Transcrição completa de “Por que algumas pessoas mandam e outras obedecem? | Sociedade Invisível #3”. Clique em uma marcação de tempo para abrir o vídeo naquele momento. Precisa de outro vídeo? Use o gerador de transcrição do YouTube.
0:00 Bem, hoje nessa terceira aula, a pergunta que vai nos nortear é a seguinte: como nascem as desigualdades sociais e dentro delas, como que nasce o sentimento que algumas pessoas têm de elas se sentirem superiores às outras pessoas? Como que acontece que algumas pessoas realmente acreditam ter mais direito do que outras pessoas? Para começar a responder essa pergunta, vamos voltar ao nosso exercício de imaginação das outras aulas, tá bem? Imaginem que a gente pega novamente nossa máquina do tempo e acorda um belo dia numa dessas comunidades aí por volta
0:47 de 10.000 1 anos atrás, quando essas tribos, nesse exato momento em que as tribos começaram a migrar de uma forma nômade para uma sedentária fixa no mapa, né, no terreno. Hum. Que que a gente veria num primeiro olhar? A gente ia ver muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Imagina, vocês estão lá observando uma tribo dessa funcionando. Acordaram lá e estão olhando o que que rola. Vocês iam ver gente mexendo na terra um lado, vocês iam ver gente carregando o cesto no outro lado, vocês iam ver gente, sei lá, separando sementes no outro lado. Hã, vocês iam ver gente e reparando uma área de abrigo, gente indo e voltando de um
1:32 espaço lá mais adiante, onde os grãos estão guardados. daqui a pouco uma rodinha de pessoas discutindo em pequeno grupo eh o que que pode ser usado, o que que vai ser guardado, o que que precisa ser reservado, né, em relação aos alimentos. Vocês começam a ver algumas pessoas daqui a pouco com algum tipo de de de lança, algum tipo de de instrumento protegendo determinados locais, os armazéns. Imaginem que vocês estão olhando essa estrutura que começa a se estratificar. Se a gente fica mais alguns dias ali observando isso, nós vamos notar uma regularidade, ou seja, nós vamos ver que são as mesmas
2:18 pessoas que voltam para os mesmos pontos. O que tá separando semente continua separando semente no outro dia. O guarda continua sendo guarda. A pessoa que tá plantando continua plantando. Pessoal da rodinha é sempre o mesmo. Essa é a ideia do trabalho começando a ganhar lugar fixo no grupo. E as mesmas pessoas realizando as mesmas tarefas. São tarefas diferentes, feitas por pessoas diferentes, mas cada um está realizando a mesma tarefa ao longo do tempo. Deu para pegar? Agora é diferente do dos grupos nômades,
3:07 onde o grupo faz tudo que meio junto, a mesma coisa, certo? Agora cada um começa a ganhar uma identidade, cada um começa a ganhar uma função específica. Deu para pegar? Por quê? Porque não basta colher uma vez o alimento. Tem que guardar o excedente sem estragar. Não basta plantar uma vez. Tem que proteger essas sementes. Tem que cuidar do ciclo, decidir quem faz o quê. Não basta só ter alimento, tem que distribuir esse alimento, controlar o uso desse alimento, prever a escassez desse alimento. Não basta agora só construir um abrigo temporário, tem que se fazer a manutenção agora constante dos abrigos, reparar esse abrigo, organizar espaços crescentes, sociais,
3:53 uma vez que essa tribo vai se expandindo em termos de quantidade de pessoas, começa a surgir uma estrutura. Que estrutura é essa, Fernando? produção armazenamento proteção distribuição, cuidado com ferramentas, organização de tarefas, sei lá, mediação de conflitos, dentre muitas outras. Vocês entendem? Começa a surgir uma arquitetura interna do grupo que antes não existia. E isso muda a forma como as pessoas se relacionam, porque a partir daqui elas já não se relacionam apenas como membros anônimos de um mesmo coletivo, em que todos fazem a mesma coisa devido
4:38 a uma necessidade de subsistência, como vimos lá atrás que era nas tribos nômades. Agora, essas pessoas passam a se relacionar também com base nas posições que elas ocupam dentro desse funcionamento fixo e estável. Todo dia eu faço a mesma coisa. O João também, o Pedro também. Todos nós agora temos funções diferentes e repetimos essas funções. Reparem que nessa divisão algumas posições ficam mais próximas daqui a pouco de recursos importantes de informações essenciais de logística ou de tomada de decisão. Hã, outras atividades ficam mais distantes em termos de importância ou com menos poder de influência, digamos assim, tá?
5:26 Algumas pessoas passam a ter mais capacidade daí de influenciar inclusive funcionamento coletivo. Como a gente viu nas aulas anteriores em grupos nômades, as funções de lideranças elas eram provisórias e todos voltavam a ser anônimos dentro do grupo depois que se concluiu uma atividade de momento. Certo? Aqui é coisa diferente porque as atividades não se concluem. Hum. Percebem a diferença? Elas são agora um contínuo. Elas são agora o seu trabalho, a sua profissão. Você vai fazer isso todos os dias. Então, cada pessoa começa a ter colada nas costas uma um um papelzinho dizendo: "Esse é o fulano." Fulano faz assim, essa é a atribuição fixa dele. Hum.
6:16 Só que algumas dessas coisas são mais importantes do que outras. E algumas dessas pessoas vão ter mais privilégios do que outras. No começo, alguém pode olhar para essa estrutura funcionando quando a gente acordou nessa tribo e viu, né, cada um fazendo uma coisinha, olhar e dizer: "Tudo bem, isso é só divisão de tarefas em algum nível". É verdade. Todo grupo complexo precisa de alguma diferenciação de função. Mas o ponto importante começa quando essas diferenças deixam de existir só no papel e elas passam a produzir diferenças práticas de acesso. Novamente, algumas funções vão começar a ser mais importantes do que outras. E é sempre a mesma pessoa que faz as funções, não é? A X é o João, a Y é o
7:05 Pedro. Se a função X do João é mais importante do que a Y do Pedro, logo João vai começar a ter mais importância do que Pedro. É isso que vai começar a acontecer. De repente, João tá perto do do do trabalha com armazenamento, sabe quando que vai ter escassez? Ele sabe eh quem tá quem quem que decide, sabe? Tá perto das pessoas que decidem sobre como que vai ser a divisão de alimentos. Ele sabe quem que vai tá ligado à defesa, não é? Que tem mais proteção em situação de conflito. Daqui a pouco ele tá num cargo desses. Só que daqui a pouco daí João consegue coordenar tarefas,
7:50 consegue influenciar o ritmo, prioridades, distribuição de recursos. Tudo isso envolve um certo poder, um certo privilégio. Ao mesmo tempo, quem tá lá na base, uma atividade mais braçal, que executa mais, passa o dia plantando, mas não planejando algo, começa a decidir pouco sobre o grupo. Hum. Daqui a pouco a pessoa que planta, que capina e que colhe não é nem mais para si, mas pros outros que começam a mandar nela. A pergunta social já não é só quem é
8:35 essa pessoa. Reparem, a pergunta passa a ser também, o que que essa pessoa controla? de quem ela está próxima, o que que ela pode facilitar ou dificultar, o que acontece se eu entrar em conflito com ela, de quem eu dependo para ter acesso a algo importante? Se João trabalha na defesa ou no estoque ou no armazenamento, ele começa a ter esta dança, ele circula entre pessoas que têm esses acessos, que podem indicar alguém para alguma coisa, que podem daqui a pouco pegar um recurso a mais para determinada área de seu interesse.
9:20 Vocês entendem? Percebam que a vida social vai começar a ganhar aqui centro e periferia. Agora, nesse cenário, nós não estamos mais falando apenas de duas funções diferentes. Reparem nisso. Nós estamos começando a falar de posições diferentes dentro da estrutura e essas posições passam a oferecer acesso aos diferentes. Além disso, tem um segundo elemento que amplia esse processo de diferenciação que tá começando a surgir, que nós estamos vendo aqui, né? Tem um segundo elemento. Vejam, existem diferenças reais entre as pessoas. Isso é um fato.
