Doutor Gama

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Resumo Breve

O vídeo aborda a luta de Luiz Gama, um advogado abolicionista, que defende um escravo chamado José, acusado de matar seu senhor. Através de diálogos intensos e reflexões profundas, o vídeo questiona a moralidade da escravidão e a injustiça das leis da época. Gama argumenta que a defesa de José é, na verdade, uma defesa da dignidade humana e busca por liberdade, mostrando como as leis refletem a sociedade e suas crenças.

  • Gama defende José, um escravo que matou seu senhor em legítima defesa.
  • O vídeo discute a hipocrisia das leis e os dilemas morais enfrentados na sociedade brasileira da época.

Silêncio. Ordem.

O vídeo começa com um ambiente de silêncio e ordem, criando uma atmosfera tensa. Luiz Gama, o protagonista, provoca os espectadores ao perguntar se teriam coragem de cometer atrocidades por dinheiro, insinuando que muitos estão, de fato, cometendo crimes sem perceber.

O Diálogo Sobre Leitura e Escravidão

Luiz inicia um diálogo com um menino, abordando a leitura como um poder crucial. Gama destaca a importância do conhecimento e a injustiça de que escravos sejam mantidos na ignorância sobre o mundo e seus direitos. O diálogo ressalta a conexão entre educação e liberdade.

A Vida de José e Suas Dificuldades

José é apresentado como personagem que enfrenta a dureza da vida sob escravidão. Em uma série de interações, seu sofrimento e a relação com outros personagens são enfatizados, mostrando o impacto emocional da escravidão em sua vida e a importância de sua luta.

O Encontro com a Família e Esperanças

José tenta reencontrar a esperança ao pensar em sua família, evidenciando o sonho de liberdade e a dor da separação familiar que muitos escravos enfrentam. Relatos sobre a vida como escravo revelam o desejo de uma vida digna e livre.

O Julgamento de José

O julgamento de José se torna o centro da narrativa. Aqui, a defesa de Gama argumenta sobre as injustiças do sistema legal e da moral da sociedade, questionando a validade das leis que sustentam a escravidão. A luta por justiça é apresentada como um reflexo de questões sociais mais amplas.

Reflexões sobre a Liberdade

Luiz Gama reflete sobre o verdadeiro significado de liberdade e as implicações dos direitos humanos no contexto escravagista. Ele provoca o júri a considerar não apenas as ações de José, mas também a moralidade das leis que permitem a escravidão e o tratamento desumano aos escravos.

O Veredito

O vídeo culmina com o veredito do júri. A decisão de inocentar José é uma vitória simbólica que desafia as normas sociais da época, indicando uma esperança de mudança e talvez um prenúncio de evolução da sociedade brasileira em questões de justiça e liberdade.

Conclusão e Dilemas Morais

Gama conclui sua poderosa defesa, convidando todos a refletirem sobre suas próprias ações e as consequências delas na sociedade. O dilema moral apresentado provoca uma reflexão sobre a escravidão e a necessidade de mudança social, finalizando o vídeo com um apelo à ação e à solidariedade.

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Transcrição

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0:05 Silêncio. Ordem. Se você tivesse a oportunidade de ganhar muito, muito dinheiro, você teria coragem de matar a família inteira da pessoa que está sentada hoje aqui do seu lado? Você teria coragem de violentar a esposa dele? Sejamos sinceros, senhores, de torturá-los, sufocá-los até a morte. Vocês conseguiriam dormir tranquilos depois de ficarem ricos cometendo esses crimes, porque é isso que vocês estão fazendo todos os dias. É exatamente isso que vocês estão fazendo. Vocês estão cometendo esses crimes e dormindo como anjinhos.

1:01 [Música] Eu sei que você tá acordado, >> mãe? >> Hum.

1:46 Um dia você me ensina a ler? >> Claro. Mas você sabe que você não pode contar para ninguém, que a sua mãe sabe ler e escrever. Por quê, >> senhora, é hora de ir. >> Você já vai? Mas eu volto. Eu sempre volto. >> Devo demorar. Um menino. >> Cuida dele. >> Que é esta que não acaba nunca? Vamos, senhora.

2:32 Vai embora, então. Vai. Vamos, senhora. Se te pegarem, pense no teu filho, que farão com ele? Cuida dele. >> Tarde, senhor. >> Tarde. >> Posso falar um segundo com amigo? >> Depende. >> Homem que não paga a dívida. Não devia falar grosso assim. Dividade de jogo é sagrada, muito sagrada. E quem não paga vai rapidinho pro inferno. Você tem dois

3:18 dias para pagar. [Música] [Aplausos]

4:05 Boa tarde. Vai com ele. Vai, Luiz. >> Pai, pai, pai, me ajuda, pai. >> Pai, ô pai, >> pai. Vai, vai, vai. Não me deixa, pai.

