Transcrição completa de “REVOLUÇÃO FRANCESA: AULA COMPLETA (Débora Aladim)”. Clique em uma marcação de tempo para abrir o vídeo naquele momento. Precisa de outro vídeo? Use o gerador de transcrição do YouTube.
0:00 [Débora] Hã… Oi, gente. Tudo bem com vocês? Começa agora, talvez, o resumo mais bonito da história desse canal. Eu não tenho palavras pra descrever pra vocês a emoção que é ter a oportunidade de vir ensinar pra vocês a Revolução Francesa em Paris. Pessoal, esse resumo é a realização de um sonho. Isso não é uma aula, isso vai ser um filme, porque hoje eu vou mostrar pra vocês os locais onde a Revolução Francesa aconteceu, e eu vou explicar tudo pra você ir bem na sua prova, pra você ir bem no seu trabalho e, mais do que isso, pra você entender como que surgiram as estruturas da nossa sociedade, por que o nosso governo é como é hoje e por que o ano de 1789 mudou para sempre a história da humanidade. Por que isso importa pra história da França, pra história do Brasil e pra história do mundo? Então senta, que eu vou tomar o seu tempo, mas eu tenho certeza que você não vai ficar entediado por um segundo sequer.
0:48 Senta, pega uma aguinha, pega o seu caderno e se prepara, porque hoje a gente vai aprender a Revolução Francesa na frente da Torre Eiffel. -Gosto de coisa chique. [Débora] Galera, vamos começar com a contextualização mais básica. O que foi a Revolução Francesa? A Revolução Francesa foi o mais importante movimento revolucionário da história do mundo ocidental. Pessoal, a Revolução Francesa foi um movimento que transformou tanto a história do Ocidente que ela, literalmente, marca o final de uma era. Com a Revolução Francesa, a gente vai ter o final da Idade Moderna e o início da Idade Contemporânea. E nós, atualmente, vivemos na Idade Contemporânea. Então, a Revolução Francesa começou um marco que, até hoje, não aconteceu nenhum evento grande o suficiente pra terminar com isso. -Então, meu amor, ninguém é mais poderoso do que Deus e eu. [Débora] Então, a história da humanidade, pessoal,
1:34 ela é dividida entre a pré-história. Temos a Antiguidade, a Idade Média, a Idade Moderna, que é da chegada dos europeus à América à Revolução Francesa. E, a partir de 1789, a gente vai ter a Idade Contemporânea, que é o momento onde nós estamos atualmente. E mais do que isso: ao longo dessa aula, eu vou mostrar pra vocês como que a Revolução Francesa foi uma revolução da burguesia. Já vou explicar pra vocês o que são os burgueses, o que isso tudo significa, mas, para marcos gerais, pra você anotar no seu caderno: a Revolução Francesa foi a maior revolução que aconteceu no Ocidente, marcou o início da Idade Contemporânea e foi uma revolução de caráter burguês. E agora, pessoal, vamos entender o contexto histórico, pra gente, aí sim, entrar na Revolução Francesa. O que estava acontecendo na França antes da revolução? E, a partir disso, você vai entender completamente como que a revolução vai começar. -Bicha, quer saber da história?
2:20 -Quero. -Assim… [Débora] A França, pessoal, tava passando pelo chamado Antigo Regime. A França tinha um governo absolutista. Não sei se vocês vão se lembrar dessa palavra, mas absolutismo, absoluto, justamente porque o rei da França tinha poder sobre absolutamente todas as instâncias do governo e da sociedade. A França, inclusive, foi o país no qual o absolutismo foi mais intenso. Tanto que foi um rei francês, o Rei Luís XIV, que fez aquela famosa frase: "O Estado sou eu". Quando o rei diz isso, pessoal, o que ele quer dizer? Quando ele fala "O Estado sou eu", ele quer dizer: "eu mando, eu desmando", "eu sou a lei, eu sou a ordem, eu faço o que eu quiser". -Isso. Respeita a mamacita. [Débora] Porque, na época, pessoal, não existia uma constituição pra regular a forma como o rei governava. Então ele podia fazer o que ele quiser. Ele não precisa ter pessoas aprovando ou reprovando o que ele fazia.
3:06 As pessoas não tinham participação política. Então isso vai ser algo muito importante. E não só isso, pessoal. Esse poder absoluto dos reis se sustentava na ideia de que o rei era um monarca escolhido por Deus, ok? Então tinha um certo fundo religioso, uma ideia de que se tá assim é porque Deus escolheu assim. O poder do rei foi dado por Deus. Então isso é algo que a gente vai começar a questionar nessa época. Mas a França está vivendo um governo absolutista. O rei faz o que ele quiser, não tem constituição pra frear, não tem limites, ele pode mandar e desmandar. E não só isso, pessoal: o Antigo Regime francês também era marcado por ter uma sociedade estamental. O que isso significa, pessoal? A sociedade da época era dividida em estamentos, era dividida em ordens, e essas ordens eram imutáveis. Ou seja, se você nascia numa determinada classe social,
3:51 você não podia mudar isso. Você passava o resto da vida dessa maneira. E por que isso é importante da gente mencionar, pessoal? Porque daqui a pouco a gente vai começar a falar um pouco sobre igualdade. E esse conceito vai mudar absolutamente tudo. Essa sociedade estamental que os franceses tinham, pessoal, era dividida em três classes, três ordens, três estamentos, que eram: a nobreza, que vocês já sabem quem é, né? São os nobres, né, as pessoas que vêm de uma família que tem títulos de nobreza, que têm terras. Não necessariamente eles são super ricos, mas eles têm uma coisa que é nata. Eles nasceram na nobreza. Então, independente se eles estão ricos, se eles estão pobres, se eles estão bem, se eles estão mal, ninguém tira a nobreza deles. A nobreza na época, né, os títulos de nobreza eram uma coisa nata. -Por isso eu dou valor a cada croissant que eu como. O segundo estado, o segundo estamento, era o clero.