10:08 Hum. diferença de habilidade, de temperamento, de presença social, de capacidade de organização, de força física, diferença de de disciplina, né? É uma pessoa tem mais frieza em uma situação de tensão, tem mais rapidez no seu raciocínio ou na aprendizagem. Essas diferenças existem, sempre existiram. Só que agora quando nós estamos em uma estrutura relativamente estável, nós passamos a observar, a comparar e a usar essas diferenças continuamente para distribuir lugares, confiança e acessos. Essas diferenças, portanto, começam a se tornar cumulativas. Agora, essas diferenças vão formar uma
10:54 espécie de currículo sobre cada pessoa. Aí que tá. Uma pessoa não tá somente indo bem hoje numa função, ela começa a cora outro não tá apenas indo mal numa tarefa, ela começa a perder espaço, confiança ou prestígio dentro do grupo. Já outra pessoa começa a ser vista como promissora. Hum. Já a outra começa a ser vista como pouco confiável. Já a outra começa a ser vista como, ah, essa aqui é facilmente substituível, só planta, qualquer um consegue plantar, entendem? Começa a ter um juízo de valor atribuído
11:40 à capacidade de cada um e a posição que cada um ocupa, diferente como era no cenário nômade de subsistência. Percebam aqui agora a diferença de desempenho vai se transformando em diferença de posição ao longo do tempo. E a diferença de posição vai começando a se transformar em diferença de valor social. As funções, as profissões t pesos sociais distintos em termos de influência e importância. É isso que nós estamos vendo. O cara que planta não tem o mesmo peso do cara que coordena. você ser o cara que planta,
12:27 não tem o mesmo peso do cara que defende o território. Então, com a estabilização da vida do grupo e o surgimento de tarefas mais especializadas, diferentes entre si, e alguém vai ter que ser o que planta e outro vai ter que ser o que coordena, começam a surgir desigualdades primeiro em forma de diferença de função. No início é só a pessoa tá ocupando uma função diferente, beleza? Mas depois essa função começa a dar acessos diferentes dentro do próprio grupo. Acesso a recursos, a proteção, a informação, a poder de decisão. Hum. Depois veja o que acontece. Essas diferenças começam a mudar o jeito como
13:15 cada pessoa é tratada no dia a dia. Quem quer ouvido com mais respeito? Hum. Quem precisa decidir com cuidado? Quem pode circular com mais liberdade? Quem que é vigiado? Quem que é tolerado quando erra? Nã quem que perde espaço mais rápido? Tudo isso começa a acontecer com o tempo e com o passar do tempo, mais ainda, a pessoa passa a se enxergar a partir do lugar que ela ocupa. Passa a sentir mais vergonha ou mais confiança de quem ela é, passa a esperar mais rejeição, reconhecimento do meio,
14:01 dependendo do que ela faz. e até ajusta os próprios desejos ao que ela aprendeu que é paraa gente como ela, vamos dizer assim, né? Ou não é gente como ela, só que tá fora da minha alçada. Hum. Guardem esse movimento porque ele vai acompanhar a aula inteira. Nós vamos ver com bastante calma como isso vai surgindo ao natural. O que começa como uma organização prática de divisão de tarefas simples necessária, aos poucos vira desigualdade social. E o que vira desigualdade, aos poucos vira exclusão social. É, essa pessoa tem menos valor do que
14:46 eu. Entendem? movimento. É importante que se diga, essa desigualdade inicial não nasce porque alguém decidiu conscientemente explorar os outros. via de regra, ela aparece como efeito da própria diferenciação das funções dentro de uma estrutura fixa. Ora, se as funções são diferentes e tem pesos diferentes, valências diferentes, é sempre a mesma pessoa que faz determinada função, isso vai inevitavelmente terminar na desigualdade social. Hum. é uma consequência do processo.
15:34 Uma vez que essas diferenças de acesso se estabilizam, de pessoas que têm um pouco mais de privilégios, dado uma posição e pessoas que têm menos, vai acontecer um julgamento social e psicológico em que pessoas começam a ter mais valor e outras menos valor, atribuídas ao que elas fazem ou quanto elas têm. Já não é mais um pensamento do tipo, beleza, todas as pessoas aqui são são minhas irmãs, são iguais, né? Nós apenas fazemos funções diferentes. Enquanto eu cuido da defesa do território, da administração dos recursos, das fronteiras, ele limpa as casas, mas somos irmãos. Pode ter começado assim,
16:20 só que no fim do dia ou no fim da semana eu vou querer confraternizar, não vamos, vamos dizer que eu que a gente vai tomar cerveja no pubolítico ali, né? tomar cerveja de mamute. Aos poucos eu vou querer confraternizar com os meus iguais, com os meus colegas de trabalho lá da administração, onde a gente pode trocar mais informações e recursos e fazer piadas internas que o cara lá que tá limpando a casa vai ficando para trás. começa a surgir uma ideia inconsciente. Olha, tem gente mais importante, tem gente menos importante. Eu vou vou me reunir para tomar minha cerveja de mammute com os colegas,
17:08 não com o carinha que limpa a casa, porque que que eu vou conversar com ele? Já não tem muita coisa e é de igual com ele, né? Já não posso compartilhar as informações de defesa da tribo. Ele não vai nem entender. É muito complexo para ele. Vocês entendem? Eu começo a me identificar com os meus iguais, entre aspas, né? Percebem? E isso é um movimento natural. Quem está mais perto tende a se aproximar. Não é assim? vive o mesmo dia a dia, vai criando afinidade, vai criando uma pequena tribo dentro da tribo maior. Agora, nesse cenário hipotético, vamos
17:56 imaginar que quem controla os recursos tende a criar alianças. Alianças, inclusive, reparem, de como continuar nesses cargos de forma fixa, de como fazer leis que beneficiem a si, a seu estilo de vida. Vamos criar agora uma lei que quem tá lá plantando tem que dar um pedaço pra gente. Faz sentido? Pra gente gerir? Vamos criar uma lei que quem planta paga mais do que quem tá aqui administrando em termos de taxas. Exagerando ponto. Mas vocês entendem? Aos poucos,
18:42 o grupo continua sendo um só por fora, mas vai começando a se dividir por dentro. Essa divisão não é igualitária. As pessoas começam a agir estrategicamente em relação às relações. Agora não, nem todos são irmãos, seres humanos. Existem pessoas mais iguais que as outras. Vocês entendem? E essas pessoas tendem a se lançar numa tribo e tendem a se proteger. Claro. Agora as pessoas passam a começar a agir também para manter proximidade, evitar perda de influência, ganhar confiança, bloquear o avanço dos outros. Vai que alguém quer pegar meu cargo, vai que
19:27 esse cara aí que tá limpando casas quer também pegar esse cargo administrativo. Não, vamos criar leis que não permitam essa ascensão. Vamos preservar o acesso para poucos. Aqui começa a nascer a política no sentido mais básico da palavra. A política começa quando as pessoas passam a agir não apenas para sobreviver, mas para preservar ou disputar posição dentro da estrutura. Uma vez que ela é fixa e os cargos estão sempre ali à disposição, sempre vai precisar do cara que gere [roncando] cuida da defesa, hã, vai começar uma disputa entre as pessoas para esses melhores cargos,
20:13 porque quem quem coordena o trabalho pode decidir quem participa de certas decisões, quem que fica de fora, quem que paga mais, quem que paga menos. Como é que a banda toca? Não é assim? Quem controla o armazenamento pode favorecer alguns, de repente em momentos de escassez, certo? Pode dificultar a vida de outros. Quem tá mais próximo da defesa pode usar essa proximidade como proteção pessoal. Quem tá perto de liderança pode influenciar quem é visto como confiável, quem é visto como problemático, quem merece mais espaço, quem merece menos. Percebam como a dinâmica do grupo vai
20:59 mudando de caráter qualitativo. Começam a surgir trocas de favor, começa a surgir alianças informais, começa a surgir pequenas disputas mais por debaixo dos panos. começam a surgir critérios e leis que favorecem certos grupos. Começam a surgir punições a quem desobedece certas regras. Hum. Regras que visam proteger o status quo. Qual status qu? Eu numa posição boa, né? Começa a surgir então proteções seletivas. Afinal, as leis são feitas para proteger o sistema vigente, não é assim?
