movimentos de vanguarda, a gente sempre pensa que
32:51 os artistas de vanguarda são progressistas. Os futuristas não. Eles tinham uma ideia de futuro, mas era uma ideia de futuro esquisita, negando os valores do iluminismo, do liberalismo, Tanto que uma das frases que está nesse manifesto, que é curtinho, vocês acham na internet com o Google, manifesto futurista, está assim, a guerra é a única higiene do mundo. Ou seja, a lógica de que pela guerra, que envolve a eliminação do outro, eu transformo o mundo num lugar melhor, num lugar mais limpo. Eles também dizem de queimar os museus, queimar as academias, queimar as escolas, reconstruir tudo do zero e colocar a mulher no seu lugar. Eles falam combater o feminismo já naquela época. Então, a arte, cuidado também,
33:40 nem todo artista é progressista. Então, aqui, a partir desse momento, o Hitler adapta a ideia fascista para criar o nazismo e ele acrescenta dois elementos ao que configura já o fascismo italiano. Um é o Lebensraum, que significa espaço vital, que é onde a Alemanha vai... atrelar a sua política externa, que vai ser uma política externa agressiva, de anexação de outros territórios na Europa, porque Hitler acreditava que era necessário que a Alemanha expandisse suas fronteiras para você ter o chamado espaço vital, que seria um grande espaço, uma grande Alemanha que teria incorporado novos territórios ao leste, principalmente,
34:25 incorporando territórios habitados principalmente por povos eslavos e literalmente escravizar os povos eslavos. E lembrando que eslavo deu origem à palavra slave, que do inglês é escravo. Por quê? Porque no passado os eslavos foram vítima de escravidão. Então aqui a lógica do Hitler era justamente essa, expandir o território alemão, escravizar outros povos e manter a superioridade ariana. Junto com a ideia de eugenia, que não estava presente no fascismo original, e a ideia de uma raça superior, bem específica, que evidentemente ele vai dizer que é a ariana. Só é curioso que o Hitler não tem traços arianos, mas enfim, isso aqui é outro debate. Isso aqui, gente, já falei de moda e
35:13 política, agora é futebol e política. Isso aqui é a Copa de 1934, realizada na Itália, Itália fascista, no momento em que todo mundo está achando o fascismo lindo e maravilhoso, porque a democracia liberal faliu nesse momento. E aqui a gente vê a seleção italiana não usando só a tradicional camisa azul, mas usando uma camisa preta, que era a cor que os fascistas usavam quando iam para as ruas enfrentar sindicalistas, comunistas, grevistas e por aí vai. Então aqui a gente vê a seleção italiana de camisas negras. Essa Copa do Mundo, adivinha quem venceu? A Itália. Ou seja, se o futebol até hoje tem problemas, imagina em 1934, numa ditadura unipartidária que controla a imprensa. É óbvio que teve roubo para a Itália ganhar. A Itália
36:02 foi campeã. E aí só uma curiosidade, né? O Brasil, nessa Copa, ele tinha 11 jogadores do Botafogo entre titular e reserva. É só uma curiosidade mesmo, porque não foi longe não. Foi logo eliminado, né? Enfim, eu falo isso para o senhor... Eu sou botafoguense, eu gosto de criticar meu time. É... Mas é impressionante, 11 jogadores é muita coisa. Eu não sei se são 9 ou 11 agora, mas era quase a seleção toda do Botafogo e, claro, foi muito mal por causa disso. Fica nítido que a gente está vivendo um período de falência da democracia. E nesse momento, gente, a democracia é considerada o regime dos fracos. Democrata é um cara que
36:50 defende o regime fraco. Democracia é visto como mediocracia. Você nivela pelo meio. É o governo de onde o povo opina e não dá certo. E a falência da democracia se reflete nos números que a gente tem sobre ela. Nessa época, a gente tinha 65 estados independentes. Hoje, são 193, que são os membros plenos da ONU. A gente pode também considerar o Vaticano e a Palestina, se for membro observador. E vai para 195. Enfim, nessa época, só 65 estados. Principalmente por causa da colonização europeia. Afro-asiática, então você não tinha países independentes ali, poucos independentes, na verdade. Quando, na década de 20, que foi a época que a democracia teve um boom, você tinha 35 governos constitucionais eleitos, com características
37:36 democráticas. Olha como esse número vai deprimindo rapidamente. Em 38, já caiu para menos da metade, são só 17. Em 1940, de 65 países, só 11 são democracias. E desses 11, só tem duas democracias grandes, Estados Unidos e Reino Unido. Até a França sucumbiu. A Alemanha humilha a França. Pode falar. Exatamente. O Roosevelt foi o presidente que mais se reelegeu, tanto que criaram depois a lei para impedir a reeleição indefinida. Bem no contexto da época. Dentro dessa lógica, então...