4:36 O clero, pessoal, são as pessoas da religião, ok? Então, na época, a França era católica. E não só era católica, como a religião católica era a única permitida. Era proibido você não ser católico. A Igreja tinha uma grande importância, uma grande influência na sociedade, e o clero era o segundo estado. E o terceiro estado era todo o resto. Então, quem não era nobre e quem não era da Igreja era do terceiro estado. E como vocês já devem imaginar, pessoal, o terceiro estado era a maior parte da população. Para vocês terem uma noção, pessoal, somados o clero e a nobreza, o clero mais a nobreza, eram aproximadamente 3% da população da França. -Três? [Débora] 3%! Com paninho, com tecido, com todos esses detalhes? -Sim. -Três?! [Débora] Mas sozinhos eles tinham mais de 40% das terras francesas, quase que metade da França pertencia aos nobres e à igreja. E eles não pagavam impostos. Isso você não pode esquecer, tá pessoal?
5:25 Porque isso é grande parte da origem do problema que daqui a pouco vai fazer o povo tacar fogo, literalmente nesse campo aqui, tá? Porque esse gramado onde eu estou, eu esqueci de contextualizar isso, esse gramado onde eu estou se chama Campo de Marte, né? Marte em homenagem ao deus grego da guerra. Inclusive nesse campo onde eu estou aconteceu um massacre durante a Revolução Francesa. Literalmente, pessoal, daqui a pouco o pessoal vai estar tacando fogo nesse gramado aqui por causa disso. -Tinha que ver a algazarra que fizeram. [Débora] O clero, a nobreza não pagavam impostos. "Mas, Débora, eles não eram os mais ricos, os mais poderosos, donos de metade do território da França?" [Débora] Sim. E não pagava imposto. E não só isso, como eles também viviam sustentados pelo Estado, galera. Por quê? A gente tem naquela época também, né, como parte desse antigo regime, o que nós hoje chamamos de nobreza parasitária.
6:11 Parasitária por causa de parasita. Que que é um parasita, gente? É uma criatura, uma pessoa, sei lá o quê, que vive sugando as energias, sugando as suas forças. É um parasita, um invasor. E por que a gente vai chamar a nobreza de parasitária? Porque, pessoal, eles viviam em grande parte sustentado, né, se aproveitando da estrutura do Estado. Eles não pagavam impostos, então não tinham que dar algo em retorno. E, pessoal, eles tinham uma sociedade que foi completamente feita pra eles desfrutarem. Literalmente, pessoal, o Antigo Regime era uma sociedade, era um tipo de sociedade que celebrava a desigualdade, porque o Antigo Regime legalizou privilégios que uma parte minúscula da sociedade podia desfrutar, enquanto o resto tinha que pagar e tinha que bancar essa nobreza e esse clero. Então, pessoal, enquanto a nobreza estava literalmente
6:58 vivendo no mais alto luxo, no Palácio de Versalhes, sem pagar por isso, as pessoas comuns estavam tendo que sustentar essa galera. Por isso que a gente chama de nobreza parasitária. E é muito interessante a gente pensar, pessoal, porque essa nobreza, eles eram tão à toa, mas tão à toa, que a gente teve até a instituição da etiqueta. E eu tô falando isso porque já caiu no Enem, tá bom? A etiqueta, pessoal, surge nesse contexto como uma forma de dar aos nobres algo pra eles se ocuparem, para eles não conspirarem contra o rei, pra eles terem aí alguma coisa pra fazer com o tempo livre deles. O que é etiqueta, pessoal? Etiqueta é um conjunto de normas de como você deve se sentar, como você deve se portar à mesa, como você deve se portar em público, de que forma você fala com os outros. É uma forma de, primeiro, você se diferenciar dos pobres, né? Porque, convenhamos, se você sabe diferenciar uma faca de carne de uma faca de pão, mostra que você é um pouquinho mais chique
7:45 do que uma pessoa que só tem um talher dentro de casa. Mas, principalmente, galera, as regras da etiqueta na época elas eram absurdas, a ponto de, tipo assim, mulheres da nobreza tinham que passar horas e horas por dia arrumando o cabelo, porque ter o cabelo de determinada forma era adequado ou não adequado pra algum lugar. As moças da época tinham que aprender de qual forma você segura o seu leque em público, de qual forma você tira a luva das suas mãos. E isso tudo era um aparato que foi criado justamente pra dar uma ocupação para a nobreza e deixar a nobreza perto do rei. Por quê? Outra pergunta que interessante, né? Por que o rei deixava esses nobres desocupados todos perto dele no Palácio de Versalhes? Justamente pra evitar brigas, intrigas e conspirações contra o poder real. Se os nobres estão perto do rei, tendo admiração pelo rei, convivendo com o rei e sendo gratos pelo rei, estar provendo pra eles, eles não irão conspirar.
8:32 Então, pessoal, por isso que a gente chama essa nobreza da época de uma nobreza parasitária, porque ele tá igual um sanguessuga, mordendo o seu braço, sugando o seu sangue e sustentados pelo povo. Porque quem tá pagando imposto é o terceiro estado. E quem que é o terceiro estado? Todo o resto. Todo mundo que não é nobre, que não nasceu nobre. E todo mundo que não é da igreja é o terceiro estado. E obviamente é a maior parte da população. Obviamente eles sozinhos que tem que sustentar a marimba toda. E obviamente eles estavam cansados disso tudo. Já deu pra entender um pouco as razões da revolução, né? Mas ainda vai ter mais coisa. Calma aí. E também, pessoal, outra coisa importante pra vocês entenderem o contexto, isso não pode esquecer, galera. Na época as ideias iluministas estavam crescendo na França. O que é o Iluminismo, pessoal? O Iluminismo é uma corrente de pensamento que começou na época, começou até mesmo antes, né, do século e XVII.