6:33 Vem cá, vem, vem. Quero minha mãe. >> Qual teu nome? >> Luí. >> Você deve ter a mesma idade da minha filha. >> Ela tá aqui >> não. Ela tá salva para sempre.

7:21 อ H [Música]

8:22 Calma, calma louco. Cala boca. Vai, vai.

9:08 Calma menzinho calma. Tô sede. >> Tenta não pensar isso agora.

9:59 >> Bora, negrada. Santos, >> digo >> por a gente tá aqui. >> Somos escravo agora, Luiz. >> Vamos, negrada. Vamos rápido.

10:50 Vai vai.

11:46 Aí vamos um pouquinho aqui. Guarda mais um pouquinho pro menino que cada um por si, preto. M.

13:47 [Música] Ah. Eu espero que tenham feito uma ótima viagem. Sim, senhor. Me acompanhe, Mário.

14:44 >> Vamos, vamos, moleque. Vem, vem, vem. Fujão vem. Toma aqui essa colherada, Roberto. >> Não, não quero. Não quero, Ana. >> Vamos, menina. Para melhorar essa tosse. >> Não quero, Ana. Eu não quero. >> Anda. >> É pr melhorar essa tosse. >> Não quero, Ana. Anda, menino. >> Não quero. >> Eu vou pegar vocês. Eu vou pegar vocês. >> Antônio, esses são nossos filhos. Alice, Roberto. Esse é Antônio, nosso hóspede.

15:29 >> Ele é filho de um grande amigo. Vai morar conosco até terminar a faculdade de direito. >> Agora, por favor, vão brincar na sala. >> Prazer. quer dizer que gosta de ler? Desculpe, senhor. O senhor está no céu. Se é que está em algum lugar. Me chame pelo nome. >> Sim, senhor. Quer dizer, Antônio.

16:25 Gosta de livros? >> Eu não sei ler. >> E gostaria. Se fosse tão difícil, se desse tanto trabalho, os brancos não conseguiriam. >> Se é difícil, mande o preto fazer o trabalho por você. >> Exato. Vamos aqui fazer um acordo. Como você se chama? >> Luí. >> Luiz, você me ensina tudo sobre essa cidade. Aonde ir? o que fazer e principalmente aonde me divertir de verdade e em troca. Eu te ensino a ler e escrever. Justo

17:15 [Música] não concordo com o que dizes, mas defendo até a [Música] Mas defendo até a morte o seu direito de dizê-la. De quem essa frase? [Música] Autoridade era um iluminista francês, defensor da liberdade de pensamento da liberdade. >> Boa tarde, seu Cardoso. Luiz, meus livros no quarto. Livros são muito pesados.

18:28 Que foi, Ana? Nada não. Eu acho que vai chover. Dibora e di que dibora e dibora e dibora

19:30 Filha, presta atenção. Ah. [Música] Claudina, ele não sabia ler uma linha >> e agora ele tá escrito em menos de um ano. >> Mas ensinar um preto a ler é contra lei.

20:17 Meus caros amigos, com todo o respeito que eu lhes devo, sou eu quem aprende com ele. Luís tem uma facilidade impressionante para o latim e uma visão muito, muito interessante sobre o direito. >> Um escravo, um escravo vai se juntar a nós aqui essa noite. J Brito, nós não estamos quebrando nenhuma lei só por estarmos aqui essa noite. Acho que eu sou o único quebrando alguma lei por aqui. >> Senhores, eu lhes apresento Luís Gama, um outro querido amigo, >> um escravo de um amigo de seu pai. >> Puxa uma cadeira, Luiz. Eu estou pagando o vinho. >> Ah, se o mestre vai pagar, o vinho vai ser bom. Como eu estava lhe dizendo, Luís está muito interessado em nossas leis. Desculpe. Mas eu não sei se acredito totalmente

21:03 nas leis de seus livros. >> Por que não? >> Olhem para aquela mulher. Joan é dona do bar. Estão vendo aquelas correntes? Ele é um escravo fugido implorando para passar a noite aqui. Você é contra lei. Essa mulher poderia ser presa por esconder o rapaz. >> Senhores, >> chega eu demais para mim. Isso é demais. >> Sabe voltar sozinho, Pedro? >> Eu dou um jeito. >> Você vai embora sozinho nesse lugar? a essa hora algum problema. >> Ouvi dizer que aí fora tá cheio de pretos, >> escravos, nestiços,