38:23 Você vai ali, o mesmo líder, aquela coisa do culto ao líder também funcionava até nos Estados Unidos. E uma observação extra sobre os Estados Unidos que é sempre importante fazer, lembrando que cerceamento dos direitos políticos dos negros. Então é uma democracia imperfeita, como vários autores hoje já começam a colocar, acabando com o mito da maior e mais antiga democracia do mundo. Quando a gente usa esse critério, a gente vê que os Estados Unidos é uma democracia plena de 67 para cá só. E é isso, olha como vai deprimindo o mundo. o número de democracias. E os países que sobrevivem nesse regime são quatro só na Europa, em 1940 isso. Isso aqui já está na guerra. A guerra já está rolando, Hitler já invadiu todo mundo, França está dominada. Reino Unido, Irlanda, Suíça e Suécia. Tem
39:09 cinco nas Américas, que são esses aqui. Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Uruguai e Costa Rica. Cadê Brasil? Brasil está com o regime do Vargas, do Estado Novo, que é de inspiração fascista. Tá? Argentina também, com o Perón de inspiração fascista. Fascismo é o futuro nesse momento. Dois na Oceania, dois países com tradição democrática bem antiga, esses sim, Austrália e Nova Zelândia, e nenhum na África e na Ásia, ou porque estavam colonizados ou porque não tinham instituições pautadas nas ideias liberais democráticas. Então, fica muito claro que esse é um momento bem crítico. Gente, a gente naturaliza a democracia como se ela sempre tivesse sido forte. A democracia é um grande acaso, um grande acidente histórico que a gente conseguiu conservar por algum milagre, porque aqui era
39:59 para ter desaparecido. E é por isso que a Segunda Guerra é tão importante. A Segunda Guerra Mundial é uma guerra que envolve dois projetos bem diferentes. Um projeto seria o continuador da democracia e o outro seria a fundação de um mundo novo, pautado em uma lógica completamente diferente. trouxe duas moedas para a gente analisar da França. Uma é uma moeda de 1930, a França republicana e democrática. E aqui é da França de Vichy. O que é a França de Vichy? Quando os alemães invadem a França, eles dividem a França ao meio e falam, do centro para o norte é nosso, vai ser território alemão. Do meio para baixo, vocês podem ficar com o que sobrou da França. E aí
40:47 vira um regime colaboracionista, que inclusive vai... enviar judeus para campos de concentração, etc. Nesse governo, que vai ter o Marechal Petain como coordenador, eles vão recunhar as moedas francesas para se adequar ao novo espírito do tempo. Olha ali as moedas. A face dela tem República Francesa e com o símbolo daquela mulher que eu mostrei para vocês, que é a Mariane, que está nas pinturas do Delacroix, na nossa cédula de real, símbolo da liberdade, da República. E atrás... Liberdade, igualdade e fraternidade. O lema iluminista que está na base da Revolução Francesa. Treze anos depois, a moeda desaparece, a referência feminina, e aparece esse machado com duas lâminas, que era dos
41:37 antigos gauleses. Os gauleses eram um povo que habitava o que a gente chama de França hoje, antes da conquista dos romanos. O que isso tem a ver? É o tipo de salada... que os fascistas fazem. Eles pegam alguma coisa lá do passado e pegam aquilo para virar o símbolo de orgulho no presente. Resgataram o antigo povo que supostamente seria o francês original, que é o gaulês. Eles usavam esses machados com lâmina dupla. Some a referência feminina, some a referência república e substitui república por Estado francês. Estado. Lembrando do Mussolini, que o fascismo é aquela lógica de um Estado muito poderoso que engole o indivíduo. E atrás some liberdade, igualdade e fraternidade e se coloca trabalho, família