21:46 E isso produz um efeito muito importante no tecido social. O grupo que ainda é um só formalmente no papel, a tribo maior, né, vista de fora, ela começa a se fragmentar psicologicamente por dentro. Ainda é a mesma tribo, ainda é o mesmo território, ainda é o mesmo sistema de produção e defesa, mas já não é mais um corpo unitário, gente. Não é mais aquele corpo em que todos os membros da tribo são anônimos, dividindo a mesma função, dividindo a mesma comida. Hum. E todos têm, portanto, o mesmo valor, como era nas tribos nômades, caçadoras e coletoras. Vimos em outras aulas. Agora existem pessoas mais especiais que
22:32 outras, mais importantes que outras, que começam a ter mais recursos do que outras, mais poder do que outras. Quando isso acontece, aparece uma necessidade muito importante para quem tá em uma posição vantajosa. Sabe o que que surge? Surge a necessidade de se justificar, de justificar a desigualdade, justificar porque eu tô tendo vantagem sobre o outro, justificar porque eu tô sendo tão egoísta. Hum. Porque assim, às vezes a pessoa tá numa posição dita em cima porque ela tava no lugar certo, na hora certa, quando surgiu uma necessidade importante no grupo.
23:20 Às vezes foi ela quem assumiu uma função estratégica no momento de crise, daí ali ela ficou, né, passou a receber mais confiança. Às vezes, sei lá, alguém tinha que ocupar inicialmente aquela posição, ela ocupou e as coisas foram tomando uma distinção e lá ela ficou, tá? Às vezes ela é amiga ou parente de alguém importante, não é assim? Às vezes deu certo uma escolha que ela fez e esse acerto virou prestígio. Então isso pode incluir sorte, um momento histórico específico nas contingências externas, proximidade com quem decide. oportunidades que aparecem foram aproveitadas, né? Enfim, muitas vezes
24:05 ela pode estar em um cargo dito superior devido a muitas contingências externas. E também outras vezes, por que não, a sua posição de destaque no grupo pode ter vindo por uma competência real, esforço real, disciplina mesmo. Essa pessoa fez mais do que os outros. Essa posição pode ter vindo porque ela é mais capaz. Aí que tá. Esse é justamente o ponto mais importante, gente. Mesmo quando a coisa veio por mérito, isso não justifica moralmente o sujeito pensar: "Ora, então agora eu posso gozar dos
24:51 louros enquanto os outros se arrebentam. Ora, eu mereço conforto e eles que se danem, eles que que segurem o peso. Hum. Ora, eu posso comer bem enquanto os outros passam fome, porque eu conquistei isso, porque eu sou mais habilidoso. Reparem gente uma coisa é a gente explicar como alguém chegou a uma posição. Isso pode ter sido por sorte, por contatos ou por competência. Indiferente. Uma vez que eu estou lá, eu tenho que justificar o meu egoísmo de não dividir mais com os outros. Percebem? Porque uma
25:36 coisa eu estar num cargo desses de privilégios, outra coisa bem diferente é transformar essa posição em autorização para eu ser egoísta. É ou não é verdade? Essa é a questão. Só que admitir isso gera muito desconforto, porque obriga a pessoa que tá nessa posição a reconhecer que seu mérito em uma competência específica não apaga a violência de certas escolhas. Então, muitas vezes, o que que essa pessoa faz é abafar esse conflito dentro de si mesma e ela troca a pergunta. Ao inv vez de se perguntar isso é justo? Eu ter mais que os outros
26:21 é justo? Sei lá, eu ter excesso do que comer e jogar fora as sobras enquanto os outros não tm o que comer. Isso é justo. Eu será que eu tô sendo uma pessoa boa? Não, não, não. Essas perguntas incomodam. Então o que que ela faz? Ela troca essa pergunta moral por uma narrativa de merecimento. Eu mereço. O mundo é assim. Horas, cada um faz o seu. Eu fiz o meu. Não tenho nada a ver com esses outros. Hum. Essa narrativa alivia a consciência. Isso quando o mérito vem por competência, né? Porque na grosseira a
27:06 maioria das vezes não é o caso. Nós vamos ver mais adiante a ideia do surgimento da herança, né? Não só no sentido de dinheiro passado de pai para filho, mas de influência de onde a pessoa nasce, né? Herança social da classe que a pessoa nasce, que já facilita o processo para ela ou dificulda né? Falaremos os tal dos dos nepoabies, como chamam hoje em dia, certo? Ah, eh, e tem um fator que facilita ainda mais esse alívio mental da culpa, né? facilita muito. Quanto menos contato direto eu vou tendo com quem tá nas camadas de baixo que vão surgindo, dada
27:53 essa estratificação que aos poucos vai se firmando. Quanto menos contato eu tenho com as pessoas que estão na camada de baixo, hum, mais fácil fica não sentir o peso moral do próprio egoísmo. Quanto mais distante eu fico do outro, mais fácil dizer que o problema dele não tem nada a ver comigo. Quanto menos eu convivo diariamente com essas pessoas, menos empatia eu sinto, menos culpa eu sinto por est usando meu privilégio de forma egoísta, né? Então pensem numa tribo. Vamos voltar. tribo nômade, caçadores e coletores.
28:39 Eles viviam via de regra em grupo de 20, 30, 40 pessoas reunidas ali. Pensem que o melhor caçador dividia a comida com todos, inclusive com quem foi caçar com ele e não caçou porcaria nenhuma e voltou de mãos vazias, tá? A pessoa que, sei lá, tava fazendo o reparo dos abrigos provisórios que eles montavam, vamos supor, montava para todos. Ela não dizia: "Vou montar só o meu abrigo". Por quê? Porque na prática aquele grupo funcionava com um mesmo corpo, como um mesmo grupo unitário. Não fazia sentido dentro da cabeça daquelas pessoas dizer: "Eu que cei logo
29:25 a comida é minha, o resto que se vire". Isso, isso, e isso, esse pensamento era inconcebível na época, não fazia sentido. Eles nem conseguiam elaborar essa essa percepção. Por quê? Porque a pessoa que tava dormindo ao lado dela tinha o mesmo valor que ela, não tinha a ideia de um ego constituído e éramos todos o mesmo grupo, a mesma unidade. Vocês entendem? Como é que eu vou dormir do lado de alguém que tá morrendo de fome e eu tô com a barriga cheia? Você não vai conseguir. E não é por uma questão moral sofisticada dessas tribos. Não vamos romantizar. É porque para eles, por uma questão de proximidade
30:11 empática, todos eram os mesmos. É como se fossem braços e pernas de uma mesma estrutura maior, que era a célula célula tribal. Aquela pessoa era um irmão dela. A dor do outro se tornava minha, porque era uma dor visível, certo? De novo, não se trata de uma questão moral aqui. Isso é importante a gente distinguir nessas aulas. Ah, os povos passados eram bonzinhos e agora os os atuais são mazinhos. Não é isso, tá? As pessoas não eram boas nem más, assim
30:56 como não são hoje boas nem más. Isso que eu quero que vocês entendam. Não [roncando] se trata disso. É como transmite. Vamos além do bem e do mal. O que eu quero passar em que determinados cenários as pessoas vão agir de determinada forma, em outros cenários elas vão agir de outra forma. Vocês entendem? Ou seja, o modelo ao qual nós estamos vivendo vai influenciar o nosso pensamento, os nossos sentimentos, em consequência os nossos comportamentos, a forma como a gente vai tratar os outros. Entendem? Tanto que as essas tribos nômedes muitas vezes elas rivalizavam e atacavam outras tribos, tá? Não se trata do mito do bom selvagem. A questão é em que em certos
31:42 ambientes determinadas características vão proliferar com mais facilidade ou não. Ou não, né? Qual o estilo de vida que desperta o melhor ou pior em nós? Essa é a questão. O ser humano, gente, ele é um ser feito para se adaptar ao contexto, tá? Ele é feito para sobreviver, a se adaptar ao contexto. Se o contexto é de colaboração, o ser humano vai colaborar. Se o ser Se o contexto é de competição, ele vai competir. É isso que eu quero que vocês enxerguem para irmos além de simplificações né? O ser humano é bom ou mau na sua essência?