21:49 homens livres. Dizem que essa gente é muito perigosa. Toma cuidado. >> Isso que eu acompanho, Pedro. Boa noite, senhores. >> Boa noite. >> Eh, e não exagerem na Biblia, >> não. >> Boa noite, Antô. Pedro, falei que tem muito. >> O Pedro nunca mais. Calma, calma. >> A cara quando você falou você >> Luiz, Luiz, Luiz, Luiz, Luiz, Luiz, Luiz, Luiz, Luiz. Olha ai, calma, Pedro, calma. Antônio, >> sabe que eu lembrei uma frase? Uma frase muito boa. >> Liberdade. >> Calma. >> Quantos crimes foram cometidos em teu

22:35 nome? Liberdade. Trovão é o trovão. Trovão. >> Que o senhor deseja que eu veja, seu juiz, >> dê uma olhada nesse parágrafo, juiz Brito, por favor. Isso é muito importante. >> Como o senhor descobriu? >> Lendo os livros que o Antônio me deu de presente. E agora o que eu faço? >> Agora vamos aos tribunais. É só conseguir os documentos que comprovem que o senhor nasceu livre. >> Um amigo meu da Bahia já está à procura dos documentos. Em breve teremos uma resposta. Antes de ir paraa justiça, eu

23:21 eu quero conversar com eles. >> Boa sorte, seu Luiz. E depois disso tem uma mesinha esperando pelo senhor no meu escritório. >> Mais uma daquelas cartinhas. Ah, mas essa aqui não é uma carta qualquer, é um poema. Claudina, vê se não se empolga, hein? Ué, mãe, mas ele escreve tão bem. >> Maldita hora que eu te ensinei a ler. Dá isso aqui. Não mesmo. Vou guardar

24:09 junto com as outras. São minguados os séculos para mala tão formos criola ou tets negra. Tem por olhos dois astros cintilantes. Quisera eu ser a terra em que você pisa, torná-las em colher, comer com elas.

25:10 Luiz, filho, não faz isso. Chega. Luiz não fil. [Música]

26:18 M. [Música] M. Você [Música] não fez isso. Ah.

27:38 Não conseguia, Luiz, Luiz Luiz chegou. Obrigado. Eu achei que ficaria mais feliz. O que mais o senhorzinho quer?

28:39 [Música] Ah, >> foi você? >> Quer viver comigo >> assim? Desse jeito. >> Senhorita quer casar comigo? [Música]

29:40 Senhor, precisamos conversar >> agora. Não, Luiz, >> é urgente, senhor. >> Se for sobre seus livros, Laura, eu cons >> Não é sobre os livros. >> Eu preciso falar com o senhor agora. Pode falar. Eu quero conversar sobre a minha liberdade. Que bobagem é essa? O senhor tem que me libertar. Luiz, saiba o seu lugar. Você é um ótimo escravo, mais. Exatamente isso. >> Mas nós nunca tratamos você como escravo comum. Você é praticamente como um membro da nossa família. >> Não, senhor.

30:26 Não sou. >> Você tem tudo aqui. Você tem casa, comida, trabalho, o que mais você quer? >> Liberdade. Liberdade é uma palavra bonita, mas o que que significa exatamente? É o que eu quero descobrir. Eu tenho direito de descobrir direito, moleque. Escravos não tm direitos. Nasci livre. E de acordo com nossas leis, eu não >> nossas leis. As leis são nossas. Nasci livre e sim, de acordo com nossas leis, eu nunca poderia ter sido vendido, seu moleque. [Música]

31:22 Luí, onde você pensa que vai? Nós não terminamos aqui. >> Sim, terminamos. [Música] Luiz, Luiz, volta aqui. Lu

32:26 [Música] O senhor agora é um homem livre? >> Não entendo. Livre como? Ah, bom. Eu vou vou tentar te explicar de um jeito simples. A Inglaterra mandou o Brasil acabar com a escravidão. Sim. E mandou daquele jeito típico dos ingleses, com navio de guerra e tudo. Sendo assim, não acabamos com a escravidão, mas para acalmar os ingleses, inventamos aqui uma lei. Diz que nenhum escravo mais pode ser trazido para o Brasil. Muito dos africanos que estão aqui vieram depois disto, como é o caso do senhor. >> Sim, essa lei nunca tinha sido usada antes. >> Nunca. Até hoje. É obviamente porque não era do interesse de ninguém.