9:19 E além do Terceiro Estado sozinho pagar todos os impostos pra sustentar essa máquina pública caríssima, pra pagar palácio de Versalhes, pra pagar o governo da França, eles ainda tinham resquícios de feudalismo. Então, principalmente, pessoal, as pessoas que viviam no campo, as pessoas que viviam da agricultura, os camponeses mesmo, eles estavam passando por perrengue muito grande, tá? Porque eles ainda tinham que pagar alguns impostos feudais, eles não eram donos das terras nas quais eles viviam e trabalhavam. Então, daqui a pouco a gente vai começar a falar também sobre reforma agrária, tá? Porque igual eu mencionei pra vocês, a nobreza e o clero tinham 40% de todas as terras da França, só que eles eram 3% da população. Se tem uma palavra que descreve isso é desigualdade, né, gente? 3% da população ser dona de 40% do país! É loucura isso, né? -A vida é uma desgraça.
10:05 [Débora] E outra parte da sociedade que também tinha as suas reivindicações era a burguesia. Agora vamos entender a questão da burguesia, galera. Gente, isso tudo é contexto, tá? Isso tudo é treta que estava acontecendo na França antes da Revolução. Quem que eram os burgueses, pessoal? A burguesia é uma classe social que agora vai começar a ter a sua ascensão. Eles vão surgir, pessoal, no final da Idade Média. Os burgueses, na época, eles eram as pessoas que viviam nos burgos, que viviam nesses centros urbanos, que eles eram comerciantes, eram mercadores. E o que que você precisa lembrar sobre os burgueses, né? Qual é a característica mais importante sobre a burguesia? A burguesia tinha dinheiro, mas não tinha a nobreza. Lembra o que eu falei pra vocês sobre a sociedade estamental, de que você nasceu numa classe social e você não pode mudar? Pois bem, pessoal, os burgueses também não podiam. E muitas vezes, gente, os burgueses faziam fortuna,
10:53 faziam nome, tinham até um certo prestígio, mas eles não eram nobres. E sem a nobreza, eles não podiam fazer nada, não tinham participação política. Então os burgueses, pessoal, vão começar a questionar a sociedade, porque eles vão pensar: "Eu tenho dinheiro, mas eu não consigo ter influência e eu não consigo ter participação política". Porque, lembrando: absolutismo. O rei manda e desmanda, faz o que ele quiser. Então o burguês tem voz? Absolutamente não. -É o fim da picada. [Débora] Muitos burgueses, inclusive, eram mais ricos do que os nobres. Muitos burgueses eram os que sustentavam as grandes obras de arte. Muitos burgueses eram os que encomendavam castelo, palácio. Muitos burgueses tentavam se aproximar da nobreza. Mas, gente, sociedade estamental: você nasceu nobre, não importa se tá falido, vai morrer nobre, sendo bem tratado, sendo bem cuidado.
11:40 Você nasceu um camponês, vai morrer nessa situação. Você nasceu um burguês, vai nascer, vai viver, vai morrer sem ter esses privilégios que apenas 3% da sociedade podia desfrutar. -Barbaridade, que desgraceira. Então, vocês estão vendo que tá uma situação bem injusta, né? Tá sendo uma situação bem louca, bem complicada que tá acontecendo. E aí, nisso tudo, pessoal, não só na França, em toda a Europa, mas principalmente aqui na França, começou a surgir um movimento, um pensamento chamado Iluminismo, pessoal. Isso vocês não podem esquecer, perfeito? O Iluminismo, pessoal, foi um movimento, uma corrente de pensamento que prega o uso da razão, o uso do conhecimento científico, a divisão entre a Igreja e o Estado, né? Que a Igreja não tem que influenciar no Estado, que as pessoas têm que ter liberdade religiosa, que as pessoas têm que ter liberdade pra pensar o que elas quiserem.
12:27 O Iluminismo, inclusive, defende um Estado laico. Observação importante: Estado laico não significa Estado ateu, ok? Um Estado laico é apenas um Estado sem religião oficial, perfeito? E o Iluminismo também defende liberdade política, liberdade econômica, os direitos individuais das pessoas. E ele tem esse nome justamente porque os filósofos iluministas, que eram, na sua maioria, homens franceses, acreditavam que estavam sendo iluminados, que eles estavam trazendo luz, em contraposto com a Idade das Trevas, né, que é a Idade Média. Hoje em dia a gente questiona muito isso, porque nós sabemos, obviamente, que a Idade Média não foi um período terrível, tenebroso, horroroso, igual os iluministas falavam. Mas eles chamaram o próprio movimento deles de luz para contrariar o que eles achavam que eram trevas, que era a Idade Média, que é um momento onde a Igreja Católica tinha grande influência na sociedade, na vida das pessoas e tudo mais.
13:14 O próprio Immanuel Kant, né, que foi um dos maiores filósofos aí que já existiu, falava que o Iluminismo era um processo de esclarecimento a partir do qual o ser humano sairia da menoridade graças ao uso da razão e do exercício da liberdade de pensamento. Então, os iluministas se viam dessa forma. Eles viam como se esse pensamento científico, esse pensamento racional, fosse tirar o homem da pequenez, fosse tirar o homem da menoridade pra engrandecer o nosso espírito, para tornar a gente melhor, pra gente sair da escuridão e entrar pra luz, ok? E o Iluminismo vai ser muito importante porque ele influencia não só a Europa, mas o mundo inteiro, né? Então a gente teve vários movimentos no Brasil, por exemplo, influenciados pelo Iluminismo, né? A própria Inconfidência Mineira, que aconteceu no ano da Revolução Francesa, foi influenciada pelo Iluminismo, a independência dos Estados Unidos. Então, a história do Ocidente foi muito marcada pela influência dessas ideias.