32:28 Muitas pessoas perguntam, hã, essa pergunta, ela tá errada na sua formulação, ela não faz sentido. É a mesma coisa que perguntar se um cachorro é bom ou mau, se um pedaço de pão é é é bom ou mau. Vocês entendem? Se um se um passarinho é bom ou mau, essas perguntas não fazem sentido, tá? Agora vejam. A medida que o grupo se se se sedentariza, se fixa, cresce, né, se complexifica e vão surgindo várias tribulos dentro de uma só. À medida que ele vai ampliando, à medida que vai tendo essas
33:14 especializações de trabalho, estratificações, vai tendo mais gente. É óbvio que esse campo de visão empático vai se estreitando para todos nós. O outro vai ficando mais distante, mais abstrato, mais invisível. A tendência humana é ter empatia por quem tá perto, por quem convive comigo, por quem eu vejo. Num grupo nômade pequeno, isso é fácil, 20, 30, 40 pessoas, isso alcança quase todo mundo, meu olhar empático. Mas quando você começa a imaginar um grupo de 5.000 pessoas, 10.000 pessoas, 100.000 1 pessoas, 1 milhão de pessoas, começa a ficar bem mais complicado.
34:01 E essas pessoas com funções separadas, espaços separados, vidas separadas, fica muito mais fácil dizer: "Isso não é problema meu". Afinal, eu nem conheço a pessoa. E é verdade, eu nem conheço a pessoa. Percebem? Não se trata de sermos mal, nossa grossa maioria. Mas hoje as pessoas vivem dentro de um sistema que permite essas discrepâncias. É isso que eu quero que vocês enxerem. Isso tem a ver com o próprio limite da natureza humana. A empatia em geral, ela tem um raio muito curto, gente. Por quê? Porque para eu conhecer tudo, né? Como é que eu vou conhecer 5.000 pessoas? Não
34:47 tem tempo nem espaço para isso. Eu vou conhecer 20, 30, né? o nome das pessoas, o que fazem, vão conviver comigo, né? E aí eu vou ter empatia por essas pessoas. O efeito contrário da empatia é: aqueles que eu não conheço vão aos poucos se tornando certos rivais ao grupo que eu quero proteger. Só que na nossa sociedade, nós vivemos em vários grupos, várias tribos que vão se chocando dentro de uma tribo maior. Hum. Então, a estrutura social, ela pode ampliar esse raio ou pode encurtar ainda mais o raio empático. Quando ela encurta, no sentido de que a população vai aumentando e as tarefas vão fazendo as pessoas as tarefas especializadas vão fazendo com que as pessoas se distinguam muito uma das outras, fica muito mais fácil transformar
35:33 privilégio em merecimento egoísmo em normalidade, que foi o que aconteceu ao longo da história, né? O homem virou o lobo do homem, mas ele vira o lobo do homem quando ele deixa de ver o seu semelhante como um semelhante e passa todo momento competir com ele por recursos, como é a nossa sociedade de hoje. Então, quem ocupa o topo e pega mais recursos para si, ao invés de se ver como egoísta, vai começar a pensar que é uma narrativa mais simples e e e mais confortável. Olha, eu tô aqui porque eu mereço, eu tô aqui porque eu sou mais capaz,
36:19 eu tô aqui porque eu sou mais disciplinado. Hum. Se eu tô nessa posição é porque eu provei o meu valor. Se o outro tá embaixo é porque ele não teve competência. Ele é inferior a zaro dele. Ele merece passar fome. Eu, né, tenho direito de jogar fora o que eu quiser dos meus alimentos. Eu paguei por eles. Reparem novamente. Claro aqui só uma analogia do alimento, né? Reparem novamente aquilo que era em boa parte uma diferença de posição dentro de uma estrutura. No início era só assim: "Tá bom, fulaninho, tu tu planta enquanto a gente vai gerir aqui o que foi eh plantado, tá beleza?" de igual começa a criar um abismo,
37:05 começa a ser interpretado agora como diferença de valor humano. O, vamos chamar assim, o diretor do exército lá, né, o tenente, o capitão, o major, sei lá, é o do exército das tribos, vamos chamar assim, tem valor. Ele começa a andar daqui a pouco com uma roupinha que mostra o valor dele, né? Ele começa a pintar estrelinhas no peito dele que ele mesmo fez para ele. Olha que coisa mais fofa, né? Já o faxineiro da tribo é alguém sem valor nenhum, facilmente substituível, porque qualquer outra pessoa faz aquilo. Facilmente substituível por qualquer um da sua classe,
37:51 que a profissão tem menos valor, logo aquela pessoa tem menos valor. Isso é o central pra gente entender o tema de hoje, porque a exclusão social não começa apenas quando tem diferença de função. Ela ganha força quando a diferença de função, de posição, vira julgamento de valor sobre as pessoas. Faz sentido, gente? Não é sobre as diferentes posições que as pessoas ocupam. é que o valor pessoal das pessoas começa a ser atribuído, dada as funções que elas ocupam,
38:38 OK? Não é mais ah, ele ocupa outro lugar, começa a ser, ele é inferior. Não é só ah, ele tem menos acesso, começa a ser, ele não merece acesso. É bem diferente, vocês percebem? Eu já olho para essa outra pessoa com antipatia, com raiva e às vezes até medo. E um medo justificado, porque essa pessoa que agora tá em uma tribo diferente da minha em termos de acesso e bens materiais e serviços, ela, essa pessoa na tribo inferior vê a superior muitas vezes também com raiva, também com antipatia, também com descrédito. Começa a ter uma disputa aqui entre a tribo. Vocês percebem? Entre vários
39:26 grupos uma disputa muitas vezes silenciosa. É aqui que a desigualdade começa a ganhar essa camada moral. Quem tá em cima passa a se sentir legítimo. Quem tá embaixo começa a ser visto como naturalmente menos incapaz. E aos poucos esse arranjo histórico começa a parecer a ordem natural das coisas. Novamente, diferenças de habilidades existem. Diferenças de temperamento entre as pessoas, gente, elas existem. Diferença de quanto as pessoas se esforçam existe, né? Diferença de escolhas de vida também
40:13 existem. O ponto não é sobre a gente dizer que todos são iguais e negados diferença. O ponto é outro. Uma coisa é reconhecer a diferença, outra coisa é transformar a diferença em superioridade moral e usar essa superioridade moral para legitimar a exclusão dessas pessoas da sociedade. Exclusão através de de de de diminuição de recursos que essas pessoas podem ter, de direitos que essas pessoas podem ter. Por quê? Porque as leis vão sendo criadas por quem tá lá em cima no bem bom. Não é assim?
40:58 É assim que a banda toca. Esse é o movimento que nos interessa aqui. E vejam, esse movimento todo de quem tá agora no grupo de cima, seja por competência, seja por sorte, seja pelo que for, vai ficando ainda mais forte quando aparece uma pergunta nova dentro desse grupo. A pergunta é: como garantir a nossa continuidade nesses cargos que são tão bons? Hum. Garantir esse nosso estilo de vida. Afinal, esses cargos trazem tantos benefícios dentro da tribo, certo? Eu tenho mais recursos, mais conforto. Como garantir essa posição hierárquica
41:44 que nos favoreça? Porque se uma posição oferece mais acesso, mais proteção, mais prestígio, mais segurança, quem ocupa essa posição não vai querer usufruir disso só no presente, né? A sociedade não vai se dividir de uma forma que diz assim: "OK, hoje eu vou, eu tô aqui sendo o comandante, mas amanhã eu vou varrer o chão e aí a gente troca". A pessoa não vai querer trocar ou vai? Hã? A pessoa vai querer estabilidade no tempo, vai querer proteger, vai querer pegar para si isso aí. Ela vai querer continuidade, ela vai querer que os seus filhos também tenham esse privilégio, não os filhos dos outros. Hum.