33:13 >> Obrigado, seu Gam. >> Posso ir? >> Sim, claro. Para onde quiser, na hora que quiser. >> Posso ir mesmo? Pode. O que vai ser desse homem? Não é isso. Vamos comemorar um pouco. Comemore, homem. Eu só acho que você podia cobrar um pouco melhor pelo seu serviço. >> Não, foi bem pago.

34:00 Uma galinha. >> Ela é bem gordinha. >> Luiz, >> nós vencemos. >> Eu já imaginava, Luiz. Mas agora você precisa vir comigo. >> Aonde, >> Luiz? As notícias aqui correm mais rápido do que você pensa. Vem comigo agora. Você também, Antônio. São seus novos clientes, Luiz. [Música]

34:59 Vai, vai, vai. Vai rápido. Você, você vai direto >> e você >> é o quê? >> Vai como >> vai? M.

35:47 [Música] Luí, >> tem um homem perguntando por você. >> Sabe quem é? >> Não, mas ele tá armado.

36:35 Que que ativei é urgente. O >> Dito tá no quarto. >> Tá. >> Fica aqui. >> O que o senhor quer? Cadê? >> Veio me matar. assustar minha família. >> Não, senhor Gama. Se carregamos uma arma é pelo mesmo motivo que o senhor. >> Qual é esse motivo? >> Nos proteger dos senhores de escravos que querem nos matar. Viemos aqui para proteger o senhor também. >> Abaixa essa arma, Luiz. >> Obrigada, senhora. Eu sou Maria Júlia. Esse é o Francisco. >> Se pegarem vocês aqui, nenhum advogado do mundo vai conseguir salvá-los. Deixa ela falar, Luía. E os seus discursos? E

37:21 os seus textos são fortes, importantes. Nós acreditamos. >> Eu trabalho com a lei. >> A lei não garante justiça, Sr. Gama. >> Todos consideram o senhor o melhor advogado que existe. O senhor é como um ídolo. Podemos juntar mais gente na nossa causa. >> Atacando fazendas, matando pessoas. Eu não posso. >> Nós não invadimos fazendas. Nós não matamos senhores de escravos. Nós protegemos e defendemos os nossos. Só isso. >> Desculpe, senhor Gama, mas essa sua maneira de agir é para heróis ou santos. Eu fico com lei.

38:13 >> Estão batendo na porta. Vai ver quem é. Laranja. Pão tem pão. >> Bom dia. >> Com licença. >> Vocês viram só você fala nisso. >> O escravo que matou o fazendeiro. É, >> parece que vai ter o julgamento. >> Julgamento, Antônio. Esse homem vai ser morto. Isso >> jamais vai ter um processo justo. >> Agora, Luiz. Dá uma olhada aqui em quem é o promotor do >> Sim, eu li sobre isso. Agora esse Pedro é aquele Pedro? Aquele Pedro >> que Pedro? >> Pedro é um antigo amigo nosso. >> Nosso, o antigo amigo dele. >> Pedro é um colega meu da faculdade de

39:00 direito, monarquista convicto, escravagista conservador. >> Hum. Que ótima pessoa para se ter como amigo Antônio né? Agora esse escravo vai ser condenado mesmo. É, >> é caso perdido. Os senhores de escravo de todos os cantos estão indo para lá para pressionar o juiz. Esse homem vai ser condenado antes mesmo do julgamento. Que autoridade que é contra a pressão popular? >> Nenhuma. >> Neste caso, infelizmente é isso mesmo, né? Então esse é o homem. >> É esse mesmo, Dr. Pedro. Se o senhor

39:45 quiser, a gente pode dar um jeitinho nele sem incomodar os senhores. >> Ele vai pagar por tudo que fez. Sim. Haja um tribunal. Você sabe que pode ser condenado à morte? Você tem algo a dizer? Alguma coisa antes do julgamento?

40:33 nas mais modernasidade sensitária. >> Isso. >> E imensidão latif. Tá esperando alguém, Luiz? Não. >> Deve ser o velho que me rondando aí na frente o dia todo. Que que ele queria? >> Deve estar com fome. Eu vou ver. Tem certeza? >> Sim.

41:19 Ana. Luía, é sobre escravo que matou o dono. O velho disse que você pode ajudar. Ai, meu Deus. Ô, Ana, fala para ele que eu tô tô com trabalho demais e que esse é um caso impossível. Impossível, Mezinho. Quando eu ouvi falar num advogado libertando gente que nem eu, homem, eu vou te dizer, eu não podia acreditar. Depois me falaram o nome desse advogado preto,

42:06 eu me enchi de orgulho. É, Santos, esse é um caso bem complicado. Bem complicado. >> Ele matou o nosso patrão. Isso ele fez, mas não foi uma coisa errada. O que que fez é contra a lei. >> Talvez até não seja uma coisa errada, mas ele ele sim vai ter que pagar por isso. >> Desculpa, meu velho. Nós temos muitos outros casos aqui e casos que nós realmente temos chances de ganhar. Nós não podemos perder o nosso tempo com Não temos possibilidades. >> Ano, Antônio. >> Luiz, >> você tem que me ajudar. Você é a única chance que José tem.

