POD+1 - RACISMO ESTRUTURAL, A GENTE COMBATE OU NORMALIZA?

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Resumo Breve

O vídeo discute o racismo estrutural no Brasil, com a participação do professor Delmaci Ribeiro, que é especialista em educação antirracista. O objetivo principal é entender como o racismo se manifesta na sociedade brasileira e a importância de combatê-lo através de ações educativas. O professor destaca a necessidade de políticas públicas efetivas e o papel da comunidade escolar na promoção de uma educação antirracista.

  • Importância de reconhecer a existência do racismo estrutural.
  • A necessidade de ações contínuas em políticas públicas para combater o racismo.

Introdução ao tema e apresentação do convidado

O vídeo inicia com a apresentação do programa e do convidado, Delmaci Ribeiro, que se apresenta como professor de história e especialista em pesquisa de educação antirracista. Delmaci menciona sua trajetória acadêmica e a relevância do tema do racismo estrutural na sociedade brasileira.

Definição e discussão do racismo estrutural

O professor aborda o que é racismo estrutural, explicando que ele se refere a uma construção social que inferioriza grupos com base na cor da pele. Ele destaca que esse racismo se tornou enraizado na sociedade brasileira devido à história da escravidão e que, apesar da miscigenação, o racismo permanece e se manifesta em diversas formas.

Reflexão sobre o 13 de maio e suas implicações

É discutida a importância do 13 de maio, data da abolição da escravatura no Brasil. O professor ressalta que, embora a escravidão tenha acabado oficialmente, as estruturas racistas continuam a existir e a afetar a sociedade. O debate se concentra nas consequências desse evento e a necessidade de reflexão sobre políticas de reparação que ainda estão em desenvolvimento.

A importância de políticas públicas e a educação antirracista

Delmaci explica que as políticas públicas voltadas para a educação antirracista começaram a aparecer apenas no século 21, após décadas de exclusão e falta de atenção a esses temas. Ele enfatiza a necessidade de implementação dessas políticas nas escolas e a importância de uma educação que aborde a cultura afro-brasileira de forma integrada e contínua.

Racismo e meritocracia

O debate se aprofunda na questão da meritocracia, destacando como essa ideia pode deslegitimar as discussões sobre desigualdade racial. O professor argumenta que a meritocracia é uma falácia, muitas vezes usada para justificar a falta de representatividade das pessoas negras em posições de poder e sucesso na sociedade.

O papel da sociedade e o engajamento coletivo

É destacado que a luta contra o racismo é uma responsabilidade coletiva e que é necessário que todos os cidadãos se engajem nessa busca por justiça. Delmaci encoraja as pessoas a reconhecerem os próprios preconceitos e a se posicionarem ativamente contra o racismo em suas vidas cotidianas, assim como nas suas comunidades e esferas sociais.

Discussões e perguntas da audiência

O vídeo termina com interações do público, onde são feitas perguntas sobre a persistência do racismo estrutural, mesmo diante dos avanços nas discussões sobre igualdade. O professor reafirma que o racismo é uma estrutura enraizada que exige persistência e um compromisso contínuo para ser combatido. Ele também salienta a importância da educação não formal e do envolvimento da sociedade civil na luta contra o racismo.

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Transcrição

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1:59 Uhum.

3:38 >> Olá, bom dia, boa tarde, boa noite. Seja muito bem-vindo para o mais uma mesa do Pod mais um. E hoje a gente está aqui com um convidado super especial que vocês vão conhecer daqui a pouquinho, tá? Eu e meu amigo Tom e o nosso convidado. >> [risadas] [suspirando] >> Saúda aí, Tom, a galera. >> E aí, galera? Tudo de bom. Hoje estamos aqui mais com um papo mais mais formal, assim, né? Porque é algo que tá na no cotidiano da gente, na vida da gente, a gente não pode fechar os olhos para esse assunto, né? Mas a gente vai deixar nosso convidado falar mais sobre isso e contamos com vocês também no chat, perguntas

4:25 e posições para a gente estar aqui interagindo com vocês também. >> Então, nós estamos hoje com Delmaci, Delmaci Ribeiro, né? E a gente vai, ele vai se apresentar, a gente vai conhecer ele hoje. >> Boa noite a todos e todas que estão nos assistindo. Eh, primeiro quero agradecer pelo convite né, pela oportunidade. Eh, professor da rede pública estadual aqui na cidade de Catu. Então, como já foi apresentado, Delmaci, né? Delmaci Ribeiro. E estou aí já há algum tempo pesquisando, estudando sobre educação antirracista. Eh, inicialmente aqui no Colégio Estadual Maria Isabel de Melo Góis

5:11 eh, que não existe mais, eh, fez uma uma junção aí com o Antônio De Castro, que agora é o Colégio Estadual de Tempo Integral de Catu. E é isso. Delmaci Ribeiro, eh, professor de história eh, formado ali na UNEB, Campus Alagoinhas. Eh, fiz uma especialização no no IF Baiano em Educação Científica, que é o que me aproxima da pesquisa na educação básica. Eh, mestrado em História da África e agora, eh, doutorado em Difusão do Conhecimento na UFBA. E vamos colaborar na medida do possível com essa discussão é >> [suspirando] >> Bom, então vocês já viram aí o currículo, né, de Delmaci. Tá aí na empreitada do doutorado. Daqui a pouco nós estaremos sentando com um doutor, não é?

5:56 A gente costuma chamar doutor o médico, né? Mas doutor, tem o doutor do doutorado. Então Delmaci tá aí no doutorado e o tema de hoje a gente vai falar sobre racismo estrutural. E aí, o que é que você acha desse tema? Tem gente que minimiza esse tema, tem gente que acha que que não é bem assim, que isso não existe, mas a gente quer conversar sobre isso, sobre o nazismo, racismo estrutural e a gente vai, à medida da conversa aqui, a gente vai perceber se a gente normaliza ou se a gente combate, como é que a nossa postura, né? Que nós temos posturas diante de todas as coisas que são colocadas. >> [música]

6:41 >> Diante de todas as coisas que são colocadas diante da gente, nós temos uma atitude a tomar, né? E aí, como é que a gente se comporta diante disso? O racismo estrutural, o que seria racismo estrutural? O que você acha que é racismo estrutural? Racismo estrutural existe ou é uma falácia, coisas que que inventaram aí? >> Coisa que botou na cabeça da gente. É é importante essa essa discussão e entender primeiro o que é o racismo e depois por que ele é estrutural, né? Então aproveitar que também é mandar um abraço para os meus alunos que estão assistindo a gente. >> Uh! >> É também para o professor Roberto, lá na Chapada Diamantina, Itaitê, que levou toda a turma da educação de jovens e

7:27 adultos para o auditório da escola agora à noite para nos assistir. >> Que show! >> É o pessoal aí do Colégio José Américo, lá de Itaitê, na Chapada Diamantina. Então vamos lá. É, quando nós falamos em racismo, nós estamos falando é de uma perspectiva que pode ser biológica ou de uma perspectiva que pode ser social, né? Quando a gente entende raça numa perspectiva biológica, as pessoas vão dizer: "Ah, não existe raça numa perspectiva biológica". E de fato não existe, né? É, quando você vai para uma perspectiva do racismo e da raça, da racialização numa numa conjuntura social, nós iremos entender que é uma construção. Então, a raça enquanto objeto de estudo social é