42:32 E aqui começa a surgir de forma mais nítida a transmissão de vantagem entre gerações, a herança. E claro que eles vão criar uma lei para que isso seja feito, não é assim? E e e até antes das leis, isso pode aparecer de uma de forma ainda não formal. Por exemplo, meu filho vai vir aprender comigo essa função. Minha família já cuida disso há muito tempo, né? Então vai continuar cuidando, fica mais fácil. Hum. Meu filho vai ficar aqui perto de mim, depois ele assume quando eu morrer.
43:21 Essas ferramentas que tem aqui para cuidar do estoque aqui, daqui a pouco já ficam com a nossa família. Essa área já tá sob minha responsabilidade. Esse posto já é nosso. Percebam que mesmo antes de virar lei já começa a aparecer uma lógica de herança. E herança, não só a clássica de patrimônio no sentido moderno, mas herança de acesso, de proximidade, de confiança, de posição, de proteção, de reputação, de tudo. E quando essa vantagem começa a ser transmitida, a desigualdade que aconteceu, ela ganha
44:08 continuidade no tempo espaço. Você entende? Se perpetua. Porque agora quem nasce em cima continua em cima, quem nasce em baixo continua embaixo. Via de regra. Existem exceções, existem. Isso estratifica ainda mais a diferença entre as classes e as tribos dentro dessa tribo, das várias tribos dentro dessa tribo. As pessoas agora já não nascem do zero, né? No sentido meritocrástico clássico, que as pessoas gostam de falar para si para diminuir o seu sentimento de culpa, de dizer: "Não, todos nós nascemos no zero e aí os melhores vencem". Não, você
44:53 já nasce 100.000 milhas na frente de outra pessoa que não tem acesso a recursos. Hum. Você já nasce bem nutrido com alimentação, com casa, com leite ninho, com com, né, com com leitinho, com pera, com todinho, com colégio particular, com não sei o quê. Você entende? Pode até se esforçar, mas o outro também tá lá se esforçando embaixo. E mesmo que seja por mérito e esforço seu, você saiu da PQP e chegou num cargo importante, isso não justifica você ser um Simples assim, né? Mas as pessoas se tornam não porque elas são más, porque elas vão se distanciando das outras dados do
45:39 sistema. sistema de selvagem que é cada um por si. Eu vou pensar em mim. Não é um sistema coletivista, é um sistema que prima a competição. A pessoa já não nasce dentro de uma comunidade, ela começa a nascer dentro de uma posição relativa dentro dessa comunidade, né? Ela já nasce mais longe ou perto de determinados acessos. já nasce mais longe o pétodo de proteção, já nasce sobativas diferentes, inclusive do que que ela vai representar, qual os papéis que ela vai ter. Já nasce tendo um rótulo diferente, ela já é vista de maneira diferente
46:26 antes mesmo dela fazer qualquer coisa de útil pra tribo. E aí a desigualdade deixa de ser apenas uma diferença entre indivíduos. ela começa a virar diferença entre grupos, entre linhagens. E esse é um passo muito importante, porque muda a própria forma de comparação social, né? Agora surgem famílias com sobrenomes importantes. Percebam o que tá acontecendo. A comunidade original continua existindo sobre um determinado nome lá, né, de reino, de cidade, de país, de tribo grande, seja o que for. Mas por dentro ela já tá rachada em vários subgrupos mais estáveis, várias tribos dentro da tribo, como nós estamos vendo. E cada
47:13 uma dessas atribos tem, cada uma dessas tribos tem acessos completamente diferentes a recursos, expectativas diferentes, graus diferentes de reconhecimento. Por exemplo, se você nasce um Silva, aí meu amigo azar, Dane-se, né? Vai capinar um lote. Boa sorte. Agora, se você nasce um albuquerque, um Bragança, um burbom, hum, um Rasburgo, pronto. Vocês entendem? Antes mesmo de tu fazer qualquer coisa, se você nasce numa família dessas, você já tem um peso social simbólico embutido, como disse, já nasceu em berço de ouro.
48:00 Você já é lido por um certo jeito pela sociedade. Você já tratado como uma pessoa que pertence a um certo círculo. Você vai ter uma educação melhor. você vai ter gente influente por perto que vão abrir portas para cargos importantes para você, né? Você vai ter mais segurança material, mais tempo para se desenvolver. E meu amigo, quando as coisas derem errado para você, não se preocupem. Errar é normal, a gente tá aqui para te ajudar. Você vai cair sobre sobre um colchão de de penas de ganso. Você entendeu? O erro não te expulsa do jogo com a mesma facilidade, porque vai ter um monte de gente para te recolocar de pé. e ter bastante paciência e carinho com você. Por quê? Porque existe reputação herdada que
48:46 amortece a queda. Hum. Tem uma rede de relações que te protege. Mesmo quando você falha, a falha não vira a sua ruína. Você continua sendo pertencendo a uma classe, aquele grupo. Você só tá aprendendo. Vão te dar outra chance, muitas chances. Vão te emprestar recursos para você fazer. aquilo que você sempre quis, né, te conectar com oportunidades e pessoas. Vocês entendem isso? estratificação de classe, grupos relativamente estáveis, com acesso desiguais a recursos, prestígio e poder. Experimenta o Silva lá cometer um erro,
49:32 vê se ele não vai em cana, vê se ele não vai ficar endividado e todo ralado. Ele não vai cair num colchão de plumas, ele vai cair no no concreto duro do chão. Vocês entendem? é diferente. Então, temos grupos relativamente estáveis, só que de distintas tribos, dentro da tribo maior, com acesso desigual aos recursos de prestígio, poder tá? Reproduzido por essas leis criadas para manter essas desigualdades e privilégios. Porque no fim das contas, de novo, quem que cria as regras e mais tarde as leis?
50:18 É quem já tá no poder. Claro. Por que que alguém que tá no poder vai criar uma regra que cortaria o seu próprio benefício, que enfraquecesse a sua própria vantagem, que entregaria o próprio lugar? Claro, em geral não faço. E quando alguém resolve criar alguma lei ou regra que beneficie a minoria, esse povo vai dizer: "Não faz sentido isso, isso. Esse cara é burro, né? Esse cara é burro. Olha, olha que idiota fazendo uma lei para essas pessoas aí. Não é assim?
51:06 As regras vão sendo organizadas para proteger a posição de quem tá em cima. Custe a justificativa que a pessoa tirar da sua cachola para diminuir a sua culpa. Mas vai ser assim. E aí se fecha um ciclo. A posição dá poder. O poder define as regras e as regras preservam a posição, dando mais poder e recurso para aqueles que já têm. E aí a coisa se estabiliza, vocês entendem dessa forma? E quando isso se estabiliza, temos aí uma mudança psicológica ainda mais significativa. A posição social deixa de ser apenas uma vantagem prática e começa a virar o que a gente falou lá no início da aula, começa a virar identidade. Identidade
51:52 emocional. A coisa vira agora status. Hum. A minha classe vira identidade e entra na parada o status. Estatus não é mais só sobre acesso. Estatus tem a ver com a sensação de valor por pertencer a um determinado grupo. E eu quero ostentar isso agora, tanto pros meus semelhantes para mostrar que eu posso, quanto pros meus inferiores para querer respeito e admiração. Então, a pessoa passa a precisar daquela posição não apenas pelos benefícios que ela oferece materialmente, mas porque isso diz sobre quem ela é.
52:41 E isso ajuda a entender porque o senso de superioridade aparece com tanta força. Por quê? Vejam, se eu percebo, se eu recebo, né, mais proteção, mais respeito, mais escuta, mais recurso, mais espaço, mais, mais mais mais mais e aí, recebendo todas essas vantagens, eu sendo mimado dessa forma, eu vou lá num lapso de consciência e percebo que o outro também é um ser humano e um irmão que nem eu, que as pessoas pessoas dessas tribos inferiores que não têm tantos recursos e possibilidades ou não são tão competentes, também são meus irmãos. Se eu tenho essa essa essa rara e eh
53:28 consciência, esse momento de lucidez, isso vai gerar um conflito interno muito grande para mim, vai rachar o meu eu, né? Vai gerar uma culpa mortal, uma ambivalência, um desconforto. E uma das formas de reduzir esse conflito é rebaixar o outro. Como já vimos, eles são inferiores. Eu mereço e eles são inferiores. Eles não sabem se comportar. Eles não tem disciplina. Eles são perigosos, eles não têm capacidade, eles não merecem participar. Existem uns que nascem para est em cima e os que nascem para est embaixo. Coincidentemente, eu nasci para estar em cima. Nessa lei é vigente enquanto eu tiver em cima. Claro.