42:53 >> E por que que esse homem é tão importante para você? Ele é meu filho. [Música] Tá atrasado. Cadê tuas coisas, >> Lu? Eu realmente tive pensando no meio da estrada essa hora. >> Você é um advogado admirado por qualquer magistrado desse país. As pessoas realment durante a viagem a gente fala sobre isso. >> Pois eu não posso ir.

43:40 Amigo, você não precisa ficar até o final do julgamento. Você pode voltar antes. Não posso ir. Ninguém pode falar por você, Luiz. Ninguém pode lutar por você. Esse caso é seu. Só seu.

44:35 Guarda isso aqui. Você que você acha que eu não devo. Então se >> você promete uma coisa? >> Promete que vai fazer de tudo para salvar a vida desse homem?

45:35 [Música] Querido filho, talvez eu nunca retorne e é por isso que eu te escrevo. Diga a tua mãe para se manter como ela é, honrada e honesta. E diga para ela não ter medo da condição na qual eu deixo vocês dois. A pobreza anda de mãos dadas com a virtude. Quanto a você, evite os homens que se julgam grandes ou poderosos. Eles são como oceano, sempre prontos a destruir as pedras das

46:22 encostas. Siga sempre o caminho do conhecimento e da educação. Estude sempre e faça dos livros teus melhores amigos. Lute com tudo que você tiver para fazer de nossa pátria uma terra livre de reis e de escravos. Deus não está na igreja, meu filho, e nenhuma igreja o aceita. Seja um cristão, se quiser, mas também um filósofo. Deus existe dentro de cada um dos homens e pode ser encontrado através da razão. Sempre tenha compaixão pelos teus inimigos, assim como eu tenho pelos meus. О.

47:22 Com amor, teu pai no esgama. Não não >> eles iam matar vocês. Luís

48:39 เ Maria, Maria Santos, >> o Luiz tá aqui para te ajudar. >> Eu sei. Obrigada Seama. O que o senhor precisa saber

49:25 de tudo, por favor? Aquela não foi a primeira vez. Aquele porco, ele sempre me chamava pro quarto dele. Aquilo deixa ele louco.

50:16 José é o seu marido. Sim senhor. A gente se casou com a bênção de Deus. Começou, começou na noite que Senor Antôes descobriu que a gente se casou e ele foi cancado vez mais violento. As coisas que ele me fez. E foi aí que José matou o seu Antunes. Ele nunca fazer isso, seu Gama.

51:16 [Música] [Aplausos] а Ah.

52:09 Sen >> quem é? Ele disse que é advogado. >> Deixa ele se aproximar. >> Sim, senhora. Senhor. Não pode entrar. >> Boa tarde, dona Teresa. Luiz Gama. Deve ser difícil para um homem de letras cavalgar debaixo desse sol quente. >> Foi uma viagem difícil. >> Na minha família até uma garotinha consegue cavalgar sem suar. Nosso sangue é bom. >> Dona Teresa, podemos falar sobre a morte do seu marido, seu Antunes? >> Por um acaso os meus escravos deram água

52:56 pro seu cavalo? Sim sim claro. Aliás, se não for incômodo, eu gostarei de um pouco também. >> Eu adoro cavalos. Fico aliviada sabendo que o seu cavalo não está sofrendo com esse calor. Isso aqui tá um inferno. Tá igual a África talvez. >> Podemos falar sobre José, seu escravo. >> O que vai ser enforcado? O que quer saber sobre esse selvagem? >> Eu sou advogado dele. >> Talvez a senhora não saiba que essas perguntas podem ser respondidas. >> Tenho coisas mais importantes para fazer. Seja rápido.

53:43 >> Pois bem, José tinha família aqui, >> o pai, mas não tinha mãe nem outros parentes que eu saiba. >> E o que a senhora poderia me dizer sobre o comportamento dele aqui na fazenda? >> O que eu posso dizer é que ele é igualzinho a todos os pretos que eu conheci. >> De certo? igual todas as pretas que o seu marido covardemente. >> Senhor, não é tão esperto quanto as pessoas dizem. >> É assim que o senhor acha que vai conseguir me ofender. >> Bom, passar bem. >> Antes de você sair, deixa eu te avisar.