8:12 uma construção. E é uma construção justamente para tornar inferior um grupo de pessoas, certo? A partir da cor da sua pele e para fundamentar mecanismos de exploração, é, do modo de produção escravista, né? Que vivenciamos durante tanto tempo de forma oficial. E com o decorrer dos anos, é, essa exploração, esse racismo, ele se tornou estrutural. Por que estrutural? Porque ele faz parte da sociedade, né? Então, assim, por mais que as pessoas elas digam que o racismo não existe, elas vão trazer relatos de situações onde elas viram de alguma forma o racismo o racismo acontecer. Então, as pessoas não se identificam enquanto racistas,

8:58 porém, elas têm relatos desse racismo acontecendo. É, e daí que a gente vem com essa perspectiva de um racismo estrutural. E do ponto de vista científico, da academia, durante muito tempo se defendeu a pauta, é, da não existência desse racismo. Num contexto de Brasil, por exemplo, a gente tem uma perspectiva de uma miscigenação, ou seja, >> Sim. >> há uma defesa de uma miscigenação para que você diga: "Ó, tá todo mundo convivendo bem, né? Tá todo mundo misturado, todo mundo junto, então não existe racismo". E aí, em função dessa realidade que foi defendida, é, no século XX no Brasil, nós temos o livro Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire que fala sobre isso.

9:45 E dentro dessa perspectiva aí, é, a gente pode entender que o, o, o, falar que é, é uma miscigenação, falar que não é racismo, é defender uma tal de uma democracia racial, né? É uma democracia racial na perspectiva de que tá todo mundo é, junto e misturado, quando na verdade a gente sabe que a estrutura racista, ela faz com que pessoas acabem morrendo todos os dias, pessoas são mortas em função desse racismo estrutural. >> Então, a gente pode, chegamos à conclusão de que a gente veio de uma sociedade racista e é estrutural porque, é, nós convivemos com isso, tá? Faz parte

10:30 da nossa estrutura como sociedade. >> Sim, e se você vai para um contexto, de novo, fazendo esse recorte no Brasil, é, hoje, dia 11 de maio, correto? >> Correto. >> Então, estamos a dois dias do 13 de maio. Então, o que é o 13 de maio? O, o que é que o 13 de maio ele coloca para a gente? >> E, e por isso mesmo que estamos aqui no dia 11, porque existe o dia 13. >> [risadas] >> Então, o que é que o 13 de maio traz para a gente, né? Nos livros de história. Que é um, um momento onde você tem uma dita libertação, né? O o fim da escravização, é, depois de mais de 300 anos de escravização no Brasil. E aí a gente para para pensar. Foram mais de 300 anos de escravização.

11:16 Lá em 13 de maio de 1900, 1888, né? Lá em 1888, é, ali um ano, um ano antes de, de, de acabar o, o, o império, começar a república, é, a gente tem essa lei áurea. mas assim o que é que acontece depois disso? Né? O que é que acontece no 14 de maio? Pensando o 14 de maio não como uma data fixa, mas como todo o período posterior, o pós, o pós 13. É, então assim, é, é a reflexão que fica, será que temos algo a comemorar no dia 13 ou a gente tem muitas reflexões para serem feitas pós o dia 13, né? A partir do dia 14, porque assim, é, essa estrutura racista, ela foi construída por mais de 300 anos.

12:03 É, então após 13 de maio de 1888, o que foi feito para se combater efetivamente o racismo? Então você diz que não é racista, sim, isso somente basta? Né? Quais são as políticas públicas que nós temos efetivamente para combater o racismo? >> Não basta ser racista, a gente precisa ser anti-racista. >> Então a gente, analisando o 14 de maio de 1888, se estende até hoje. >> O 14 de maio se estende até hoje. E durante todo esse período, é, o que nós temos são movimentos, é, e conquistas, né? Então o movimento negro unificado, os movimentos sociais

12:49 vem buscando lentamente dentro das pautas sociais, é, conquistas. E quando eu digo lentamente, é porque nós, é, é, quando você fala de racismo, você fala de uma categoria de disputa, né? Disputa de poder. Então quando você finaliza, é, o império brasileiro e você tem a república que se dá através de um golpe, né? Então você tem a república começando em 1889, quem assume esse poder é uma elite. Então essa elite, ela não tava interessada em falar de pautas sociais. É, então assim, se na monarquia você não tinha, na nova república que começa em 89, é uma república que começa com com voto censitário, né? Com eh as pessoas

13:35 tendo uma participação eh em relação à votação ainda mínima. Então, ao longo da república, república da espada, depois a república velha, república café com leite, e aí depois de 1930, com a era Vargas, você vai tendo eh momentos pequenos de mudanças em relação a essa postura. Porém, algo mais significativo só vai acontecer já agora, no século 21, quando nós temos a lei >> A lei. >> de 2003, a 10.639/2003, e a lei também 11.645 de 2008, né? E temos uma lei mais recente, que é de 2024, que fala eh de de uma política nacional para a educação das relações étnico-raciais. Então,

14:22 assim, se você for ver um olhar e um recorte das políticas públicas pós eh o fim oficial da escravização, a gente demorou eh praticamente a gente passou aí todo o século 20 sem ter políticas públicas efetivas. A gente sabe que é um processo político onde as oligarquias estavam no poder. Depois nós tivemos um golpe militar, tivemos um longo período eh de ditadura. Eh quando a gente tem uma redemocratização, essa redemocratização ela foi feita de uma forma lenta e gradual, justamente para coibir que os grupos sociais e os movimentos sociais acessassem o poder. Então, somente agora mais recente, né? Então, é muito recente. E assim, eh muitas vezes a gente fica se questionando assim, eh a lei 10.639,

15:10 ela é de 2003. Então, ela já tem 20 anos. Né? Ela completou 20 anos há três anos atrás. E dentro desse período de 20 anos, pouco se tem feito nas escolas, assim, se você for observar tem escolas ainda, tem espaços educativos que não trabalham com a educação antirracista, né? Não tem projetos sobre educação antirracista. E quando tem alguma ação é uma ação que se limita ao novembro negro, é uma ação pontual ao final do ano letivo quase. >> negra. >> Da consciência negra. Então assim aí a gente se questiona como é que uma lei de 2003 20 anos depois você ainda tem lacunas e essa lei, de fato, ela não é colocada em

15:55 prática. Mas a gente também tem que parar e fazer uma ponderação que é o seguinte nós estamos falando de 20 anos né? Frente a um processo de mais de 300 anos. >> Sim, é muito recente. >> Então é muito recente, né? Mas assim, ainda sendo recente, é aí que entra a perspectiva de combate ao racismo, ou seja ele é estrutural nós entendemos isso em função desses aspectos históricos, mas não pode ser naturalizado. Ser estrutural não pode ser sinônimo de ser naturalizada. >> Positivo. O racismo ele acaba quando a lei muda ou quando a mentalidade muda? >> O racismo ele acaba com quando a mentalidade muda. Agora sim, inclusive a