54:15 Reforça-se com isso, ainda mais a ideia de que o outro deixa de ser visto apenas como alguém em outra posição. Lembra lá o rapaz que limpa a casa e o rapaz que que que daqui a pouco, sei lá, pesca ou planta numa tribo nômag. Agora lixo, eu coordeno o grupo, eu tenho cargo administrativo. Quanto mais você vai subindo na hierarquia que vai se formando, mais o de baixo vai deixando de ter valor e o outro passa a ser diminuído como pessoa. Infelizmente todos nós fazemos isso, que a gente goste ou não. de novo, porque não é por maldade ou bondade, é por
55:00 consequência de se viver em determinado sistema. Isso ajuda quem tá em cima a sustentar psicologicamente a própria legitimidade do de por que que tá isso. Só que isso é um dos componentes ou um dos combustíveis psicológicos mais fortes da exclusão social. Gente, recodeia pobre e tem que odiar. Porque se se eles gostassem, eles não conseguiriam conviver consigo mesmo. Vocês entendem? E a marca da sociedade para mostrar que você é uma determinada classe, que você pertence a um grupo, agora ganha relevância.
55:46 Por quê? Porque eu quero mostrar essa distinção. Por quê? Porque isso é o meu valor pessoal. Hã, juntamente com símbolos vem agora o grau de importância que eu tenho. É necessário agora tornar visível essa diferença a partir dos símbolos. Eu quero esfregar na cara dos outros que eu sou especial. Isso é status. Ele requer que eu mostre que eu sou superior. Porque não basta ter acesso. É preciso que a estrutura seja percebida. Então, nem vergonha eu tenho. Percebam? Hum. Por quê? Porque eu transformo isso em merecimento. Agora é mérito. Agora isso prova que eu tenho valor. Vejam a inversão. Então começo a ganhar peso sinais de
56:33 distinção, marcas de posição, né? objetos, adorno, formas de tratamento, o lugar que você senta, quem que fala primeiro, quem que pode interromper, quem que pode se aproximar, quem que precisa, sei lá, esperar para falar, quem que é ouvido com mais atenção, quem que é ignorado. A etiqueta social vai deixar claro o tempo todo qual que é o seu lugar na estrutura. Junto com isso aparece outra coisa mais séria. Pessoas em posição de autoridade que passam a ter o poder de julgar e decidir coisas concretas sobre a tua própria vida. Hum. Pensei num cenário de juizado.
57:19 Você entra numa sala e existe alguém sentado num lugar mais alto com um símbolo de autoridade no corpo, na roupa, no rito. Hum. E aquela pessoa tem o poder de determinar o que vai acontecer com a sua vida, se você vai poder voltar para casa ou não, baseada nas leis que outros homens semelhantes a essas pessoas criaram. Veja só você, né? E esse é o ponto, não é? Não é que o juiz seja mal, não é que não tenham que ter regras. Aí que tá precisam ter regras dentro de uma estrutura complexa como a nossa. O ponto é a consequência inevitável que essas coisas vão gerando de novo, além do bem e do mal. O juiz
58:04 não é uma pessoa má. As regras precisam existir mas a pessoa que estiver naquele lugar mais cedo ou mais tarde vai se acostumar aquele lugar, vai maltratar os outros, quer ela goste ou não, vai se diferenciar dos outros, quer ela goste ou não, vai mostrar os seus sinais de status e poder como méritos queja ela, queira ela goste ou não. Imaginem só esse juiz julgando uma pessoa que tá em outra classe, que ela não faz ideia de como seja, né? Onde ela vê um recorde, um documento, um processo, um resumo e decide a vida daquela pessoa a partir disso e a partir da sua ética,
58:50 não do mundo daquela outra pessoa. Hã, vocês entendem o quão bizarro isso se torna? Só que isso não é falta de caráter do juiz, é porque a estrutura cria essa distância. E quando a estrutura cria essa distância, a empatia some, ela vira um mero detalhe e a decisão vira a função. Agora, quem é de cima tem o poder de julgar, hã, por si mesmo a quem tá embaixo. Isso, evidentemente, vai manter o status cov, gente. Ou por acaso vocês já viram alguma lei em que é permitido que as pessoas de baixo se rebelem? Cortem a cabeça de quem tá em cima para sentar no seu lugar. Hã,
59:39 como volta e meia acontecido no passado da da história, inclusive, há, onde as pessoas, evidentemente desobedeciam, iam lá, quebravam status cov, gente, diz: "Agora a gente que manda", né? Claro que isso não vai ser autorizado. Isso vai ser um crime aos olhos de quem tá sentado no trono. Claro, né? Vocês entendem a ideia? E não que vai melhorar alguma coisa se isso acontecesse, tá? Vale a leitura do George Orell, né, da do Animal Farm lá, é Fazenda dos Animais, não sei como é que é a tradução. Acho que é Fazenda dos Animais, né? Livro do George Orel, a Revolução dos Bichos, acho que chama. E a educação sedimental de Flauber.
1:00:26 Vale a leitura desses livros sobre esse ponto. As revoluções em que uma tribo de baixo se revolta, corta a cabeça de quem tá em cima e senta no seu no trono, só faz com que a mesma lógica se perpetue, só que agora ela na posição boa, não é? A coisa ia se perpetuar e se estratificar da mesma forma, ou até pior em alguns cenários. Por quê? Porque a nossa queda como ser humano já aconteceu, gente, falando aqui em uma linguagem mais cristã, né? Que que é essa queda? Nós não estamos mais em pequenos grupos próximos, nômades pequenos tá? Em que não há propriedade privada,
1:01:12 próximos, que eu quero dizer próximos um dos outros, né? em pequenos grupos, em que todos fazemos a mesma coisa, todos compartilhamos o pão, em que a gente vive só da subsistência na ideia de sentido presente de momento. Não, a consciência já foi ganha. Nós já bebemos da árvore da sabedoria, como diz a Bíblia, e esse é o nosso pecado que já foi consumado. Hum. Enfim, a evolução natural foi ditada, foi jogada. E a evolução natural foi, nós nos fixamos em um território, isso que venceu. Nós aumentamos o grupo, isso que venceu. Essa lógica de estratificação de um líder, isso que venceu, venceu o jogo.
1:01:57 Vimos na aula um. Porque o mal, entre aspas, sempre vence. Porque esse tipo de estrutura é mais poderosa, não que traz melhor qualidade de vida. Isso não está em jogo. Hã, são coisas diferentes, mas essa estrutura vence o jogo por base da porrada. Ela tem mais poder, ela tem mais exército, ela tem mais força do que qualquer outro tipo de estrutura humana que já foi criada. Essa é a realidade última. Caso contrário, não teria sido assim o desfecho, teria sido outro. E mesmo, gente, vejam que loucura, mesmo que houvesse a possibilidade de uma sociedade justa, com equidade pacífica,
1:02:49 imaginem que isso aconteceu em algum momento histórico ou o que vai acontecer, né, na sua utopia. Se isso acontecer mais cedo ou mais tarde, ela vai ser destruída ou dominada por outra tribo, outra estrutura que tem esse status credatório que nós estamos falando, expansivo, com um líder normalmente narcisista ou psicopático, louco por poder, porque ela vai ter mais recurso, mais exército, mais controle, mais poder, mais dinheiro, mais capacidade bélica e ela vai dominar aquela outra tribo ou excl ela a de recursos importantes que ela vai tomar para si. Nós vimos isso na aulão. Enfim, é o que é. É o que é nosso
1:03:37 papel aqui é apenas descrever a história e aferir as consequências psicológicas do que nós vivemos. Hum. Sigamos. Sigamos. Agora falando do status, né, gente? dentro da ideia de retomando, né? Dentro da ideia de as pessoas começarem nessa sociedade de classes a querer mostrar o seu valor a partir de bens ou gestos. Pensem, por exemplo, isso é muito fácil de ver hoje em dia. Pensem, por exemplo, os carros que a gente vê hoje na rua.