14:00 Só que aí, pessoal, vamos parar pra pensar… -Vamos pensar um pouco, né? [Débora] O Iluminismo questiona esse poder absoluto do rei. O Iluminismo fala que a gente tem que ter liberdade política. O Iluminismo fala que tem que separar a religião do Estado. Então é de se esperar que os reis não vão gostar das ideias iluministas, justamente porque as ideias iluministas falam mal do poder absoluto deles. Certo? Mais ou menos. Porque muitos reis viram a ascensão do Iluminismo e pensaram: "Hum, não vou deixar o Iluminismo me destruir, eu vou pegar o Iluminismo e usar as ideias dos iluministas pra melhorar o meu governo." Então, pessoal, nesse contexto, muitos monarcas vão fazer uso do Iluminismo para o seu próprio governo. Até porque, pessoal, uma coisa interessante da gente observar é que o Iluminismo prega a divisão entre a religião e o Estado. E pra muitos reis era muito conveniente isso,
14:47 justamente porque, como a igreja era muito rica e muito poderosa, muitos reis usaram as ideias iluministas pra tirar, né, pra expropriar terras, pra expropriar a riqueza da igreja, pra diminuir a influência da igreja e aumentar a sua própria influência. Então, muitos monarcas, pessoal, ao invés de literalmente levar a sério o que o Iluminismo falava e dar liberdade, participação política pra sua população, muitos monarcas absolutistas simplesmente usaram o Iluminismo pra se fortalecer, pra eles se tornarem mais fortes e mais poderosos, pra diminuir o poder da igreja e aumentar o poder deles, pra usar as ideias iluministas pra melhorar a economia, pra eles tomarem medidas econômicas que fortaleceriam o Estado e tudo mais. -Sim, claro, eu joguei várias fake news e joguei verdadeiras também. [Débora] Esse movimento, gente, de monarcas que usaram o Iluminismo para seu próprio benefício é chamado de despotismo esclarecido.
15:33 Esse nome é muito interessante da gente observar, por quê? É um nome que carrega em si uma contradição. Por quê, pessoal? O que que é um déspota? Se você olhar no dicionário, vai estar escrito: "Quem exerce autoridade arbitrária ou absoluta, tirano." Então, um déspota é uma pessoa tirana, é uma coisa negativa. Então, um déspota, um tirano, não pode ser esclarecido, não pode ser iluminado, porque se ele realmente estivesse seguindo o Iluminismo, ele não seria um déspota. -É verdade. [Débora] Então, o despotismo esclarecido já é um nome que carrega uma grande ironia, mas muitos monarcas europeus foram déspotas esclarecidos. Inclusive, nosso Dom Pedro foi um déspota esclarecido, né? Então, a gente teve vários reis europeus que usaram o Iluminismo pra fortalecer o seu próprio poder, o que é bastante irônico, né. Justamente porque o Iluminismo critica uma monarquia absolutista. Então, gente, olha a situação que a França tá nesse momento, galera:
16:20 é absolutismo, é sociedade estamental, é nobreza parasitária, são as ideias iluministas começando a pipocar. Mas calma, agora o pau vai torar. -Aí começa a pesar o clima. Vamos entender quais que são os contextos que imediatamente vão fazer literalmente isso aqui, esse gramado, pegar fogo. O que fez o pau torar na França no século XVIII? Porque isso aqui era só o contexto histórico, calma que vai piorar. Vamos lá, gente. Para começar, temos a Guerra dos 7 anos. O que acontece, gente? não precisa memorizar as datas nem nada, tá? Mas a guerra dos 7 anos foi uma guerra que a França teve com a Inglaterra. Então, durante 7 anos… ó meu Deus, que coincidência! Por isso que chama guerra dos 7 anos. A França e a Inglaterra lutaram. No final das contas, a França acabou perdendo. Ela perdeu a guerra, ela perdeu colônias que ela tinha lá na América do Norte, ela perdeu dinheiro, né, porque guerras são muito caras. Ela perdeu pessoas porque gente morre nas guerras.
17:05 Então, a França saiu enfraquecida da guerra dos 7 anos, saiu endividada, com problemas econômicos, da guerra dos 7 anos. Como se já não bastasse isso, em 1776, a França, ainda com o rancor da Inglaterra, decide mandar tropas, dinheiro, ajuda para os Estados Unidos, que na época estavam se rebelando contra a Inglaterra e se tornaram um país independente. Então, a França ainda ajudou os Estados Unidos no seu processo de independência e, com isso, gastou ainda mais dinheiro, gastou ainda mais tropas, gastou ainda mais pessoas e ficou ainda mais endividado. -Qualquer coisa, velho, a pessoa não pode fazer nada. Qualquer coisa aqui é um uma coisa. [Débora] Como se já não bastasse, o desemprego na França não estava bom. Então, muitas pessoas estavam passando necessidade. E pra piorar, como se já não tivesse no fundo do poço, na década de 1780, a gente teve alguns fenômenos climáticos que fizeram uma grande seca, uma grande estiagem aqui na França,
17:54 de forma que as plantações, muitas plantações secaram, muitas plantações foram perdidas, as pessoas estavam tendo dificuldade na colheita e por isso a população francesa que já tava passando por desemprego, já tava numa sociedade desigual, agora, gente, o povo francês está passando fome! E isso é muito importante, porque uma população com fome é uma população são indignada. Gente, você não tem o que comer. E mais do que isso, você não tem o que comer, você tá passando fome e você tem que pagar um… um soco na cara de imposto pra ficar sustentando nobreza desempregada que tá morando no Palácio de Versalhes. Ô gente, é ou não é de ficar indignado e querer tacar fogo no gramado? Eu tacaria fogo no gramado do rei também, uai. -Porra! [Débora] E aí, pessoal, nisso vamos falar um pouquinho mais sobre o Palácio de Versalhes, né? Porque, igual eu mencionei pra vocês, a administração pública, a máquina pública,