42:25 e pátria. Olha a lógica de inversão de valores. Trabalha aí, vai lá. É isso, né? Trabalha sem reclamar. Valoriza a família e a nossa pátria. Esquece liberdade, igualdade e fraternidade, que isso é coisa do passado. Isso aí não deu certo, não. E aqui é para a gente ver que... Foi por muito pouco que a gente está aqui hoje falando de democracia, porque por um detalhe ou outro a gente não está vivendo hoje num mundo completamente dominado por uma visão fascista. Esse aqui é o mapa da Europa em 1942, é o momento decisivo da guerra. E aqui vale a gente fazer um breve tributozinho a uma figura que, enfim, tem seus problemas, como qualquer sujeito do passado,
43:15 porque viveu em outra época e tudo, mas é o Winston Churchill. Se a gente vê ali, o Reino Unido é o único país que está em azul da Europa. Isso significa que era o único país em guerra com a Alemanha nesse momento. Todo mundo que está em vermelho, vermelho escuro mesmo, é a Alemanha, a grande Alemanha do Hitler, os territórios anexados. A gente vê aqui a França ocupada, a gente vê o leste europeu, fronteira com a União Soviética, sendo que, embora o regime nazista fosse anticomunista, antibolchevista, houve um pacto entre Stalin e Hitler. Stalin é o líder da União Soviética, o primeiro país comunista da história. E esse pacto foi um pacto de não agressão. E, além disso, dividiram a pobre da Polônia ao meio, e os soviéticos invadiram pelo leste, os alemães pelo oeste, fatiaram o país,
44:05 cada qual pegou sua bisteca, e os dois prometeram não se agredir. Com isso, Hitler não vai cometer o erro que a Alemanha cometeu na Primeira Guerra, que foi ter uma guerra em duas frentes. A frente oriental está pacificada com esse acordo de cavaleiros com o Josef Stalin. Hitler investe para o Ocidente e vai, na sua Blitzkrieg, que é a chamada Guerra Relâmpago, esmagar todos os países que ali estavam. A França é derrotada em seis semanas. A França tinha o maior exército da Europa e o mais bem equipado. Mas a tática nazista é tão poderosa, é em tanque na frente, logo atrás em infantaria e avião lá na frente bombardeando. Isso é a Guerra Relâmpago. Investe toda a sua força e velocidade para você liberar o caminho e
44:53 conquistar. A França é humilhada e tem que aceitar um acordo humilhante que vai ser assinado dentro de um vagão de trem, que foi o mesmo vagão no qual a França obrigou os alemães a assinarem a reedição da Primeira Guerra. Hitler humilha. E ele vai desfilar numa foto clássica com a Torre Eiffel no fundo. Então, assim, o negócio é complicado. Ah, mas tem países ali que estão em vermelho claro. São todos que estão aliados à Alemanha. Ah, e tem país em cinza. Cinza são países neutros. Sendo que Portugal e Espanha têm governos de inspiração fascista também. Eles ficam neutros simplesmente porque não querem gastar recursos numa guerra. País democrático neutro. Suécia... Suíça, né? Suíça é sempre neutra, tem até piada que se faz, né? E a