16:42 questão da lei existir é é um fato que nos entristece no sentido de dizer, se existe uma lei é porque as pessoas elas não entenderam que precisam é encarar o racismo como um problema. Então precisa haver uma lei para que as pessoas de alguma forma se conscientizem da existência da existência desse racismo. Mas a gente sabe também que a lei ela não parte da bondade de um governante, né? De um de um modelo de governo. A gente sabe que a lei ela parte dos movimentos sociais, então a lei ela é uma construção social. >> Já é uma uma mudança de mentalidade que eh veio para para chegar na lei, né? Com os movimentos sociais, a pressão dos movimentos sociais, a mudança de

17:29 mentalidade em relação aos movimentos sociais que veio gerar essa necessidade de que ninguém chegou do dia para noite assim, não vamos criar uma lei. >> Exatamente. E ainda falando da lei 10.639, eh é muito importante a gente pensar assim que a lei, ela torna obrigatório, né, o ensino da educação eh afro-brasileira, né, nas escolas. E durante muito tempo, após a implementação da lei, ainda vigorou uma ideia de que caberia apenas o professor da área de humanas, da área de história, falar sobre a temática. Então assim eh estamos ainda numa fase de maturação onde os professores, de uma forma geral, a comunidade escolar, de uma forma geral, entenda que

18:14 é responsabilidade de todas as áreas do conhecimento. Então, por exemplo, esse professor que eu citei aqui, o professor Roberto, é um professor de física. Então, eu falei para ele, ó, vou participar de um podcast sobre o tema racismo estrutural. Ele mobilizou a a turma, as turmas da da escola onde ele trabalha, lá na Chapada Diamantina, para todo mundo ir para o auditório para poder ouvir e discutir, depois ele falar sobre isso na sala de aula. Então, ações dessa forma, eh eh parecem ser coisas simples, mas são de extrema importância. Porque assim, se você tem várias ações acontecendo nesse sentido, as pessoas começam a perceber que é um enfrentamento coletivo. E quando eu digo enfrentamento, pode soar como um termo forte, né? Então, recentemente, eu estive fazendo uma apresentação lá na UFBA

19:01 e eu falei sobre combate ao racismo. E aí um uma colega estava eh ouvindo a apresentação, ela falou: "Professor, o termo combate não é algo muito bélico?" Aí eu disse: "É, mas a intenção é essa, porque o racismo mata. Então, para enfrentarmos esse racismo, a gente não pode, infelizmente, ir com flores. A gente tem que ir de uma forma forte, é um combate realmente, é uma luta". >> luta. É assim, né? E a gente vê que essa questão da lei, lei, a toda lei nesse sentido, assim, de racismo, trabalhista, ela é regida a sangue, né? Houve sangue derramado, infelizmente, para chegarmos a uma consciência

19:46 para exe- executar uma lei. E qual o peso disso? Porque existiu muito sangue derramado, principalmente na escravidão. Houve muito sangue derramado, houve muita, muita gente morta em prol de um estabelecimento de poder e a gente tem que entender que não é mimimi. Se existe uma lei hoje, não é porque alguém tá se sentindo coitadinho, é porque existiu sangue derramado em prol desse sangue derramado é que hoje existe uma lei estabelecida por um governo para que pessoas sejam resguardadas, não é isso? >> Exatamente. E dentro desse, desse contexto que você traz aí, é, é importante, é, a gente pensar o

20:32 seguinte: muitas vezes, é, as pessoas começam a falar é, as cotas raciais entra num contexto de desmerecimento de quem estudou muito e agora, é, vai concorrer com outra pessoa que, de alguma forma, vai ter uma vantagem por participar de cotas. E aí, é, entra no que você falou do mimimi, né? E aí a gente precisa refletir e refletir de uma forma, assim, bem séria, que é o seguinte: se você tem, durante muito tempo, uma corrida que alguém está sempre saindo a frente e não é só que sair a frente numa condição da distância não, mas você tá saindo a frente numa condição é de

21:18 performance, você teve condições de treinar melhor, você tem todo o suporte, tem todos os equipamentos, o melhor tênis, a melhor roupa pra poder você fazer aquela corrida em relação ao seu oponente né, que está numa condição totalmente desfavorável. Então assim é essa condição desfavorável, essa desigualdade, ela sempre aconteceu e nunca foi questionada. Então agora a gente tem a chamada reparação histórica. Então essa reparação histórica, quando você tem a lei de cotas que fala de que você precisa ter é mais pessoas pretas ocupando cargos de poder é porque tem uma coisa chamada representatividade. Então assim será que é por um acaso que quando a

22:03 gente chega num consultório médico é quando você não conhece o médico, que você abre aquela porta será que é por acaso que você sempre vai é esperar encontrar ali uma pessoa branca e quando você é encontra a pessoa negra, retinta principalmente, você internamente você faz uma reflexão, poxa é não esperava. Então assim, esses contextos, essas coisas acontecem por que? Será que a pessoa preta ela é não teve condições é durante intelectuais de tá ocupando [música] esses espaços ou foi negado a ela esses espaços? Né, então é é por isso que essas essas leis elas existem, elas são importantes e que a

22:50 gente precisa defender. E assim, independente da condição financeira, independente da condição de como a pessoa se lê socialmente como branca ou o seja como o as pessoas precisam entender que é uma luta coletiva. É uma luta de todos, certo? Então assim, é, falar de, de, de leis, falar de, de reparação histórica, falar de equidade, é uma necessidade. Né? E assim, é uma necessidade diante de, de uma realidade na qual, é, tem posicionamentos políticos que defendem a meritocracia, que falem, que falam que as pessoas que conseguem algo de diferente que é por mérito, né? Então assim, dentro desse, desse,

23:35 é, recorte de racismo estrutural, desse, é, dentro desse recorte de desigualdades, a gente precisa falar também que o racismo ele tá estruturado em vários momentos, em vários lugares da sociedade, na política, é, na economia, no lugar onde as pessoas estão morando, né? Quando você vê uma enchente, as pessoas que estão sofrendo mais com as consequências dessa enchente são as pessoas que estão passando por questões que foram racializadas, né? É questão de pessoas, é, negras, pessoas pretas que estão morando nas áreas, nas zonas periféricas da cidade. E quem é que mora na zona periférica? Quem mora, é, afastado do centro? É, é porque ela tá ali querendo morar naquelas condições ou porque desde aquele 13 de maio de 1888,

24:24 quando essas pessoas foram ditas como livres, elas foram simplesmente jogadas na sociedade e não se pensou num, num processo de políticas públicas pra inserir essas pessoas num contexto social. Essas pessoas elas não tinham mais identidade, elas não tinham nome, elas não tinham famílias, elas simplesmente foram jogadas na sociedade. E assim, passou todo o século XX, né? E só no século XXI que a gente começa a ter políticas públicas mais efetivas pra tentar fazer essa reparação. Então, assim, quando as pessoas abrirem a boca para falar mal das cotas, eh, elas precisam fazer essa pequena reflexão, né, sobre o que é esse 13 de maio, o que foi esse 13 de