18:40 ela demandava muito dinheiro pra ela funcionar, e era tudo sustentado pelo povo, né, pelo Terceiro Estado. Gente, agora vou passar imagens aí na tela do Palácio de Versalhes. Pra vocês terem uma noção, pessoal, eu espero que todos vocês um dia tenham a oportunidade de visitar, porque é um dos lugares mais bonitos que eu já estive na minha vida. Mas é um luxo que eu não sei explicar em palavras pra vocês, pessoal. É uma coisa de, assim, literalmente tetos feitos de ouro, sabe? O Palácio de Versalhes, pra colocar em números, pessoal, ele tem mais de 700 quartos, 800 hectares apenas de jardim, mais de duas mil janelas, muitas delas de cristal. E qual que é uma característica importantíssima sobre Versalhes, pessoal? O Palácio de Versalhes, que era onde o rei da França morava, governava e administrava o país, é longe de Paris. Hoje em dia, pessoal, 2025,
19:27 que existe carro, ônibus, metrô, trem, a gente leva mais de uma hora de trem pra chegar em Versalhes, porque Versalhes fica fora de Paris. Então, pessoal, como que é conveniente pro rei, não é verdade? Como que é conveniente pro rei você se esconder num palácio no interior, as pessoas não estão vendo o luxo que você tá vivendo, as pessoas não conseguem chegar lá pra reivindicar, se revoltar e tudo mais. Então, o Palácio de Versalhes, pessoal, era realmente um esconderijo, porque lá o rei vivia completamente isolado numa bolha. Os nobres e o rei viviam numa bolha de luxo, de riqueza, de glamour, enquanto a população estava na pindaíba, numa situação terrível. Inclusive, vale a pena a gente fazer aqui uma crítica social que a gente tem atualmente. Porque, por exemplo, a minha cidade, eu sou de Belo Horizonte, a Cidade Administrativa, né, que é a sede do governo público de Minas Gerais, ela foi feita fora da cidade
20:13 justamente porque, na época em que ela era dentro da cidade, as pessoas faziam protesto, faziam greve na porta da prefeitura. Agora não tem como mais, porque eles ficam literalmente no meio da estrada, num local que é completamente inacessível. Então, pessoal, a existência do Palácio de Versalhes, a localização do Palácio de Versalhes e tudo aquilo é uma grande afronta. Tantas pessoas, literalmente milhares de pessoas, porque mais de 2 mil pessoas moravam no Palácio de Versalhes, toda essa galera vivendo no mais alto luxo, enquanto centenas de milhares estavam pagando por aquilo, passando fome. Vocês já entenderam? Não tem como! Não tem como a galera, a população francesa assistir impassível a essa situação, gente. As ideias iluministas estão se espalhando. Muita gente tá começando a questionar, porque vamos parar pra pensar, galera: na época tinha essa crença de que, "ah, Deus quis dessa forma, Deus escolheu o rei para nos governar".
21:00 Muita gente começa a questionar isso. Muita gente fala: "Gente, mas que Deus é esse? Que Deus é esse que me escolheu pra passar fome no campo e escolheu o Jurandir pra viver no Palácio de Versalhes?" Então, as pessoas começam a questionar isso. E realmente, pessoal, como a França estava com uma crise econômica, o rei da França estava ciente de que aquilo estava acontecendo. O rei na época, pessoal, era o Luís XVI, ok? O Luís XVI já pegou o governo da França, ele já se tornou rei com a França endividada, e a França começou a se endividar cada vez mais com as guerras, com os conflitos, com a administração pública. Então, o que fez o rei acordar pra vida foi a questão financeira. A França estava passando por uma crise financeira. E aí, o que o rei Luís XVI pensou? Ele pensou: "Olha, a galera não tá gostando muito de mim porque eles estão passando fome, porque eles veem que eu vivo no luxo, e realmente a França tá passando por um problema financeiro.
21:46 Pra eu melhorar a minha popularidade e pra eu resolver a crise econômica da França, eu vou me tornar eu mesmo, eu vou ser um déspota esclarecido." Então, nesse contexto, pessoal, o rei Luís XVI decide se abrir um pouco para fazer algumas mudanças na França. O rei queria que a nobreza e o clero começassem a pagar alguns impostos pra ajudar a melhorar a situação financeira da França. Ele mesmo estava aberto a mudanças. "Débora, então ele queria ter uma lei na França, ele queria dar mais poder pro povo?" Óbvio que não. Mas ele queria que a nobreza e o clero começassem a pagar impostos. Então, o que ele fez, pessoal? Ele convocou uma assembleia. Uma assembleia chamada Assembleia dos Notáveis. Olha o nome, pessoal: notáveis. Notável é uma pessoa boa, uma pessoa visível, uma pessoa imponente, uma pessoa pomposa. Por quê, pessoal? Só participaram da Assembleia dos Notáveis aqueles que eram notáveis, né?
22:33 Então, ele marcou uma reunião com o clero e com a nobreza pra falar: "Bom dia, estamos passando por alguns problemas financeiros. O que vocês acham de dar uma ajudadinha com a fortuna de vocês?" e tudo mais. E, pessoal, é óbvio que a nobreza e o clero não queriam abrir mão dos privilégios deles. -Não vou. Eu não… [Débora] A Assembleia dos Notáveis não deu em nada, simplesmente porque a nobreza e o clero não queriam mudar a situação em que eles estavam, de extremo conforto e de extremo privilégio. Então, pessoal, ironicamente, o pontapé pra Revolução Francesa foi a teimosia daqueles que eram privilegiados antes dela acontecer. Porque, pensem comigo, pessoal, quem que era privilegiado antes da Revolução Francesa? O clero, a nobreza, as pessoas ricas e tudo mais. Eles, por teimosia deles de "eu não quero pagar imposto, eu quero que as coisas continuem como estão", assim que começou o povo a se revoltar.