45:39 Irlanda. Só tem o Reino Unido nesse momento, gente. Se não fosse Winston Churchill, a gente não estaria aqui. Na verdade, é uma grande coincidência da história. São três grandes líderes nesse momento que você pode admirar ou não, criticar ou não, mas sem a combinação dos três, na hora certa, a gente não estaria aqui hoje. Winston Churchill, no Reino Unido. Daqui a pouco a gente vai saber por quê. Stalin na União Soviética e... Roosevelt nos Estados Unidos. Esses três caras, com as suas decisões corretas, conseguiram evitar a supremacia do eixo e que o mundo hoje vivesse numa ordem mundial fascista. Nesse momento, Hitler tem tudo na mão, só precisa invadir o Reino Unido, se apropriar dos recursos do Reino Unido e das indústrias inglesas. Se ele tivesse feito isso,
46:25 ele tinha ganho a guerra. E aí Churchill, contrariando todo mundo do grande escalão da Inglaterra, que falava, cara, acabou. Hitler venceu. Negocia com esse cara. Vamos negociar que a gente sai menos pior do que enfrentar esses caras numa batalha e perder. E Churchill vai ser firme, cara. E graças a ele, a Inglaterra vai resistir. Ainda que sozinha. Porque os Estados Unidos não estão na guerra ainda. Estão neutros. E aí você vai ter dois episódios. Um está registrado num filme que pra mim é o melhor filme de guerra que já foi feito, que é Dunkerque. Que é sobre a retirada das tropas da região de Dunkerque, que eram tropas francesas e inglesas que foram derrotadas e, enfim, estavam completamente desorientadas. E o Churchill faz a
47:11 Operação Dínamo para resgatar essas pessoas, uma operação completamente louca, mas que deu certo. Ele pediu para todo britânico que tinha um barco ajudar a resgatar os soldados. E a população vai resgatar os soldados, cara, e a região sendo bombardeada, e deu tudo certo. E, graças a esse resgate, a Inglaterra não podia ser invadida com infantaria. porque teria exércitos ali para protegê-la. Sobra a opção de invadir por mar, mas por mar nem Napoleão conseguiu, e não era Hitler que ia conseguir, porque a Inglaterra sempre teve a sua vocação marítima muito poderosa. Exatamente, e vai afundar o Bismarck, o Bismarck era o grande navio de guerra da Alemanha. Vai afundar o Bismarck, sobra uma última alternativa para Hitler, pegar sua força aérea inteira e bombardear o Reino Unido sem parar. E aí
47:57 vai ter... a maior guerra aérea da história da humanidade, que é a chamada Batalha da Inglaterra, que aparece no filme do Dunkerque mais ou menos, um pouquinho dos primeiros confrontos, está em música do Iron Maiden, enfim, está em tudo quanto é lugar esse episódio emblemático. Você vai ter o enfrentamento da Royal Air Force da Inglaterra contra a Luftwaffe da Alemanha. E os caças Spitfire do Reino Unido vão se mostrar muito bons, com o motor diferenciado, enfim... A sorte está a favor, e a técnica a favor dos britânicos. Consegue derrotar a força aérea alemã e impedir o colapso da Inglaterra. Sempre lembrando que, se a Inglaterra fosse derrotada, acabou a guerra. Porque aí Hitler teria só uma frente, que seria a frente oriental, e agora contando com os recursos estratégicos
48:45 do Reino Unido, que não são poucos. E depois disso, seria invadir os Estados Unidos e dividir os Estados Unidos ao meio, o Japão pelo Pacífico, pelo Atlântico à Alemanha. Tem um livro de ficção sobre isso, do Philip Dick, que se chama O Homem do Castelo Alto, que também virou série do Amazon Prime. Propaganda gratuita aqui. E tem uma frase do Churchill que é muito boa, que ele fala que nunca na história tantos deveram tanto a tão poucos. Esses tão poucos eram os pilotos jovens de 19, 20 anos da RAF, da Força Aérea Real Britânica. De fato, ali foi contido a ameaça nazista, Hitler não consegue invadir o Reino Unido, Hitler precisa de recursos para continuar a guerra e ele vai ser obrigado a