1:04:23 Isso não mostra a classe que você tem? Ou os carros são todos iguais, custam o mesmo. Não tem o mesmo desenho, tem a mesma cor. Não. Um carro no sentido funcional serve para levar do ponto A ao B. A função dele é locomoção. Todos eles fazem isso. Só que na prática a gente sabe que o valor do carro não é esse. O que faz o preço subir não é isso, é o status. Porque ele comunica uma posição social da pessoa dentro daquela tribo, sem ela precisar falar nada. É ou não é? Reparem que tem alguns carros que
1:05:09 começam a não fazer nem sentido do ponto de vista prático. Pega essas SUVs que tá na moda, que a gente importa da da da visão americana, né? SUV, esses carros grandões assim, tinha umas caminhoneta grandona assim. Você olha pra janela assim num carro desse, tem uma pessoa sentada ali dirigindo uma uma geladeira pela rua, uma banheira pela rua, uma geladeira das portas, um troço enorme. Não faz sentido. É difícil de estacionar, gasta mais gasolina, né? Um carro daqueles chama atenção. Não é que eu preciso disso para me locomover. é mais da linha do vejam como eu posso
1:05:54 ter isso aqui. Vocês entendem? É um jeito de mostrar presença, de ocupar espaço, de ser percebido. A mesma lógica vale para relógio de pulso. Hoje eu tô sem o meu aqui, mas eu tenho um que eu coloco para dar aula, para fazer atendimento clínico, né? Esses relógios de pulso, sabe? horas. Hoje ninguém precisa de um relógio de pulso para ver as horas, né? A hora tá em tudo que é lugar, tá no celular. Mesmo assim a gente usa no pulso um objeto muito caro como adorno. É ou não é? Tem gente que usa um relógio de, sei lá, R$ 100.000, R$ 200.000.
1:06:40 Vê as horas, um relógio de R$ 5 já vê. Já que eu preciso dele, né? Não é pela função, é um sinal, é um código. Um código diz: "Eu tenho valor devido à minha classe." Hum. Que agora não tenho nem vergonha de mostrar isso. Agora virou valor. Hum. Tem gente que às vezes se veste com uma espécie de outdoor ambulante, uma marca bem grande estampada no peito ou mostrando a roupa, a a bolsa de marca. Hum. Justamente para que não tenham dúvidas que ela pertence ao grupo de vencedores,
1:07:28 tá? E normalmente quem faz muita questão de usar isso não pertence ao grupo dos vencedores, né? É alguém da classe de baixo que quer parecer, mas ok. A ideia é a mesma, é sobre pertencimento. O ser humano, ele quer pertencer à sua tribo, ele quer mostrar que ele tem valor. Quando eu digo tribo, uma dentre dessas várias que vão se formando e se estratificando, é sobre circular como alguém de um certo meio. Entendem? Isso não fica só em objeto, tá em todos os lugares da rotina. restaurante que é caro e não é bom. Serve ali um meio grão de arroz e um suflet de batata flambada com não sei o que conhaque, né? Que
1:08:13 tamanho do mervilho, prato custa R$ 500. Não tem essas coisas. Vale mais a pena vocês uma churrascaria, se esbanjar lá com negócio. Mas não é elegante, não é chique, tem status. Viagem da moda que a pessoa vai só para bater o ponto e dizer que foi, né? clube que a pessoa se associa só para dizer que é membro. Antigamente, olha que interessante contar um causo para vocês. Antigamente vocês sabiam que os grandes senhores de terra, para marcar que eles eram da elite mesmo, eles começaram a fazer jardins, ou seja, usar um pedaço da propriedade de um jeito que era bem estranho pra época.
1:09:02 Em vez de plantar ali comida no jardim, né, na terra, não esqueçam um jardim, na terra, o que que se faz com a terra? A terra, nossa, eu tenho um pedaço de terra, ali, vai ser o meu sustento, vou botar comida, horta, árvores frutíferas, coisas que dão retorno, né? Como os camponeses, os trabalhadores rurais faziam. Queriam um pedacinho de terra para ter do que viver, botar uma vaca ali. Vocês entendem? Porque eles dependiam disso para viver. Já os senhores de eles queriam mostrar que eles eram distintos à classe superior. Que que eles faziam? Eles faziam desse espaço de terra um espaço inútil. Eles colocavam plantas que não eram frutíferas, coisas que não davam retorno alimentar. Vocês entendem? Só para mostrar que eles podiam.
1:09:51 Esse era o recado. Terra naquela época, gente, era sobrevivência, tá? Quem era delite queria mostrar, olha, eu posso gastar isso com como enfeite, eu posso gastar esse recurso à vontade, inclusive eu posso pagar uma pessoa só para ficar cortando essa plantinha aqui, deixar ela bem retinha. Vejam só, né? Eh, aí que surge um pouco a ideia dos jardins, né, dentro de várias outras denominações que vão ter. Uma dessas é é a sua origem, mostrar como olha como eu posso ser inútil, olha como um símbolo
1:10:36 de desperdício. Interessante, né? A mesma lógica que a gente faz hoje com outras coisas, vocês entendem? E aquelas roupas exageradas que as pessoas usavam, que a gente vê em filmes clássicos, sabe? pomposas, cheia de camadas, cheia de eh um vestido, depois uma malha, depois um negócio, depois outra coisa, depois um troço assim todo frufru rendado, manga comprida, não sei o que, um chapéu, lembra daquilo? Cheio de detalhe que a elite usava, mas a gente vê em filme de época. Eh, e em grande parte isso também nasce como marca de classe, porque imaginem numa sociedade que a maioria das pessoas vive do corpo, aquela época, trabalho braçal, esforço
1:11:21 físico, a distinção era dizer: "Olha, eu uso roupas tão complexas, tão difíceis, que nem dá para mim mexer direito. Logo, eu não faço esses trabalhos de esforço braçal e físico. Eu quero que fique evidente que eu não preciso trabalhar, né? Porque o trabalhador ele vai precisar de uma roupa simples, resistente, né? É, é e curtinha ali, que que suja, né? E ele vai ter que limpar aquele troço. Então eles faziam tecidos delicados que que que que eram custos para limpar, justamente deixar limpo e mostrar: "Olha, eu não me sujo." Olha, é ou não é? questão de status, gente, assim que surge, tá?
1:12:06 Eu posso me dar o luxo disso. Vejam que interessante. Enfim, tudo isso são exemplos de estatus que a gente mantém hoje de diversas outras formas, né? A sociedade de consumo é expert em vender bugiganga, que não vale nada, mas vale pelo seu valor simbólico. Agora, quando a gente olha de fora dessa estrutura, novo, é muito tentador a gente dizer: "Nossa, essas pessoas então delites são más e essas outras pobre coitadas são vítimas,
1:12:52 né? É tentador a gente fazer isso. Vejam o que a gente tá descrevendo aqui é mais complexo do que isso, gente. De novo, volta a salientar esse ponto que precisa ficar bem claro, ok? E além do bem e do mal. Claro que existem, como a gente viu na primeira aula, pessoas com perfil mais agressivo, mais frias, mais exploratórias né? com traços que a gente viu, narcisistas, psicopáticos, etc., que essas pessoas normalmente estão ligadas mais a cargos de liderança porque elas são atraídas pelo poder. Claro que isso influencia o status qua do grupo em geral, um pouco.
1:13:37 Podem reparar, o clima organizacional de uma empresa vai ter a ver de como é o dono. A mesma coisa em uma escala maior na tribuna. Mas vejam, a exclusão social não se explica por isso, não se mantém só por por eventual maldade individual ou traço de personalidade de uma pessoa. Ela não tem esse poder todo. Ela se mantém porque a estrutura cria posições, vantagens, medos, incentivos e narrativas que passam a ser reproduzidos por muita gente, inclusive pessoas comuns como eu e você. Isso é, todos nós,
1:14:25 de certa forma, replicamos e ajudamos a perpetuar as desigualdades desse modelo, queira a gente goste, queira a gente não goste. Quem aqui nunca olhou para um entregador, para um porteiro, para alguém limpando o chão do, sei lá, do banheiro do shopping e tratou com uma pressa, uma secura que não usaria para tratar um amigo, para tratar um conhecido, para tratar uma pessoa do seu nível. Nem precisa ser um amigo, alguém do seu nível, entre aspas. Hum. Até a gente foi simpático, mas não deu muita atenção no que a pessoa falava. mereceu o que a pessoa falava na nossa cabeça, porque essa pessoa não é do nosso nível.