23:19 Então a Revolução Francesa começa justamente pela teimosia de quem era mais beneficiado por ela. E aí, pessoal, o rei convocou a Assembleia dos Notáveis. Os notáveis falaram: "Não quero mudar a situação. Eu tô de boa do jeito que eu tô. Não vou pagar imposto. É isso. Fica do jeito que tá, porque pra mim tá ótimo". E o rei, percebendo que não ia pra lugar nenhum, decidiu convocar mais uma assembleia. Só que dessa vez, pessoal, ele decidiu convocar também o Terceiro Estado. E isso, agora… agora o pau vai torar. -Eita glória! [Débora] O rei convocou os Estados Gerais, pessoal. Tinha mais de 150 anos que esse tipo de reunião não acontecia. Tinha mais de 150 anos que o rei não convocava representantes do povo pra participar. Então, pessoal, o governo chamou os Estados Gerais, que era literalmente uma reunião com representantes de cada um dos estados:
24:05 do Primeiro Estado, do Segundo Estado, do Terceiro Estado. Do clero, da nobreza e do povo. Observação importante: nessa reunião dos Estados Gerais, os representantes do Terceiro Estado não eram os camponeses, tá? Não eram os camponeses, a galera que tava se ferrando aí no interior da França. Eram principalmente os burgueses, ok? Mas os camponeses, pessoal, eles se organizaram na época, fizeram uma lista de reivindicações e deixaram essas reivindicações com os deputados que iam participar da reunião. Então isso é muito interessante da gente observar. Igual eu mencionei, tinha mais de 100 anos que os três estados não se reuniam numa assembleia política. Então, como foi um movimento tão grande, a galera no campo começou a se articular e falou: "Olha, como nós não vamos poder estar na reunião junto com o rei, a gente quer que o rei ouça a nossa voz". Gente, nós estamos falando do século XVIII. Pessoas que não tinham acesso à educação, pessoas que estavam literalmente passando fome
24:52 e se organizaram pra fazer listas de reivindicações, entregar essas reivindicações para os deputados, para que os deputados tentassem representá-los lá na Assembleia dos Estados Gerais. Inclusive, nesse contexto, eu gostaria de ler pra vocês uma frase muito curta, mas que um clérigo, né, um vigário de uma cidade chamada Chartres falou, que ele era um dos representantes do Terceiro Estado. Ele falou: "O que é o terceiro estado? Tudo. O que tem sido ele até agora na ordem política? Nada. E o que ele pede para tornar-se alguma coisa?" Gente, como essa frase diz, o que é o Terceiro Estado? O que é o povo francês? O povo francês é tudo. O povo francês faz tudo. O povo francês sustenta, constrói tudo. Mas o que ele é na política? Nada. -Há que se tirar o chapéu. Mas que profissional, mas que competência, mas que cuidado!
25:37 [Débora] Porque eles não têm participação, porque eles não têm direitos. E o que eles querem? Se tornar alguma coisa. Eles queriam o mínimo. Então agora, pessoal, a gente vai ter a reunião dos Estados Gerais que o rei convocou com representantes do clero, representantes da nobreza e representantes do Terceiro Estado. E aí nessa reunião, pessoal, cada um queria uma coisa, né? A nobreza queria manter as coisas do jeito que tava. A burguesia queria que acabasse com os privilégios da nobreza. O clero queria manter sua influência. O povo queria mudar tudo. Então, cada um tinha uma opinião, tava uma situação meio divergente. Só que, independente do que cada um achava, nessa reunião dos Estados Gerais, pessoal, a população da França não tinha chance nenhuma, porque o voto, pessoal, naquela época não era por pessoa, não era pela quantidade de pessoas de cada estado, o voto era por estado. Então, a nobreza tinha um voto, o clero tinha um voto e o Terceiro Estado tinha um voto. Então, a nobreza e o clero se juntariam e venceriam o Terceiro Estado.
26:25 Mas, de qualquer forma, galera, essa reunião escancarou o tanto que a França estava dividida e escancarou o tanto que o poder do rei estava instável. Então, o rei Luís XVI, por mais que ele sabia que o clero e a nobreza iam se juntar, né, que o Terceiro Estado sozinho não ia conseguir votar em grandes mudanças, independente disso, o rei se sentiu ameaçado pela reunião dos Estados Gerais. Ele viu que as pessoas estavam se organizando, que as pessoas estavam tendo muitas ideias, e ele decide, o rei Luís XVI decidiu dissolver a assembleia. Então ele falou: "Chega, acabou a reunião, não vai ter mais reunião dos Estados Gerais. Acabou, acabou. Ninguém fala mais nada, porque eu tô sentindo que vocês estão me questionando. Não estou gostando disso." -Ó o que eu faço com isso, ó. Eu não gosto mais. [Débora] Então o rei dissolveu a assembleia. Lembrando, pessoal, essa assembleia estava acontecendo lá no Palácio de Versalhes, lá longe. E aí, pessoal, o que que aconteceu nesse momento?
27:12 Como o rei dissolveu a assembleia, ele fechou as portas do palácio e as pessoas não podiam mais entrar, não se podia mais discutir. Os representantes do Terceiro Estado não aceitaram aquela situação. Eles falaram: "O quê? O rei me chamou aqui, eu trouxe as minhas reivindicações legítimas e o rei não vai me ouvir?" Aí que que eles fizeram, pessoal? Os representantes do Terceiro Estado entraram numa quadra que é uma quadra de Jogo da Pela. O Pela, pessoal, "Péla", não sei como se pronuncia, é o bisavô do tênis, tá? Então eles entraram numa quadra esportiva que tinha lá no Palácio de Versalhes e falaram: "Nós não vamos sair daqui até a França ter uma constituição. É um absurdo que o rei francês possa governar sem uma constituição." Pessoal… gente, deixa eu fazer uma pausa rapidinho na aula pra vocês. [sussurrando] Porque sabe onde eu tô?
