Breve Resumo
Este artigo da BBC News Brasil explora a falácia do apelo à natureza, questionando a premissa de que produtos naturais são inerentemente superiores aos sintéticos. Ele destaca que muitos produtos naturais podem ser perigosos, enquanto produtos sintéticos trouxeram grandes melhorias para a vida humana. O texto também discute a dificuldade de definir o que é "natural" e como esse termo é usado no marketing.
- A falácia naturalista é um erro de lógica que afirma que algo é bom porque é natural ou ruim porque não é.
- A natureza não tem intenções e pode ser perigosa.
- Muitos produtos sintéticos melhoraram a vida humana.
- A definição de "natural" é vaga e pode ser usada de forma enganosa.
Introdução
A autora relata uma experiência pessoal em um salão de beleza, onde a cabeleireira promoveu um shampoo com "90% de ingredientes naturais". Ao examinar os ingredientes em casa, a autora percebeu que, embora o shampoo contivesse extratos naturais, a maior parte da composição era de substâncias sintéticas comuns. Essa experiência a levou a refletir sobre o apelo à natureza e a falácia naturalista.
A Falácia Naturalista
O apelo à natureza, ou falácia naturalista, é um erro de raciocínio que afirma que algo é superior por ser natural ou inferior por não ser. Essa falácia é frequentemente utilizada em anúncios, redes sociais e até na política. Argumentos baseados nessa falácia defendem que um produto é bom por seguir os padrões da natureza ou que uma substância é ruim por ser "química" ou sintética.
A Natureza Não Tem Intenções
A natureza não tem a intenção de fazer o bem ou ajudar os seres humanos. Existem muitos produtos naturais perigosos, como arsênio, amianto e cianeto. Alguns remédios naturais comercializados podem ser prejudiciais, como sementes de damasco moídas. A palavra "natural" é mal definida e não garante que um produto seja melhor ou mais seguro. Produtos para dentição de bebês rotulados como naturais causaram efeitos adversos em crianças devido a níveis inconsistentes de beladona, uma planta tóxica em altas doses.
Eventos Naturais Perigosos
Além de substâncias, há fenômenos naturais perigosos, como a varíola, que matou milhões de pessoas até ser erradicada pela vacinação. Outros exemplos incluem a era venenosa, a poliomielite, tornados, picadas de insetos e a inevitável morte do sol. O filósofo John Stuart Mill argumentou que, se tudo o que é natural fosse bom, deveríamos aceitar todos os males que a natureza causa.
Benefícios do Não Natural
Muitas coisas consideradas "não naturais" melhoraram significativamente a vida humana. A medicina moderna reduziu drasticamente a mortalidade materna e infantil. Vacinas erradicaram ou controlaram doenças como coqueluche e varíola. Óculos, refrigeração de alimentos e aquecimento são exemplos de tecnologias não naturais que melhoram a qualidade de vida. O processamento de alimentos e o cultivo de plantas transformaram a sociedade humana, permitindo o desenvolvimento de civilizações.
Problemas com Produtos Fabricados e a Definição de "Natural"
Produtos fabricados podem causar problemas, como a poluição por plásticos sintéticos. No entanto, a opção mais natural nem sempre é a melhor. Cenouras podem ser melhores que salgadinhos, mas o paracetamol (sintetizado quimicamente) é melhor que o arsênio (natural). Definir o que é "natural" é problemático, já que os seres humanos também fazem parte da natureza. Como classificar criações que misturam elementos naturais e sintéticos, como vacinas?
A Complexidade da Definição de "Natureza"
A historiadora da ciência Lorraine Daston observa que a palavra "natureza" tem inúmeros significados, dependendo do contexto. Essa variedade de significados a torna um termo versátil para a publicidade, facilitando a persuasão. Mesmo que houvesse uma linha clara entre o humano e o natural, nem sempre sabemos o que é realmente sintético.
Exemplos Cotidianos e a Falácia Naturalista
Escovar os dentes com creme dental com flúor é natural? O flúor é um mineral natural, mas a nano-hidroxiapatita, um componente comum em cremes dentais "naturais", é sintética. A própria prática de higiene dental moderna está longe de ser natural. Se alguém oferecesse uma bebida composta por 99% de monóxido de di-hidrogênio, muitos recusariam, sem perceber que se trata de água (H2O).
Conclusão
Ao se deparar com um anúncio que apela à origem natural de um produto ou critica um produto por ser sintético, é importante questionar o que isso realmente significa. É preciso investigar por que os responsáveis estão usando a falácia do apelo ao natural em vez de apresentar argumentos lógicos que justifiquem a superioridade do produto ou prática.