25:10 maio, o que é que aconteceu após o 13 de maio e entender que de fato existe uma necessidade real, porque não é por acaso você encontrar, eh, lacunas, eh, eh, de poder onde es, nessas lacunas de poder você só encontra pessoas, eh, eh, eh, brancas. Então, você não tem uma lacuna em relação a ter essa represen, representatividade negra. >> Houve uma tentativa de inferiorização da raça negra, né? E aí essa tentativa foi extremamente lucrativa lá no passado porque eh, a escravidão, ela era lucrativa e talvez por isso também demorou bastante tempo para que se encerrasse

25:56 aqui no nosso país e veio de luta até chegar no dia 13, né? A assinatura lá da lei, mas antes disso já existia as lutas, existindo outras leis, eh, antes do dia, do dia 13 de maio e aí no dia 13 de maio, como você bem colocou aqui, eh, simplesmente libertou todo mundo e aí as pessoas estavam livres, mas, eh, tem até aquela música, né? No dia 13 de maio que, acho que até popularizou mais essa questão, até pela, pela música. A cultura é perfeita para fazer isso também, a arte, né? E aí o, o que acontece é que de lá para cá veio-se pensar em reparação tem pouco

26:42 tempo, como a gente já, já conversou aqui, no, do dia 13 em diante. E o que acontece em relação, em relação a, a essa a essa aceitação da sociedade e que a gente não tava acostumado a ouvir sobre isso, não era trabalhado isso, né? Não era trabalhado essa questão de política pública, não era trabalhada, não era ensinado, até hoje ainda existe uma certa deficiência no no ensino em relação a isso. Mas a a gente precisa ter mais acesso à informação em relação a isso até para ir eh nos acostumando com com essa ideia de que nós precisamos sim

27:28 nos preocupar com o dia 13 até cá, até hoje em dia. Então, eh tudo é reflexo do que aconteceu no passado e por isso que é essa questão estrutural. E em relação a as novas pessoas, a essa juventude que tá chegando, eh você sente um interesse nesse sentido, você que tá trabalhando no com com escolas, você sente um interesse nesse sentido da juventude de de se engajar nessa questão de de políticas públicas, de reparação ou existe ainda muita resistência?

28:13 >> Nós temos as duas realidades, né? Então, a gente tem a realidade de estudantes que vem de famílias extremamente tradicionais, então, eles acabam replicando o pensamento familiar. E nós temos os estudantes também que tem um pensamento mais progressista, aqueles conseguem dialogar em sala de aula entendendo as múltiplas possibilidades que tem de a gente conviver em sociedade, de a gente chegar eh enxergar os problemas sociais e e buscar o enfrentamento. Então, dentro desse cenário, eh eu, enquanto professor da educação básica, é, desenvolvi um projeto chamado Clube de História. E esse projeto Clube de História, é, ele aconteceu aqui no Maria Isabel de Melo Góis, primeiro foi no Antônio De Seixas,

28:59 depois no Maria Isabel de Melo Góis. E uma das perspectivas do Clube de História era justamente trabalhar com, é, educação afro-brasileira. Então, é, a gente buscava fazer uma investigação histórica sobre questões relacionadas à cultura afro-brasileira. Então, nós tivemos bons frutos desse projeto. Esse projeto, a gente chegou a a fazer pesquisas que apresentaram em feiras, é, em São Paulo, é, no estado do Pará, em Recife. E dentro dessa pauta, a gente conseguiu construir na própria escola uma mentalidade voltada para educação antirracista. Então, você chegava na escola e tinha várias artes lá, o grafite né? É, com mensagens trabalhando com uma

29:45 perspectiva de educação antirracista. E aí o governo do estado, ele lançou um projeto voltado para a submissão de um projeto pedagógico para a escola que conseguiu um recurso para poder fazer uma ação que não fosse só pontual em novembro, mas fosse de um ano todo. E submetemos uma proposta e conseguimos o recurso e com esse recurso fizemos um documentário muito bacana, né? Que foi o Caminho de Resistências no SEMING, o SEMING é o Colégio Estadual Maria Isabel de Melo Góis. E dentro desse dessa caminhada, a gente conseguiu envolver a família, é, tinha depoimentos dos dos pais, dos alunos, de pessoas que moram no no entorno da escola. E esse documentário chegou inclusive até o Chile. Nós apresentamos esse documentário no Chile.

30:30 Então, foi muito interessante e foi a partir da convivência nesse Clube de História que eu iniciei uma pesquisa sobre Ed Ribeiro, né? Ed Ribeiro, que é um pintor aqui da da cidade, um artista da cidade, artista plástico e que ele trabalha com a questão dos orixás. E quando a gente fala de racismo, eh, a gente também vai pro campo religioso. Então, você fala de racismo religioso, intolerância religiosa, a gente pensa justamente na versão que as pessoas têm de se aproximar dessa temática, eh, que é própria da cultura afro-brasileira. E eu cheguei a ter esse artista justamente a partir de um estudante. Então, o estudante que morava na comunidade de Pedras trouxe no clube de história essa perspectiva de buscarmos

31:16 fazer uma pesquisa, uma investigação sobre o que esse artista produzia, o que ele produz. E a partir disso aí a gente começou a investigar. Então, assim, você já começa a perceber que a partir dessas práticas pedagógicas escolares, o estudante, ele vai sendo direcionado a, a buscar também esses caminhos e colaborar para essa prática da educação antirracista. Agora, mais recentemente, esse ano, eh, eu estou lecionando iniciação científica numa escola da, da rede privada, eh, eh, que faz parte da Fundação José Carvalho. E eu fiz a proposta para os estudantes, dentro da matéria de iniciação científica, de que eles buscassem temas, eh, relacionado principalmente com a pauta das mulheres.

32:02 E teve um, um grupo específico, né, formado por duas meninas, ah, mandar um abraço aí para a Nelise e Esther, que elas desenvolveram uma proposta que é estudar sobre mulheres quilombolas. Então, ah, o ponto de partida delas foi, eh, qual é o conhecimento que os estudantes, que as pessoas têm sobre os quilombos? Porque às vezes, quando você fala dos quilombos, fica parecendo que é algo que está preso lá no passado. E o, o quilombo, muitas vezes, era repassado na escola como um lugar onde as pessoas escravizadas fugiam, né? E também eles saíam para se refugiar no quilombo, mas o quilombo é um espaço de luta, de resistência. E as comunidades quilombolas, elas existem até os dias de hoje. Então, assim, a pesquisa das meninas, ela ela

32:47 busca justamente entender qual o nível de conhecimento que os estudantes, que a comunidade em geral tem sobre os quilombos. E elas, inclusive, foram classificadas recentemente para apresentar um trabalho na Femec, que é a feira eh dos municípios que acontece no no IF Baiano agora no final de maio. Então, a pergunta ponto inicial que você falou sobre a questão dos estudantes, eh é isso aí. Eu eu tenho exemplos concretos de estudantes que buscam se aproximar da temática. E tenho também alguns estudantes que são negacionistas, né? Que dizem que não, que que que tem que ser pelo mérito. E o papel do professor, o papel da educação é justamente você mostrar que não é bem assim, que ele pode fazer uma reflexão entendendo que eh a a a esse distanciamento que existe de