49:31 romper seu pacto com Stalin. E aí vai ser o segundo grande erro do Hitler. O primeiro foi tentar invadir o Reino Unido, agora é invadir a União Soviética. Um território extenso, temperaturas baixas. A União Soviética, na verdade a Rússia, no passado, já tinha sido invadida pelo Napoleão. Os russos tinham feito uma tática de terra arrasada, indo para o interior, e abandonando cidades inteiras, e eles vão meio que reproduzir a mesma estratégia, e quando o inverno russo chega, não sobra pra ninguém. Os alemães se estreparam nessa brincadeira, porque não tinham condições, nem mesmo roupas adequadas pro inverno russo. E aí começa a virar guerra. Estados Unidos entra no conflito, e aí vem os recursos americanos. Estados Unidos, a maior potência industrial e econômica,
50:18 manda recursos pra todo mundo, pra União Soviética, Reino Unido, todo mundo começa a ganhar, alimentos, armamentos, blindados, aviões, enxurra de recurso. E com esses recursos, a sinergia entre Churchill, Roosevelt e Stalin vai finalmente conseguir fazer com que a ameaça fascista desapareça. E a gente vai ter a vitória dos aliados. Isso sem falar milhões de detalhes da guerra, como Alan Turing, que foi o precursor aí, ele inventa o protótipo do computador no contexto da guerra, no Reino Unido. Ele consegue decifrar o código nazista com o protótipo do computador. O código era dificílimo de decifrar. Ele consegue, com essa
51:05 invenção, solucionar um problema e, com isso, o Reino Unido conseguia antecipar os movimentos dos nazistas. Tem um filme sobre isso, O Jogo da Imitação. E o destino do Turing é terrível, porque ele era homossexual, E na época, na Inglaterra, na liberal Inglaterra da década de 50, era crime ser homossexual. E ele vai ter que ser obrigado a escolher entre a prisão ou a castração química. Ele escolhe a castração química e logo depois ele entra em depressão e se suicida. Só trazendo esse caso para a gente lembrar que quando a gente fala em democracia, Inglaterra liberal, a gente tem que pensar muito no contexto da época. Enfim, isso aqui é uma brevíssima história da Segunda Guerra. E diante disso, aqui estão os três reunidos. Pode ter mil críticas a cada um deles, mas sem os três
51:54 juntos ali, a gente não estaria aqui hoje. Então, enfim, Churchill, Roosevelt e Stalin, da esquerda para a direita. Uma curiosidade é que o Roosevelt, do meio, o presidente americano, ele era cadeirante. Ele tinha pólio e graças a ele, hoje é uma doença erradicada. Houve um grande desenvolvimento das vacinas e tudo. Bom, beleza, mas por que a gente está falando que o fascismo era uma ameaça? Porque até agora eu não falei o que é o fascismo. Eu só falei que ele é um projeto que vai contra o projeto iluminista e contra a democracia, mas a gente não definiu ainda quais são as características do fascismo. O fascismo tem cinco características de base. Só uma coisa,
52:41 eu peço até perdão, que eu tinha separado o discursozinho do Churchill para botar aqui, tem dois minutinhos. Enfim, vou pedir para o pessoal ir preparando. Esse discurso foi proclamado justamente no momento em que você ouve a quase total dominação da Europa continental pelo Hitler. Era no momento em que ele estava sofrendo muita pressão da elite política britânica para fazer acordos com Hitler, e ele não queria fazer. E é o momento em que ele vai fazer um desses discursos célebres, que acabou entrando para a história, que é o famoso discurso que a gente conhece como... nunca
53:36 nos renderemos.