1:15:13 Quem aqui nunca pensou quando viu alguém falando alto no ônibus, curando fila, sendo grosso? Quem é que nunca pensou? Isso é coisa de gente sem educação ou escutando música alta, né? né, com aquelas caixas dizer isso, é coisa assim, a gente tem educação. Só que na mesma semana tolerou uma grosseria muito parecida, vindo de alguém mais bem vestido, com postura confiante, num cargo mais alto. E aí muda, né? Essa pessoa ela tem a personalidade forte, ela é mais incisiva né?
1:16:00 Se você vê o seu vizinho tocando piano e ele toca bem, ele tá tocando lá uma música clássica e é só que toca alto e todo mundo escuta. Ai, né? Tudo bem. Agora, se fosse um funk dizer: "Puta, olha que cara de mau gosto atrapalhando aqui". Você entendem? É uma distinção implícita que todos nós fazemos. Igual ambos estão atrapalhando, cada um à sua maneira, mas só que o julgamento não é igual. Quem aqui nunca viu uma pessoa com roupa simples ou um celular velho, né, de um jeito, sei lá, meio tímido e automaticamente subestimou essa pessoa? Aí depois vê alguém com uma roupa boa, um bom relógio, carro, esses símbolos que a gente tá falando,
1:16:47 uma postura mais segura e automaticamente deu crédito. E a gente chama isso, tem até uma uma palavra, né? A impressão. A impressão que a gente tem da pessoa, né? Primeira impressão. Claro, a primeira impressão é baseada num preconceito que vem dessas estratificações. Vocês entendem? Mas é um julgamento de valores disfarçados. E agora um exemplo de privilégio bem direto desses que ninguém gosta de admitir, mas todo mundo já fez ou vai fazer. Imagine que vocês tenham um filho e que você quer muito matricular esse filho de uma escola muito boa. É maravilhoso, o preço é bom e é perto da sua casa. Só que essa escola tem lista de espera.
1:17:35 Que que acontece? De repente você mexe uns pauzinhos, né, assim, você descobre que tem uma forma de resolver o lance, né? Você conhece alguém da direção, você conhece um pai influente, você conhece ou é amigo de alguém que tem acesso a não sei quem, que conhece não sei quem e aí de repente a vaga aparece pro seu filho, aquela criança maravilhosa. Hã, sejamos honestos. Você entende que quando a vaga aparece pro seu filho, alguém perdeu a vaga, né? Ou então você precisa de um médico e rápido, só que tem fila, tem
1:18:20 burocracia. E aí entra aquela história, né? Vamos mexer os pauzinhos. Fala com a fulana que ela encaixa ciclana, que a mãe é médica, que trabalha no hospital, que pode falar com a fulana, que vai arranjar um horário para te encaixar. Aí você manda mensagem, pum, o encaixe aparece e aí você sai aliviado. E sabe o que que você pensa? Você pensa, pô, ainda bem que eu tenho esse contato. Hum, não é assim. Só que vejam esse alívio. Exatamente. Esse, ainda bem que eu tenho esse contato, o seu filho se matriculando na na na no colégio, furando a fila. Exatamente. Essa estrutura funcionando.
1:19:07 A vida ela tem alguns atalhos para alguns, para outros não. Só que reparem como isso é perverso. Depois de você viver, internalizar esses atalhos, você começa a achar que isso é normal. Você não vê mais como favores ou atalhos de privilégio. Você começa a normalizar, você começa a achar que é assim que a vida funciona. E daqui a pouco, com o tempo, sem perceber, você passa a julgar quem tá preso na fila, quem tá preso na burocracia, quem não tem rede, como se fosse desorganizado, fraco, menos capaz. Se ele não tem acessos, é porque ele não mereceu. E mesmo que o ponto, eu quero que você entendem isso, mesmo que o ponto seja, supõe que essa pessoa é burra, ela tem que ir de -15,
1:19:54 tá? Ou ela é preguiçosa e ela não faz por onde, a gente vai olhar para essa pessoa e dizer: "Foda-se, é isso mesmo. Essa pessoa tem que é isso, tem que morrer de fome, tem que se pegar um monte de doença de verme, se ralar". Esse é o pensamento, não entendem? Não faz sentido, né? Mas vejam, o que eu quero mostrar é que a exclusão não é só o topo contra a base, ela vai se espalhando em camadas, porque cada camada tenta se diferenciar da de baixo para sustentar sua própria posição. Agora, e mostra isso com status.
1:20:39 Isso fica um ciclo vicioso porque corrói ainda mais a tal da empatia, né, entre as pessoas, porque agora eu não tenho mais empatia eh eh das pessoas que não estão na mesma camada que eu. Quando eu passo a me identificar mais com a minha posição do que com o pertencimento comum, o que é natural que aconteça nesse modelo de sociedade, eu começo a olhar o outro menos como um semelhante e mais como uma ameaça, como um obstáculo, como um concorrente, como alguém abaixo para eu usar a meu favor, como recurso. Inclusive, se eu quero contratar uma faxineira, eu quero pagar o menos possível para ela.
1:21:26 Quanto mais barato for, ou seja, quanto menos aquela pessoa ganhar e mais miserável for a condição de vida dela, mais isso me favorece. Hum. Eu não queroar uma lei que favoreça as faxineiras. Isso vai dificultar minha vida. Poxa, eu já luto tanto, agora vou ter que pagar mais pra faxineira. apertou para mim. Isso não é maldade, vocês entendem? Isso é consequência do modelo. Eu quero agora que as leis favoreçam a minha classe, não que sejam a favor dos outros. Se for a favor dos outros, eu vou jogar como um retrocesso, como uma idiotice.
1:22:13 Isso é maldade? Não, isso é miupia. A minha empatia não alcança os outros, porque nesse sistema eu não convivo com os outros. E a partir daí a exclusão passa a ser legitimada por todos. Ela começa a virar modo normal de funcionamento. Alguns são incluídos no centro das decisões, outros são mantidos à margem do sistema, alguns têm direitos a erros, outros são punidos no primeiro erro, né? Alguns vão ser vistos como indivíduos, outros vão ser reduzidos eh estereótipos e vão ser tratados como substituíveis.
1:23:00 mudam os objetos, mudam as instituições, muda a escala, mas a lógica da base continua muito parecida. Hoje a gente não fala de estoque de grão, defesa local, né? Posição na tribo. A gente fala de escola, profissão, patrimônio, sobrenome, capital cultural, rede de contato, né? o bairro, a linguagem, a aparência, mas o mecanismo estrutural, psicológico que a gente tá descrevendo continua o mesmo. E talvez um dos pontos mais importantes dessa aula seja esse. Prestemos atenção. Depois que esse processo está funcionando, depois que ele tá operando há muito tempo, ele começa a parecer natural.
1:23:46 As pessoas começam a dizer: "Sempre foi assim. O mundo é assim mesmo. Tem gente que nasceu para mandar, tem gente que nasceu para obedecer e se ralar. Os melhores sobem. Quem tá embaixo, tá embaixo porque quer. Percebam o que acontece aqui. As pessoas deixam de enxergar como que aquela diferença foi sendo construída ao longo do tempo. Param de ver a história num sentido maior, o acúmulo, as vantagens que foram herdadas, as regras que foram se formando e começam a explicar a posição social como se revelasse o valor de cada um. Quem tá em cima merece, quem tá embaixo tem algum defeito.
1:24:32 É por isso que algumas pessoas acabam tendo a ideia, a ilusão de que elas têm mais valor do que outras. Hum. é justamente contra esse tipo de ilusão que a gente tá construindo essa série. Não para negar diferenças reais, não para dizer que esforço pessoal não existe, pessoas mais inteligentes não
…