27:57 Essa é a quadra do Jogo da Pela. Essa é a quadra do Jogo da Pela onde os membros do Terceiro Estado, os representantes do Terceiro Estado, se recusaram a sair e formaram aqui a Assembleia Nacional Constituinte da França. Ó, como vocês podem ver, pessoal, realmente é uma quadra, né? Mantiveram, mas aqui na lateral eles fizeram alguns bustos de alguns dos principais membros do juramento. E aqui em cima a gente tem uma pintura retratando esse momento tão importante da história. Que privilégio estar aqui. Inclusive, aqui tem até uma raquete. Vou mostrar pra vocês. Tem uma raquete mostrando um pouquinho como que era o jogo da pela, que é o bisavô do tênis. É um jogo de raquete e bolinha. Então: "Nós só vamos sair do Palácio de Versalhes no momento em que a França tiver uma constituição." Eles fizeram um juramento nessa quadra, o Juramento da Sala do Jogo da Pela,
28:44 e prometeram que só sairiam de lá quando a França tivesse uma constituição. E a partir daí, passaram a se chamar de Assembleia Constituinte. Eles falaram: "Agora nós que estamos aqui, nós que fizemos o juramento, nós somos a Assembleia Constituinte." E aí também passaram a se chamar de Assembleia Nacional, ok? A partir daquele momento, o rei ainda tá lá, o rei ainda tá trabalhando, mas eles decidiram: a França vai ter uma constituição. Isso, ó… -Tá babado. [Débora] E aí, pessoal, eles se juntaram, fizeram esse juramento, né? Decidiram: a França vai ter uma constituição. E aí se tornaram uma Assembleia Nacional, que depois se tornou uma Assembleia Constituinte. Então, a partir desse momento, galera, eles já estavam começando a estruturar o que seria uma constituição pra França. Lembrando: o rei ainda existe, o rei ainda está lá. Nessa fase, pessoal, a Revolução Francesa já está começando, mas no início o que eles pensavam era:
29:31 apenas colocar limites para o poder do rei. Daqui a pouco que eles vão começar a pensar em tirar o rei e tudo mais, mas nesse momento eles estão pensando apenas em criar uma constituição, criar uma lei para a França, ok? E aí você me pergunta: "Débora, se os representantes do Terceiro Estado são, na sua maioria, os burgueses, né, que foram lá fazer a assembleia e tudo mais… cadê o povo? Cadê a galera? Cadê o pessoal que tá realmente passando por uma situação difícil? Os camponeses, sei lá o quê?" Pois bem, pessoal, agora vai entrar uma categoria muito importante de pessoas que vai fazer parte da revolução, que são os sans culottes, pessoal. Quem que são os sans culottes, pessoal? São as pessoas que eram entusiasmadas com a revolução, principalmente nas grandes cidades, principalmente aqui em Paris, pessoal. As pessoas mais simples, mais pobres, mais humildes, que estavam animadas com a ideia da revolução, que queriam transformar a sociedade francesa, que queriam mudar o país, eles eram chamados de sans culottes.
30:17 E por que sans culottes? O que que isso significa? Sans culotte significa "sem culote", sem calça. Porque na época, pessoal, a nobreza usava um tipo de roupa chamada culote que é tipo uma bermuda, enquanto os trabalhadores, as pessoas mais simples, usavam calças de tecido batido, muito parecido com a calça que a gente usa hoje, que é muito mais prática pra você trabalhar, né, e tudo mais. Então eles falavam de si dessa forma: "Nós somos as pessoas sem culote. A gente não se veste pra impressionar, a gente não se veste pra ostentar, a gente não tem bermudinha chique, não. A gente usa calça jeans pra trabalhar". Não tinha jeans na época, mas vocês entenderam o que eu quero dizer. E outro look muito tradicional dos sans culottes também, pessoal, é um gorrinho vermelho, tá? Se vocês virem um gorrinho vermelho, uma boininha vermelha, que inclusive foi o símbolo das Olimpíadas que teve aqui em Paris recentemente, era o gorrinho que simbolizava a república que os sans culottes usavam. Então, muitos deles usavam esse barrete, essa…
31:04 Essa boininha, essa touquinha, como uma forma de mostrar que eles eram a favor da república. E aí, pessoal, nisso tudo vocês estão vendo que o clima tá ficando tenso, né? Porque, literalmente, o rei dissolveu a assembleia. A galera falou: "Não saio do Palácio de Versalhes, vamos fazer constituição pra França sim, quer o rei queira ou não". E aí, nisso, pessoal, notícias começaram a se espalhar pela França, pelo interior da França, falando: "Olha, o rei não está gostando disso. O rei vai contra-atacar. O rei não vai deixar essas pessoas fazerem mudanças. O rei não vai deixar a Assembleia Constituinte, pi pi pi, po pó pó"… As pessoas começaram a ter medo e decidiram: "Precisamos nos armar. Precisamos nos proteger caso o rei queira contra-atacar o povo francês, caso o rei queira atacar o povo, caso o rei queira suprimir essas ideias revolucionárias, essas ideias modernizadoras. Nós precisamos nos armar". E é nesse contexto, pessoal, que a gente vai ter a famosa Queda da Bastilha,
31:50 que é o marco inicial da Revolução Francesa. -Ah, finalmente os refrescos! Porque, galera, a Bastilha era uma antiga prisão, ok? Ela era uma prisão que foi muito usada no auge do Antigo Regime. Era uma prisão política. Então, ela era um símbolo muito grande de opressão, porque muita gente era presa lá, muita gente era torturada, aquela coisa toda. Então, a Bastilha era uma grande prisão que ficava no meio da cidade. Só que, no momento da Revolução Francesa, ela não era mais uma prisão. Ela não funcionava mais como prisão. Ela tinha algumas pessoas lá, sim, mas ela funcionava principalmente como um depósito de armas, né? Então as pessoas decidiram invadir a Bastilha justamente pra pegar pólvora, pra pegar arma, pra pegar canhão que estavam guardados lá dentro. Só que como a Bastilha era esse grande símbolo do antigo regime, como a Bastilha já tinha sido um local de grande opressão e tudo mais,