33:34 uma representatividade entre as pessoas tem algum motivo. Né? Então, você tenta trazer o estudante para uma realidade, dizer assim: "Poxa, você é inteligente, faça uma reflexão. Vamos aqui aos números, vamos ver quanto tempo tem que essas pessoas foram escravizadas, vamos ver quanto tempo tem que começou a a ter políticas efetivas, né? Para ter reparações históricas. Vamos entender esse cenário". E aí, claro, o estudante começa a a refletir a partir desse conteúdo. >> É. A questão, a gente vê muito as escolas públicas trabalhando em cima disso, do do combate ao racismo. Você acha que a nível municipal, estadual, é regional,

34:20 existe o mesmo interesse em divulgar esse esse combate ou há uma seletividade? Porque a gente vê várias perspectivas. Quanto mais a gente desce, vai para o sul, a gente vê isso menos velado, isso a gente vê algo mais cara a cara, mais velado. Você sofre discriminação lá no sul por ser simplesmente por ser nordestino, ou seja, seu sotaque já já causa isso, já causa uma repulsa em alguns lugares, né? E a gente vê esse combate, aqui a gente, pelo menos nas escolas municipais, a gente vê esse combate. Não sei se chega ainda às escolas particulares esse nível de conhecimento desse, de dessa busca por uma questão mais igualitária, porque a maioria das

35:07 escolas particulares daqui o pessoal é branco né? A gente vê, a gente, eu, você sabe, eu sei que a gente tem filhas na mesma escola, quando eu olho o ambiente, eu vejo pois isso aqui é totalmente desconexo da de onde eu estudei, né, que eu estudei escola pública. Aí aí eu vejo essa questão, se há essa preocupação também. De de desse combate ou você é mais aquela coisa, não, a gente está no meio, vamos deixar quieto. >> É, infelizmente, assim, a gente percebe essa diferença. Então, na escola pública, é, existe uma proposta de combate mais efetivo ao racismo e essa ideia de racismo estrutural, é,

35:54 você tem políticas públicas que são aplicadas de uma forma mais contundente. Mas isso acontece por quê? Porque você tem programas do governo que são programas [limpando a garganta] que precisam ser executados e que a verba chega e que as pessoas são cobradas por isso. Então, você tem professores que despertam para esse fazer pedagógico e você tem a a estrutura do estado que também é está o tempo todo fazendo que com que você recorde que você precisa ter esse tipo de ação. É claro, nós estamos falando, eh, muitas vezes, não apenas de políticas públicas, mas estamos falando de programas de governo, ou seja, você tem um governo que tem uma perspectiva mais progressista, você vai

36:41 ter esse tipo de ação acontecendo, né? Quando você tem governo que tem uma perspectiva mais conservadora, você vai ter o presidente da Fundação Palmares, por exemplo, falando em racismo reverso, por exemplo, né? Então, assim, são coisas absurdas, mas, eh, a nível de, de educação básica, a gente percebe claramente que as escolas de educação básica, a nível particular, você tem ainda uma restrição em relação a esses temas. Esses temas são pautados, eh, ainda de forma pontual, quando acontecem, né? E, e talvez a gente possa justificar isso, entender também,

37:27 porque as escolas, a escola pública, ela é laica e ela é para todos. Então, ela precisa incorporar essas práticas. Ela é para todos. Ela é democrática, ou pelo menos deveria ser, né? A escola particular, normalmente, ela tem um perfil. Então, se você busca colocar o filho em determinada escola, você já entende qual o perfil daquela escola, né? Então, normalmente, a escola, ela tem os, os, a escola particular tem os, os, eh, os alunos que são clientes, né? Então, aquele, aquela clientela procura de acordo com o perfil que, que se busca. Mas, assim, deveria haver, eh, uma fiscalização maior, porque lei é

38:13 para ser cumprida, né? Então, se você tem uma lei que fala sobre a obrigação de você trabalhar com cultura afro-brasileira nas escolas, ela tem que abranger também as escolas particulares, né? Porque como você falou, eh, você chega na escola particular, você percebe o público que você tem e diferente do público da da escola pública, né? Então, assim, são são cenários diferentes. E que a essa fiscalização, essa busca por essa por essa cobrança e eficácia da lei precisa acontecer nos nos dois ambientes, sem sombra de dúvidas. >> E como você disse, né, eh, o os pais eles já procuram de acordo com aquilo que ele quer, né? Tem uma

38:59 uma palavra que é utilizada bastante, eu não quero que meu filho seja doutrinado, né? Eh, se fala sobre a doutrinação. Então, já procura um lugar em que meu filho não vai ser muito doutrinado. >> E que é uma falácia, porque se houvesse a doutrinação, nós não tínhamos o nós não ia ter o abismo que aconteceu recentemente, né? O o problema que tivemos recentemente a nível nacional. E e e que estamos correndo um sério risco de acontecer de novo, né? Eh, se é que vocês estão me entendendo, né? >> É, tá claro. >> [risadas] >> Então, não não essa questão de de de falar de doutrinação é uma falácia, é fake news, [limpando a garganta] né? Então assim eh que bom que se o os professores

39:44 conseguissem, de fato, eh, sensibilizar os estudantes para essas pautas importantes, mas eh, infelizmente, os professores, nós professores, não temos eh, esse poder, né, de de fazer com que eh, o estudante, ele, de fato, possa comprar uma briga e e e possa enveredar por por defesa de políticas públicas, e tal. A gente fala, mas quando você tem uma base familiar que já vai para um uma questão, né, de bloqueio das causas progressistas, de falar que que tem pautas que não são importantes, que o importante é dentro dessa perspectiva capitalista cada um garantir o seu. Aí você não consegue muitas mudanças. >> O que eu preciso saber assim para

40:33 para poder ser alguém engajada nessa questão de política pública, nessa questão de de eh combate ao racismo, de ser anti-racista, eh o que é que o que é que você poderia dizer assim que a gente pode aprender e para não normalizar, para combater? >> Eh a primeira coisa que a gente precisa fazer é reconhecer que o racismo existe. A primeira coisa que a gente precisa fazer é entender que tudo aquilo que nós vemos, eh falamos no dia a dia, tem um impacto. Então assim, eu não posso achar que é besteira. Né, eu não posso achar que é uma coisa que não tem importância. Porque eu já vi pessoas

41:19 eh no no contexto acadêmico, inclusive, mas pessoas de que que estudam outras pautas eh falando coisas, falando, trazendo piadas, por exemplo, que é o que a gente chama do racismo recreativo e achando que aquilo ali é normal, né? Quantas vezes a gente não vê acontecer isso nos grupos de WhatsApp. Então a gente começa a a a o enfrentamento primeiro reconhecendo que existe e depois que você reconhece que existe, que você fala assim muitas vezes eu já fui de alguma forma racista. Porque as pessoas podem falar assim: "Ah, mas eu sou negro, eu tenho um amigo negro, eu tenho isso, tenho aquilo, eu não sou racista". Mas assim, não é por aí. O entendimento não é esse.