54:30 Tem um riaxinho logo depois da fazenda. Os animais daqui da região, cabras, bodes e outros bichos mais selvagens, costumam beber água nesse riachinho. Pode se servir à vontade lá. Seu José, sou Luiz Gama, seu advogado. Eu sou a pessoa que vai te defender. O senhor consegue falar comigo?

55:30 Que senhor tá fazendo aqui? Eu vim te defender. >> O senhor não tá aqui para me libertar. José, você matou uma pessoa. Deus me perdoa. Sim, mas eles vão te matar. >> Volte para sua casa, doutor. >> Não, José. José, por favor, eu vim te ajudar. Foi por isso que eu vim. Por isso que eu tô aqui. Por favor, podemos recomeçar?

56:15 Por que que você fez aquilo? >> O senhor sabe. Eu sabe exatamente o porquê de eu ter feito aquilo que fiz. >> Eu trouxe uma muda de roupa para você. Eu vou deixar aqui. Eu fugi da fazenda do Antônio uma época. Eu conheci a mãe de José num campinho cheio de preto livre e outros fugido. >> Ela era o quê? Africana? Não tá aqui.

57:04 >> Ela nasceu aqui. >> Mataram ela e levaram eu e José para ser escravo. >> Sim, mas ela não era escrava, >> não. Nasceu livre e morreu assim, livre. [Música]

58:35 Pedro, >> fiquei feliz quando soube que ia te enfrentar como promotor. >> Obrigado. >> Por que você está aqui? Simplesmente impossível ganhar. Eu vim garantir justiça. Então, estamos no mesmo lado. >> Acho que não. >> Senhoras, senhores, muito bom dia. Eu agradeço a Deus todos os dias pelo nosso país, porque desde que nós estabelecemos as leis aqui, nós estabelecemos uma nação. Sim, esse nosso grande país está

59:21 crescendo e se desenvolvendo graças a vários motivos e um deles é a lei. Se quebrarmos as leis, nós estamos quebrando o pescoço dessa linda criança que é o Brasil. Aqui um homem quebrou uma lei. Ele mesmo confessou. Essa pobre criatura sentada ali cometeu um dos piores crimes que existem. Ele acabou com uma vida. Esse escravo tirou a vida de um homem de família coberto de sangue, esse selvagem confessou tudo.

1:00:06 Nós poderíamos simplesmente ter matado ele para nos vingar, certo? Mas nós temos leis e até mesmo ele tem o direito a um julgamento antes de fazermos o que é correto. O nosso país é jovem. Uma sólida monarquia não pode tolerar atos de selvageria. Ele quebrou a lei e deve pagar por isso com a vida. Obrigado, senhor presidente.

1:00:52 >> Silêncio. Ordem. Cadê aquele homem que tava morrendo de medo? >> Continuou muito assustado. >> Não veio mesmo assim? >> Uhum. O júri chama a defesa. >> Senhoras e senhores, eu tenho que concordar com o meu colega. Eu tenho que concordar com o meu colega, Dr. Pedro. Ele está certo. Um dos pilares que sustentam um país

1:01:40 é a lei. As leis. Mas existe uma razão para isso. As leis refletem aquilo em que nós acreditamos como nação. Aquilo em que cada um de vocês aqui acredita. São as leis que provam o nosso caráter, a nossa evolução como seres humanos. E é por isso que eu estou hoje aqui, senhores, de pé na frente de vocês, porque nós não estamos aqui hoje para julgar um homem. Sim, os senhores entenderam muito bem. Eu disse um homem, não um escravo, não uma coisa, mas um homem, uma ideia, uma luz, um ser humano.

1:02:28 Nós não estamos aqui hoje, senhores, para julgar um homem que quebrou uma lei. Nós estamos aqui hoje para julgar as próprias leis. São elas quem estão hoje aqui no banco dos réus. Pensem comigo, a nossa sociedade tem leis que realmente refletem aquilo em que nós acreditamos. Esse homem, senhores, ele pode ter quebrado uma lei porque sim, ele matou uma pessoa, mas ouvindo ele, entendendo toda a situação, o que teremos de fato aqui hoje, senhores, será a oportunidade de pensarmos um pouco mais sobre nós mesmos. Você confessou ter assassinado o seu senhor.

1:03:14 Sim. Por quê? Porque eu matei ele. >> Bom, eu acho que poderíamos ir para casa agora, não acho, senhores. >> Ele quebrou a lei, confessou. Por que perder mais tempo? Como você matou o seu senhor, o homem que te dava casa e comida >> com uma faca? Você tinha uma faca. >> Peguei na cozinha. >> Essa faca aqui. >> Sim, senhor. Foi difícil matar o homem?

