Por que Jesus não condenou a escravidão?

Breve Resumo

O vídeo aborda a complexa relação entre moralidade, direito e escravidão, argumentando que a moralidade reside no tratamento humano, e não na estrutura jurídica. Olavo de Carvalho usa exemplos históricos e contemporâneos para ilustrar como a moralidade individual pode transcender as normas sociais e legais. Ele também enfatiza a importância da tolerância à contradição e à dúvida na busca pela verdade, citando Jung e Nietzsche como exemplos de pensadores que abraçaram a complexidade e a incerteza.

  • A moralidade está no tratamento humano, não na estrutura jurídica.
  • A escravidão não tem sentido moral inerente, mas o tratamento do escravo tem.
  • É preciso tolerância à contradição e à dúvida na busca pela verdade.

Escravidão e Moralidade

Olavo de Carvalho discute a escravidão, argumentando que ela não possui um sentido moral inerente. Ele usa o exemplo bíblico do centurião e seu escravo para ilustrar que Jesus não condenou a escravidão diretamente, mas sim focou no tratamento do indivíduo. A escravidão existiu ao longo da história como resultado de guerras, e o elemento moral reside em como o "patrão" trata o escravo, comparando-o ao tratamento de um empregado contratado. A relação legal é distinta da relação moral, e condenar a escravidão sem considerar o contexto é simplista.

Relações Jurídicas vs. Relações Morais

Olavo explica que a relação jurídica não abrange todos os aspectos da relação real e concreta entre as pessoas. Ele cita o discurso de um deputado americano escravagista que se sentia responsável por seus escravos a vida inteira, cuidando deles como se fossem filhos. Jesus Cristo focava na moral, não na estrutura jurídica, e pregava o amor ao próximo independentemente da relação jurídica existente. Ele usa o exemplo de Oskar Schindler, membro do partido nazista que salvou judeus, para ilustrar que o que importa é o ato humano, não o papel social.

Massacre de Nanquim e a Moralidade Individual

Olavo cita o Massacre de Nanquim, onde um representante do partido nazista salvou chineses da morte, para enfatizar que o ato humanitário deve ser julgado acima da filiação política. Ele critica a confusão entre as dimensões política, jurídica e moral, afirmando que não existe uma "sociedade moral", mas sim moralidade e imoralidade dentro da sociedade. Julgar a sociedade inteira é um pensamento metonímico que foge da realidade concreta.

A Busca pela Verdade e a Tolerância à Dúvida

Olavo argumenta que as pessoas querem a verdade tal como a concebem, e que é necessário amoldar as concepções à complexidade do real para expressá-lo. Ele enfatiza a importância da tolerância à contradição e à dúvida na busca pela verdade. Cita o livro de memórias de Jung, onde ele confessa não entender tudo, como um exemplo de honestidade intelectual.

Nietzsche e a Ausência de Conclusões Finais

Olavo menciona Nietzsche, que não temia a contradição e mudava de opinião constantemente. Ele observa que Nietzsche morreu relativamente jovem, sem chegar a conclusões finais. Olavo sugere que é normal juntar contradições no começo da vida e tirar conclusões no fim, mas nem sempre há tempo para isso.

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Transcrição

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0:00 Outra coisa, quando o centurião diz para Jesus: "Ah, meu escravo tá doente, v lá curar ele". Jesus Cristo manda ele libertar o escravo. Não, ele vai lá, cura o escravo, vai embora. Quer dizer, veja, Jesus Cristo tinha algo contra a escravidão. Não, nunca disse uma palavra contra ela. Nada, nada, nada. Ele aceita isso como fato que existe. Ou seja, a escravidão em si, isto é importante, ela não tem sentido moral algum. Hum. Ela existia ao longo de toda a história humana, em geral como efeito das guerras. Quer dizer, eles viram prisioneiros de guerra e pô os caras para trabalhar. Todo mundo sempre fez isto, né? E onde entra o elemento moral? Bom, o elemento moral entra no tratamento que

0:46 o patrão dá ao escravo, como entra no tratamento que o patrão dá ao empregado contratado. Se você tem um escravo, mas você trata ele como se fosse um filho, né? você é melhor do que aquele que tem o empregado contratado e o trata como se fosse um cachorro. Quer dizer, a relação legal é uma coisa, a relação moral é outra. Agora, as pessoas achar, não, a escravidão foi maior crime da humanidade, etc, etc., mas é muito fácil você condenar a humanidade inteira se você não está lá para julgar a situação e sobretudo se você é incapaz de distinguir o que que é uma relação jurídica de propriedade com o que é uma relação moral. Não veja, a relação jurídica que você tem com as pessoas determina como você