42:05 Certo? O entendimento não é esse. Porque assim, existe uma reprodução desse racismo. Ainda que você não não esteja numa perspectiva de não esteja numa perspectiva de ser você aquele que produz, mas você está reproduzindo. Né? Porque assim, a o que é reproduzir? É você estar num contexto no qual você não combate. Se você não combate, se você é conveniente, você vai reproduzir aquele cenário. Então, às vezes você tá num grupo de amigos, é, no WhatsApp, ou num bar, ou sei lá o que for, e as pessoas trazem piadas, trazem comentários. Se você vai rir junto com os outros, se você vai naturalizar aquilo, você está

42:52 contribuindo para que aquele cenário persista, seja persistente. Então, assim, eu eu acredito que a primeira coisa é reconhecer a existência do racismo, reconhecer que é, no cotidiano, em algum momento, você vai identificar essas práticas e você precisa combatê-las. É, buscar o um amparo jurídico também no sentido de conhecer as leis. Hoje nós temos, é, uma facilidade, claro que não é em todo o território nacional, mas em muitos lugares nós temos uma facilidade de acessar a internet, de acessar, é, as plataformas oficiais que tem as leis. Então, assim, você pode acessar,

43:38 você pode saber quais são as políticas públicas, você pode saber quais são as punições, né? E buscar também cobrar dos seus representantes legais o que é que está sendo feito a nível de política pública local. Porque assim, é importante você ter uma política pública nacional, é, é importante, é importante que você, individualmente, tenha as ações, mas, é, quando a gente fala de racismo, a gente tá falando de um campo de disputa de poder. Aí é uma disputa tensa e que a gente precisa ir para esse enfrentamento, para esse combate. Então, a cada quatro anos você elege um, a nível de, de município, você elege um prefeito, você elege os vereadores.

44:26 Aquela pessoa que você atribuiu o seu voto, qual é a pauta que esse vereador, essa vereadora traz em relação à educação antirracista? O que é que esse vereador, essa vereadora, durante o seu mandato, apresentou em relação à educação antirracista, em relação ao combate a esse racismo estrutural? Então, assim, se todo mundo, eh, fizesse essa pergunta, se fizesse essa pergunta e fosse até a essa pessoa que você depositou a sua confiança, que você votou, e perguntasse e cobrasse, principalmente, as coisas ela, elas tenderiam a, a mudar. Porque, por exemplo, você tem uma escola, que era o Maria Isabel e agora que é o, o, o Setic, que

45:13 é o Colégio Estadual em Tempo Integral de Catu, que tem muitas ações voltadas para a educação antirracista. Muitas. Eh, temos muitos projetos dos estudantes, temos engajamento dos professores. Mas assim a nível, eh eh político né? Do ponto de vista que você for pensar a nível municipal, local, o que é que vem acontecendo para visibilizar essas ações? Porque não adianta você ter bons projetos, bons produtos e isso não ser visto. Não adianta. Então, assim, qual é a, a proposta que está sendo, eh, eh, lançada produzida

45:58 por esses, eh, eh, vereadores, por esse poder político local, para visibilizar essas pautas das minorias. Porque a gente sabe que as pautas das minorias ela é difícil de acessar os espaços de poder. É muito difícil. Então assim eh, é preciso que a gente cobre isso aí. Então, o que você perguntou sobre o que a gente pode fazer, é isso. Primeiro, nós buscarmos é identificar que esse racismo existe, fazer a nossa parte enquanto indivíduo, mas ter a consciência de que a luta é coletiva. E se a luta é coletiva, é uma luta política também, né? E é uma luta política que não é só uma luta política partidária. Eu não preciso fazer parte de um partido político para fazer um, um, uma luta que seja por

46:45 políticas públicas de qualidade. Porque vai, ah, isso vai demorar para chegar. Vai. Mas se eu começar, se eu iniciar um processo, em algum momento isso vai chegar para o meu filho, para o meu neto e, e tem que ser por esse pensamento. >> É, assim, a gente está lutando para que a cor da pele não conte nossa história, não é isso? >> Exatamente. >> A gente, porque, eu falo isso porque a minha mãe era negra, né? Aí, a cor da minha pele não conta a minha história por causa dos meus ancestrais também né? E a gente acaba querendo, eh, viver em um mundo onde a ainda a cor da pele conta. E a gente tem que buscar essa história, a questão da história dos nossos

47:31 ancestrais, porque nós somos, na Bahia, principalmente somos todo o mundo aqui é misto. Ninguém, eh, praticamente não há ninguém 100% branco. Negros sim tal grande parte ainda existe. Mas a gente tem que buscar o quê? Que ele, a cor da pele não conte minha história, porque a gente vive em um mundo plural. E a gente tem que buscar isso. Você falando aí, eu lembrando disso. Pô, velho, aí, muitas vezes eu sou julgado pela cor da minha pele. Eu eu eu eu não existe racismo reverso. Eu brincava às vezes que, na Bahia, a gente recebia gente que tem uma cor mais clara recebe discriminação porque a gente vai no no Pelourinho, o cara quer cobrar 50 reais por causa da minha cor da pele numa fila do Senhor do Bonfim. Mas isso não é racismo, isso é uma questão cultural, porque você vê um cara branco, meu primo

48:18 mesmo pagou 100 reais em duas cervejas no no no eh lá no no elevador da serra, por causa da cor da pele dele. Mas isso não é racismo, isso é eh não, o pessoal olha para você, mas olha diferente, mas a gente não sofre racismo por causa disso. Não existe racismo reverso. É uma questão mais a questão que essa questão cultural de combater o racismo, de dizer que é antirracista mesmo, é você começar a olhar para o outro e dizer assim, pô, eu faço parte de um grupo que ainda causa danos ao outro. Porque minha às vezes solto piadas. Quer dizer, eu eu me digo que não sou racista, mas às vezes no meio de uma brincadeira eu me pego fazendo umas piadas racistas. Isso

49:04 talvez não me incomode não não incomode aquele grupo que esteja no momento, mas que está do meu lado. E aí? A gente, pelo menos, minha a nossa perspectiva cristã é de ser diferente, né? Então, é de causar menos danos ao outro do que causa a mim, né? Então, é é essa evolução, essa questão de conscientização de dizer assim, pô, não é mimimi não, pô. A gente, porque eh tanta gente que bate na tecla "é mimimi", pô. Antigamente a gente falava, chamava de negão, negão, beiçudo, não sei o que lá. >> Hoje não pode falar mais nada. >> falar mais nada, mimimi. Não é mimimi, porque a gente não sabe a dor do outro. A gente não sabe o que o que o outro está carregando. >> Ligava quando do outro, né? >> É, achava normal. Até políticos hoje fazendo piadinha, dizendo que é normal achar que você imaginar