1:03:59 >> Ele não morreu na primeira facada. >> Hum. Você o atacou e ele continuou respirando. Sim. >> Por que você não parou? que ele tinha que morrer. José, você se arrepende de ter matado o seu senhor? Não, não arrependo. Eu não sei quanto aos senhores, mas eu estou enojado.

1:04:48 >> Senhor José, aonde o senhor nasceu? >> No Brasil. >> O senhor tem família aqui? Tem o pai. Mãe, não tem. >> E quem mais? E quem mais? Meu esposo. >> Bom dia. Eu vim buscar o documento. >> O senhor foi obrigado a se casar? >> Não, senhor. >> Recebeu algum dinheiro para se unir a ela? Claro que não. >> Então, por favor, nos responda, Senr. José, por que um homem se casaria sabendo que não vai receber nem

1:05:33 dinheiro, nem herança? Casei porque amo ela. >> Sabe, José, a maioria dos senhores de terra, donos escravos aqui, eles são obrigados a se casar. Eles fazem isso por dinheiro. Por consequência disso, em sua maioria, criam falsas famílias. E ainda assim eles dizem, vejo o que lhe parece, que os selvagens são os seus escravos. Declarado. >> Perdão, doutor, que isso tem a ver com o nosso caso. >> Excelência, tem tudo a ver. >> Continue. >> Aqui está. >> Qual era a ocupação da sua esposa? >> Como assim? Ela também era uma pessoa escravizada? Sim senhor. A sua esposa é uma mulher bonita, senor

1:06:21 José. Linda, uma rainha. >> O senor Antônios conhecia a sua esposa? O teu senhor fez algo contra a tua mulher? Me desculpe, José, mas as pessoas precisam saber. Além do mais, esse é o meu dever. Então eu vou repetir a pergunta. O senhor Antunes, a pessoa que mantinha vocês escravizados, aquele que era dono da sua vida, por um acaso ele abusou da sua esposa? >> Sim. >> Mentiroso. >> Ordem.

1:07:08 O senhor poderia nos dizer quando começou? >> No nosso casamento. >> E o senhor saberia me dizer a razão? >> Ele disse que que ela era dele. Ele tinha comprado aquela dali, que o corpo dela era dele. Aí ele levava ela pro quarto e fazia umas coisas horríveis com ela. >> Não era sexo apenas. Ela era a minha esposa doutor. Ele fazia coisa forçada. Ele não parava. Não parava. O senhor Antunes não parava de abusar da mulher a quem esse homem havia jurado amor e fidelidade.

1:07:54 O que ele fazia com ela? >> Ela começou a voltar cada vez mais machucada. >> E como você se sentia? >> O senhor tem esposa? Imagine alguém fazendo mal para ela e o senhor não podendo proteger. José, o que mais o senor Antunes fazia com a sua esposa? Excelência, eu não tenho mais perguntas. Ele queimava ela com ferro quente. Ele escoteava ela

1:08:40 e ele chamava os homens tudo, os homens brancos para fazer aquelas coisas horrível com ele. Uma mão criada para trabalhar no campo ou carregar peso que fizeram com que uma mulher se tornasse viu. Viram? Essas mãos que quase me atacaram agora seguraram uma faca de cozinha e apunaram um homem, um pobre homem mais uma vez. >> Por que vocês consideram um escravo um ser menor que vocês? >> Precisamos sim de filhos da África. >> É pela cor da pele. >> Até a pele deles é diferente da nossa. >> José é diferente. Ele é um escravo. Eu não. É nossa culpa se eles não se desenvolveram. Eu, senhores, olhem para esse nariz, para esse cabelo, olhem para esse rosto. >> É nossa culpa se eles não tiveram a mesma educação.

1:09:25 >> Eu falo português, francês e latim. advogado aqui quer que vocês acreditem que esse esse monstro, esse assassino frio é na verdade uma vítima, >> um homem trabalhador que viu a sua esposa ser torturada e abusada todos os dias, noite após noite. >> A escravidão não é algo de que nos orgulhamos, >> porque é isso que vocês estão fazendo todos os dias. Mas nós temos orgulho do nosso crescimento econômico. >> A escravidão não é um caminho para o desenvolvimento, ao contrário disso, nós somos umas das últimas nações a permitirem essa barbária. Será que isso não quer dizer algo, Dr. Pedro? Isso não diz algo aos senhores? >> Nós somos uma nação livre. >> A comédia está em vogas, senhores. Não.