1:31 vai tratá-las moralmente. Por exemplo, eu tenho um sócio, que faça um negócio com, sei lá, né, com Edinho, faço um negócio com ele, ele vira meu sócio, tá certo? E eu cumprindo as cláusulas contratuais, eu fico o tempo todo humilhando o cara como a mulher dele, faço tudo para estuporar a vida dele. É só no mesmo no dia dele, tá certo isso? Então para você ver, a relação jurídica é uma coisa, nenhuma relação jurídica abrange todos os aspectos da relação real concreta. Hã, eu recomendo que vocês leiam um existe um um discurso de um deputado americano escravagista chamado Carl Hum. Eh, e ele diz o seguinte, diz:

2:16 "Olha, se eu tenho escravo, eu sou responsável por ele a vida inteira. Eu não posso expulsá-lo porque ele ficou velho, não pode trabalhar mais. Eu não posso expulsá-lo, eu tenho que cuidar dele até o fim. É como se fosse um filho, né? Então, no caso deste cidadão, ele não tinha mais respeito pelo seu escravo do que muitos capitalistas modernos têm pelos seus empregados. Hã, então aí Jesus Cristo tá falando da moral, não da estrutura jurídica. Ele não fala nada sobre as leis. Presta atenção. Se ele diz, olha, quem vivia sobre a lei era os antigos, agora vocês vem sobre o domínio da graça. Então não vou discutir lei aqui, meu Deus do céu. H, o que eu vou discutir é a relação real de um ser humano concreto com outro ser humano concreto, independentemente dos papéis

3:03 sociais que eles representem. Tanto que na igreja, desde os primeiros instantes, você teve nobres oficiais militares, milionários e escravos também. escravo, pé rapado, mendigo, todo mundo. Então, não interessa qual é a posição na sociedade, interessa o dever que você tem de tratar o outro como se fosse seu irmão, amar o próximo como a si mesmo. Isto você pode fazer e deve fazer independentemente da relação jurídica que tem entre você e você e outro. Você não assistir o filme a lista de Schindler? O Schindler não era um membro do Partido nazista? Ora, ele tratou judeu melhor do que muito líder ocidental tava

3:49 tratando. Você tá entendendo? Então, é um, é o que importa, é o que o ser humano de carneoso faz, não o papel social que ele representa. Tá entendendo? Vocês viram o caso lá do do Massacre de Nanquim? Quem foi o maior herói humanitário do Massacre de Nanquim? o representante do partido nazista lá entraram os japoneses matando todo mundo, mulher, criança, velho, mendigo, todo mundo. O que que o cara fez? Ele era o o eu acho que ele era adido militar alemão, uma coisa assim, autoficial do Partido nazista. Recolheu todo mundo para que os chineses não matassem. E o que você vai julgar o cara pelo quê? Pelo seu ato humanitário ou pela sua carteirinha do

4:36 partido? Tá entendendo? Agora, a coisa é muito fácil você confundir as dimensões política, jurídica e moral. Hum. Falar, por exemplo, de a sociedade moral, fal, não existe nenhuma sociedade moral. Existe moralidade e imoralidade dentro da sociedade. De acordo com as estruturas jurídicas econômicas existentes, ali existem condutas morais e condutas imorais. H, você agora julgar a sociedade inteira, que que é isso aí? pensamento metonímico. Você tá fugindo da realidade concreta e usando os nomes dos instrumentos jurídicos existentes para julgar a sociedade. Então ou seja, o que interessa quando a gente fala a todo

5:21 mundo diz que quer a verdade, eu digo, não, você quer a verdade tal como você a concebe. Você não quer fazer porque as suas concepções vão gradativamente se amoldando à complexidade do real para poder expressá-lo. É uma operação que tá ao alcance de qualquer um. Perguntar, ó, eu quero saber como as coisas aconteceram mesmo. Hã, então em primeiro lugar, se você não tem a tolerância para com a contradição e a dúvida, você não vai chegar a parte alguma. Hum. Resistência. Sim. Resistência. Quer dizer, hoje eu estou em dúvida sobre uma coisa. Quanto tempo eu aguento continuar na dúvida? E se for você passar a vida inteira e você chegar

6:06 no fim, né? Por isso que eu gosto do livro de memórias do Jung. Sabe por quê? Porque nos capítulo final ele fala: "Eu não estou entendendo mais nada". Eu acho a confissão maravilhosa. Juntei aqui um monte de fatos, um negócio complicado para caramba e eu mesmo não tô entendendo. Pouquíssimos autores chegam a esse a este ponto. Ele teve essa honestidade, né? E quando você lê as obras do Niets, o Niet tem algum medo da contradição, mas de jeito nenhum. Ele escreve uma coisa hoje, outro contrário amanhã, porque hoje ele entendeu assim, amanhã entendeu assado. Aí a conclusão final, não há conclusão final. Niets morreu e nada

6:53 mais disso nele foi perguntado. Ele morreu relativamente jovem. Talvez se vivesse mais 40 anos TV. É normal você juntar um monte de contradição no começo da sua vida, depois você vai fechando e no fim tira umas conclusões. Mas não deu tempo. Ué, o cara morreu no meio do caminho. Fazer o quê? Yeah.

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