49:51 ah, falando de um assaltante, e pensar num negro e ah, vai pensar logo que é um negro. Não, não tem que pensar logo. Assaltante é uma pessoa de cor branca, de cor preta, eh, não importa, ué. Você não pode, aí tem que que acabar com esse, eh, essa questão de, eu vou imaginar algo ruim, é negro. Ou ah, achar algo de bom, é branco. Então, a gente tem que começar a limar mesmo, tem que criar que essa nova geração, das minhas filhas, eu tento não plantar isso que tá em mim ainda. Ainda está em mim, não posso negar, que eu fui criado num tempo que achava que era tudo normal, mas não é normal. Eu tenho que botar na minha cabeça, não é normal, eu tenho que evitar fazer essas coisas que eu não sei a quem eu tô machucando. Porque é uma visão de mundo de 40 anos

50:37 atrás era totalmente diferente da que tem hoje. E hoje eu tô aprendendo muito mais com os meus sobrinhos do que que eu aprendi na minha vida, porque essa questão de ensinar, de respeitar o limite do outro, você entender, porque essa galera nova tem uma mente mais aberta. E se a gente não se ligar, a gente acaba querendo impor aquilo que a gente achava que era normal, mas não é. Que a gente, eu tô dizendo, eu machuquei muita gente. Eu machuquei muita gente porque achava que era normal, mas hoje eu tenho consciência que eu não devo fazer mais, eu tenho que me privar de algumas piadas, de algumas coisas que eu acho normal, porque eu não sei quem eu tô machucando. >> Exatamente. Eh, e a gente percebe é bem que são em vários espaços que esse

51:23 sentimento perpassa. Então, no mundo do futebol, que durante muito tempo, eh, pessoas negras não poderiam, pessoas pretas não poderiam participar, não podia ser jogador, né? Tem aquela história do do pó de arroz e tal. Então, assim, hoje você vê um um jogador como Vinícius Júnior, um famoso, bem sucedido na vida, passando por problemas e buscando esse enfrentamento público diante do racismo. Então, assim, você percebe que não é uma questão, eh, do que você tem, do seu patrimônio. [roncando] >> Social. >> Social, né? É uma questão que está enraizada de você em buscar reafirmar o tempo todo uma

52:10 colonização, ou seja, é o aspecto do colonizador. Então, o europeu que colonizou, né? Que escravizou, ele, eh, entende que precisa fazer isso o tempo todo. E aí esse, essa, essa perspectiva colonial, ela vai sendo perpassada para as pessoas que são esses descendentes aqui. E essas pessoas que estão aqui no nosso território, elas acabam tendo um chá revelação, porque às vezes você, eh, é lido como branco, né? Entre nós, e aí você vai para um outro espaço, para, para a Europa, você vai nos Estados Unidos e você é latino. Lá você vai ser latino, você não >> como latino. >> Exatamente. Então, assim, eh, eh, é um processo

52:56 lento, eh, mas que precisa ser feito, né? Precisa ser feito, precisa, e é como eu falei, eh, são atitudes individuais. Eh, essa atitudes individuais de, de, dessa ideia antirracista precisa também ser fortalecida a nível local, numa perspectiva política. E, e é isso, a, de, dessa, não tem um, uma receita pronta, mas assim, é uma construção diária, é um enfrentamento diário. >> Tem, tem um versículo, o Tom falou aqui em relação ao cristianismo, tem um versículo lá em Gálatas 3:28 que diz assim: "Não há judeu nem grego, pois todos são um". Então, não existe assim uma discriminação biblicamente falando,

53:41 embora a gente reconhece que existe uma discriminação religiosamente falando, né? Mas biblicamente, a Bíblia, Deus, ele não condena por raça. Somos todos um. E e se é, o evangélico entender isso, a gente melhora muito na nossa questão do nosso cristianismo. Mas a gente tá chegando no final já, a gente tem pouquinhos minutos e existem coisas assim que talvez a gente não tenha conversado aqui ainda e que você acredite que seja importante colocar na mesa pras pessoas que estão nos ouvindo e aí eu gostaria que você fizesse isso

54:26 nesse momento, talvez nem eu nem Tom tocou, a conversa não foi pra esse pra esse ponto e aí você gostaria que você colocasse isso aí. >> [roncando] >> É, eu poderia acrescentar mais que é importante todo mundo entender que o racismo existe. É, que o racismo mata e que o racismo ele é estrutural. Né? Então você tem preconceito, você tem discriminação e você tem racismo. Né? Então quando a gente fala de preconceito, são ideias preconcebidas, é, onde você não conhece, você faz um julgamento antes mesmo de conhecer. Discriminar é quando você diferencia as

55:12 pessoas por alguma questão, quando a gente tá falando aqui da questão racial em função dessa racialização que foi construída ao longo da história. E quando a gente fala de racismo, a gente não pode entender esse racismo como algo individual, particular, que eu vou pegar aquele indivíduo, eu vou tratá-lo, entre aspas, e ele e ali o problema do racismo vai ser resolvido. Não, quando eu penso no racismo, eu preciso pensar no racismo estrutural, que está presente nas instituições, né? Então tem muitas instituições que são racistas. Então essas instituições racistas, elas acabam trazendo um um um uma imagem, um desenho, um estereótipo de quem é o o bandido, né? De quem é a

55:57 pessoa que está errada e a gente precisa ter essa consciência de que o racismo está presente nessas esferas. E o caminho da educação é um caminho possível, mas não é só a educação formal. A gente precisa ver esse combate na educação não formal também, que é essa conversa entre os amigos, né? É é numa fila do do banco, da lotérica, em qualquer espaço, é em qualquer momento que a gente possa é discutir, trazer a pauta. E também a gente pensar que esse racismo é ele está posto aí na sociedade como consequência direta de um processo de colonização que nós sofremos. E esse

56:42 processo de colonização que nós sofremos é ele gerou uma escravização e aí é muito importante que a gente entenda é a diferença entre falar de escravos e escravizados, né? Da mesma forma que a gente discute a questão dos povos indígenas, os povos originários ou falar o termo índio, né? Então quando a gente pensa nos povos é quando a gente pensa no termo escravo, a gente está naturalizando. Então a perspectiva do racismo estrutural é essa de naturalizar e é quando a gente se refere a escravo, ou seja, o cara é a pessoa já nasceu escrava, né? E quando você fala de escravizado, você tá trabalhando numa perspectiva conceitual de dizer que alguém o tornou é escravo, ele foi escravizado, né?