1:10:10 >> Uma sólida e boa monarquia. >> A escravidão é sim um dos maiores crimes possíveis e imagináveis. O cativeiro, meus caros, é uma vergonha para esse país. Tempos sombrios de hoje, porque parece que nós vamos assistir a uma terrível transformação na nossa sociedade. Nós ouvimos falar de muitas rebeliões de escravos em todos os lugares. O Haiti, que era um país. Agora é uma terra selvagem depois que os escravos resolveram assassinar todos os seus

1:10:55 senhores. Muitas rebeliões estão acontecendo aqui nesse nosso Brasil, no nosso país. Temos duas opções: fazer cumprir a lei, esse homem. ou abolir de uma vez só as leis, a escravidão, destruindo o nosso país, nosso crescimento e condenando nossas famílias para sempre. Pensei nisso. Eu sou um advogado e um homem preto,

1:11:41 mais preto que muito dos escravos dos senhores. Para quem não sabe, eu também já fui escravizado. Tinha uma pessoa que se considerava o meu dono. Portanto, eu sei o que é ser tratado como uma coisa. E posso dizer que muito dos meus valores não foram aprendidos em livros, não. Muito do que sai dessa boca e causa admiração em vocês. E foi ensinado pelos meus antepassados, por companheiros de vida, de luta, por pretos como ele, homens como José, o homem trabalhador, religioso, casado,

1:12:28 que viu a sua esposa ser torturada. E mesmo que isso não tivesse acontecido, senhores, sejamos sinceros, mesmo que José não tivesse sido maltratado, percebam que a vida dele já tinha sido arrancada. Nós ouvimos aqui hoje argumento sobre oportunidade em enriquecimento. Pois bem, pense comigo. Se você tivesse a oportunidade de ganhar muito, muito dinheiro, você teria coragem de matar a família inteira da pessoa que está sentada hoje aqui do seu lado? Você teria coragem de violentar a esposa dele, de torturá-los, de sufocá-los até a morte? É exatamente isso que vocês estão fazendo. Vocês estão cometendo esses crimes e dormindo como anjinhos. Mudanças são dolorosas.

1:13:15 Muitos temem as mudanças. Nós, como seres humanos, preferimos sempre manter as coisas seguras do jeito que estão. Mas se não dermos o primeiro passo, senhores, nunca sairemos do lugar e precisamos avançar como nação. Esse avanço, senhores, pode e deve começar aqui agora. Nós podemos sim condenar esse homem como tantos outros ou não, ou melhor, nós podemos entender que cada um de

1:14:01 vocês hoje aqui pode fazer história. Esse homem cometeu um crime, senhores, sem muito pensar, até mesmo eu diria que sim. Eu também já pensei dessa maneira, mas analisando os fatos, refletindo, ele matou uma pessoa, mas não cometeu crime algum. Porque nesse caso, senhores, matar e cometer crime são coisas completamente diferentes. Isso porque a lei nos dá o direito de nos defendermos. Não se

1:14:48 enganem senhores. Meu estimado júri, meu nobre colega, tenho a absoluta certeza de que quando se é escravo, a única maneira de se defender de verdade é tirando a vida do seu senhor. Porque quando o escravo mata o seu senhor, nós não estamos falando de assassinato, não, senhores. Nós estamos falando de legítima defesa. Esse homem estava defendendo a sua própria vida e a vida dos seus familiares, crime e virtude, senhores, na mesma proporção. Não é ódio, não é vingança, não é barbárie, é pura e simples legítima defesa. Um direito de todos aqui, de todas as pessoas desse país. E José também é uma pessoa.

1:15:35 Precisamos fazer desse país um país justo para todos. Todos. Só assim seremos uma grande nação. Que hoje, senhores, não julguemos apenas um homem. Não, hoje não, mas que por grandeza e caráter possamos juntos mudar a história. Obrigado, senhores,

1:16:22 esse julgamento chegou ao seu final. Agora o júrio pode se retirar para a sala ao lado e deliberar. E nós aguardaremos. >> Excelência, esse documento muda todo o julgamento. >> Dr. Gama, o momento de apresentar provas já passou faz tempo. >> Sim, mas esse documento muda tudo. >> Não muda mais nada. Esse julgamento acabou.

1:17:07 >> Ao menos leia, Excelência. Esse homem sequer deveria ter sido um escravo. Ele é filho de uma mulher livre. Excelência, por favor. Excelência, o Júri chegou a um veredito. >> Rápido assim? Sim, excelência. Tragam o prisioneiro.

1:18:01 E qual a decisão do Júri? O júri considera o réu inocente. di [Música]

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