57:29 Então assim é parece coisa simples, mas que quando você faz a reflexão faz total diferença. É, então é importante que a gente pense é nesse aspecto. E para além disso é agradecer vocês de novo pelo pelo convite, né? E e e a gente entender que não é só nesse período de maio do do 13 de maio, do 14, do novembro tem que ser uma pauta constante e a gente precisa cobrar para que essas pautas cheguem em todos os espaços. E inclusive é, o Tom falou aqui, não que na escola particular a gente não percebe tanto. Então assim, o o pai, a mãe, a família

58:17 precisa ter esse papel também. Então, se eu percebo que a escola onde os meus filhos estão estudando ela ela não tá trabalhando numa perspectiva é, de atender a a lei 10.639, 11.645, eu preciso chegar na escola e e trazer essa discussão falar olha é, sobre essa lei aqui, qual é a proposta que a escola está executando? O que é que está sendo feito sobre isso aqui? Né? Então, é, coletivizar a responsabilidade. A responsabilidade é de todos nós e a partir dessa dessa ideia de uma responsabilidade coletiva, certamente a gente vai conseguir ter melhores resultados. >> Uhum. Tem queria que você falasse só mais um

59:03 pouquinho assim, é eu, digamos assim, eu quero ser antirracista, o que é que eu posso fazer? Além de reconhecer, de atitudes práticas assim. >> Atitudes práticas. É, hoje eu eu vejo muito é a questão da rede social, né? A questão da rede social onde nós podemos colocar para as pessoas o que é que nós pensamos, o que é que nós eh, sentimos em relação ao mundo. E é muito importante que você pegue suas opiniões, suas particularidades e torne elas públicas também. Porque a partir do momento que eu exponho, que eu apresento para as pessoas o que eu penso sobre

59:49 determinados temas, eu vou começar a mostrar para a sociedade que tem que ser algo que tem que ser publicizado. Porque assim, às vezes nós, eh, temos um um hábito de publicizar coisas, eh, fofocas, coisas assim de de menor valor, mas que vão viralizar, o que a gente chama o termo hoje de viralizar. E quando nós vamos para essas pautas que são, de fato, importantes, sérias, você vê que há um uma restrição, as pessoas de fato não conseguem ter, eh, dar esse engajamento devido. Então, a insistência precisa precisa ser ponderada nesse sentido. Então, para ser antirracista, é aquilo que eu

1:00:34 já falei. Eu preciso reconhecer. Eu vou reconhecer e eu vou praticar. Praticar na minha família, né, praticar entre os amigos, eh, eh, tornar isso público e pensar que esse racismo está em em diferentes caminhos, né? Então, assim, eu posso pensar na questão, eh, religiosa, né? Eu posso pensar na questão da da da do caminho educativo, eh, da política de cotas. Então, nesses vários caminhos, nesses vários cenários, eu preciso me posicionar. Eh, tem um um um o o um deputado que é o pastor Henrique, né? E que ele traz pautas importantes de forma bem constante. Ele, eh, é evangélico e ele traz essas pautas de forma

1:01:20 significativa. E aquilo chama muito a atenção das pessoas. Porque é a gente se habituou é a estar num num contexto político polarizado, né? Que nós sabemos que nós estamos num contexto polarizado e numa perspectiva conservadora é normalmente essas pautas não entram. Então, se você é cristão, se você é evangélico, se você é é religioso e você é busca pautar isso no seu cotidiano você está dando uma demonstração efetiva de que de fato você é uma pessoa que está buscando um uma luta antirracista, né? Pautada no no respeito é as pessoas, pautada é numa questão de de um combate

1:02:08 mais firme, de uma denúncia do que vem acontecendo de forma é incorreta na sociedade. Então, é isso. Que a gente possa no cotidiano é é trazer essas pautas para os nossos ambientes de família, nossos ambientes de trabalho, independente de qual seja a nossa atividade laboral para que a gente tenha um um mundo mais mais justo, com mais equidade para todos. >> Ok. Tem uma pergunta aqui, ó, Amanda, Amanda Ferreira. Professor, por que o racismo estrutural continua tão presente na sociedade mesmo com tantos debates e avanços sobre igualdade? >> Excelente pergunta, Amanda. Um abraço, Amanda. É Amanda é é minha aluna.

1:02:54 Então assim é por que o racismo estrutural continua presente na sociedade mesmo com tanto debate, com tantas discussões, a gente falando tanto? Porque ele é estrutural. Porque ele é estrutural. É aquilo que eu falei. >> Tá enraizado. >> São mais de 300 anos de construção desse racismo estrutural. São mais de 300 anos. As políticas públicas mais efetivas, elas começam no século 21, tem pouquíssimo tempo. Né? Então assim, como você vai, é, achar que em duas, três décadas, você vai, é, resolver um problema de séculos. Nós não vamos resolver um problema de séculos em três décadas.

1:03:41 Né? Mas é importante que a gente consiga ter fôlego para continuar, é, reafirmando. E assim, assim como, é, a Lei Áurea, ela tem uma perspectiva de um, de uma simbologia na qual ali você tem a Inglaterra, você tem um sistema capitalista que tá buscando um mercado consumidor, que você precisa ter agora pessoas assalariadas, tal. E que naquele contexto, o povo preto que era escravizado, eles não foram utilizados como esses trabalhadores assalariados. Nós tivemos uma imigração na tentativa de branquear a população, né? Então assim, dentro desse, desse cenário, a gente precisa entender que a, a luta é, é

1:04:27 constante. A, a luta é perversa. O tempo todo o povo preto tá sendo excluído dos processos. A gente tá sendo excluído dos processos o tempo todo. Então assim, é, não vai ser resolvido de uma hora para outra, mas é algo que precisa haver uma insistência de uma continuidade. Porque nada é dado. Tudo é fruto de lutas, né? De, de esforço e de lutas. Ou seja, é, nós somos a, a, a continuidade de sonhos daqueles que vieram antes de nós. Né? Nós estamos representando pessoas que lutaram e que morreram para que a gente pudesse tá aqui hoje falando sobre o tema, né? >> Pois é, chegamos ao nosso final. O Paulo está ali olhando para a gente.

1:05:13 >> [risadas] >> Apolo quer ir para a casa. >> Deumasci, nós agradecemos assim, a primeira pessoa, eu queria falar sobre o tema e falei com Carla Sandra, ela fez, tem uma pessoa, tem Deumasci, aí depois eu comentando com o Apolo, ele me passou seu contato, muito obrigada por ter aceitado o convite, né? Eu acho que a gente precisa conversar, o assunto é muito amplo, muito vasto, a gente precisa conversar mais vezes, então desde já você já está convidado, a gente depois marca com outro dia aí para a gente continuar, a gente não falou não quis nem entrar nessa questão de racismo reverso, que não existe, tem várias outras coisas que a gente não entrou em relação a discriminação, na empresa, salarial, tantas coisas, são tantas lutas, são tantas pautas que a gente ainda precisa falar e debater e colocar

1:06:00 mesmo o assunto na mesa, que eu acho que isso sim vai gerando a transformação até na nossa mente mesmo, na mente, é, nas pessoas que estão nos ouvindo, então muito obrigada por estar ter aceitado estar aqui conosco, né? Ter doado seu tempo, muito obrigada pessoal também aí o professor que está lá com, com a galera dele lá, os alunos. >> Diamantina, lá, Chapada Diamantina. >> Me convida. >> [risadas] >> Né? Então, quer falar alguma coisa ainda Tom? >> É, agradecer, mas só dizer aqui que meritocracia é distopia, isso é o meritocracia foi falada pela, pela primeira vez por um filósofo comunista para descrever uma distopia, então quem usa meritocracia para outra coisa, fique

1:06:46 sabendo que foi meritocracia vem como distopia. >> Pois é, então também é conhecimento. Vamos nessa, galera, muito obrigada e até a próxima, Deus abençoe vocês. >> É.

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