32:36 as pessoas acabaram destruindo a Bastilha. -Vamos ver tudo que há para viver. Vamos nos permitir. [Débora] Eles entraram lá pra saquear, mas acabaram destruindo a Bastilha, tanto que hoje ela não existe mais. Daqui a pouquinho, no final do vídeo, eu vou mostrar pra vocês como que está a Bastilha hoje, porque eu fui lá pra filmar pra vocês. Então, calma, daqui a pouco, porque eu quero explicar algumas coisinhas antes. Então, as pessoas foram invadir a Bastilha pra pegar armas, pra pegar munição e acabaram destruindo a Bastilha e elas destruíram junto com a Bastilha um grande símbolo do antigo regime. Por isso que a queda da Bastilha é o marco do início da Revolução Francesa. -Olha aqui, ó. Olha a energia! [Débora] Porque o povo foi protagonista, o povo destruiu um símbolo do antigo regime e porque agora realmente as pessoas estão armadas, articuladas e eles decidiram: "A França não vai continuar do jeito que era antes, a França vai mudar". No final do vídeo, pessoal, eu vou passar uma linha do tempo pra vocês,
33:24 pra vocês se organizarem, porque agora vai começar a Revolução Francesa, e a Revolução Francesa tem muitas datas. Muitas coisas estavam acontecendo ao mesmo tempo, mas a única data que eu quero que vocês memorizem é o ano. Não precisa memorizar o dia, memoriza o ano que começou a revolução, que é 1789. "Débora, como que eu vou decorar esse ano? Difícil decorar." Não é difícil. Por quê? Vamos contar até 10. 1, 2, 3, 4, 5 6… 7, 8, 9. Já tá na ordem, gente. 789. Então, a gente vai decorar aqui: 789, o ano da Revolução Francesa, 1789. Não precisa memorizar, mas a revolução acabou 10 anos depois, tá? Em 1799. Mas a única data que eu faço questão que vocês saibam é 789, tá? Já tá na ordem, gente. 1789, queda da Bastilha, início da Revolução Francesa.
34:10 E, caso te interesse, o dia da queda da Bastilha foi no dia 14 de julho. Inclusive, pessoal, todo dia 14 de julho aqui na França, né, aqui nesse local onde eu estou, aqui no Campo de Marte, a Torre Eiffel se ilumina e tals, porque é a festa nacional na qual eles celebram a Revolução Francesa. Então, todos os anos eles soltam fogos de artifício, fazem uma grande celebração aqui para comemorar a Revolução Francesa, que começou no dia 14 de julho de 1789. 789. -Que perfeição, que lindo. [Débora] Agora sim, vamos começar a Revolução Francesa, gente. E também foi a partir de 789, o ano da Revolução Francesa, que começa a Idade Moderna. Perfeita? Então, bora lá, galera. A partir da queda da Bastilha, a revolução vai começar a se espalhar pela França. As notícias vão começar a chegar no interior, as pessoas vão começar a ouvir falar que algo tá acontecendo. -Se prepara, viu? -Se preparar pra quê?
34:56 -Vem aí uma coisa muito forte. [Débora] E os deputados da assembleia, né, aquela assembleia do Jogo da Pela, que estavam fazendo a Constituição, eles formam um governo chamado Comuna de Paris, né? E aí eles começam a governar a cidade de Paris e também eles tinham uma guarda obedecendo a eles, que é a Guarda Nacional. Então agora, pessoal, os revolucionários estão, de certa forma, governando, e eles têm um exército que é subordinado a eles. O rei ainda existe, mas o rei tá ficando cada vez mais fraco. Imagina… imagina o medo que o rei não deve estar, né? -Meu Deus, meu Deus. Tenha misericórdia, meu pai. [Débora] E nisso tudo, pessoal, igual eu mencionei pra vocês, a revolução começou a se espalhar, as ideias revolucionárias começaram a se espalhar, o pessoal no interior da França, começaram a chegar as notícias de que algo estava acontecendo e tudo mais. E nisso, pessoal, junto com a queda da Bastilha, a gente vai ter também o período chamado de Grande Medo.
35:43 Não confundam com o Terror, tá? Terror é daqui a pouco. O Grande Medo, pessoal, aconteceu entre julho e agosto de 1789, que foi justamente quando o pessoal no interior da França, no campo, as pessoas estavam fazendo a sua própria revolução. Por quê? Iam chegando notícias de Paris, as pessoas iam fazendo tumulto, as pessoas tinham medo de que o rei ia contra-atacá-las, e as pessoas estavam indignadas. Então os camponeses queriam ter a propriedade das terras que eles cultivavam, as terras que eles moravam. Eles queriam o fim dos impostos feudais que eles pagavam. Gente, feudalismo, coisa de Idade Média. 1789 e os caras pagando imposto feudal. [alarme tocando] -Ouviu? O alarme pra ver se você acorda. [Débora] Então, nesse contexto, os camponeses em várias regiões da França começaram a causar tumulto, começaram a atacar moradias nobres,
36:29 começaram a saquear, começaram a matar gente e tudo mais. Então, nesse contexto, pessoal, a população rural já estava revoltada e ainda estavam chegando notícias pra eles falando: "Olha, o pessoal em Paris tá quebrando o pau, eu acho que o rei vai contra-atacar, acho que o rei vai fazer alguma batalha, acho que vai ter uma guerra civil na França. Eu acho que o rei vai querer vingança contra todo mundo que tá causando caos lá em Paris". De que forças, pessoas leais ao rei, né? Forças armadas leais ao rei iam atacá-los, que eles iam contra-atacar, que bandidos podiam atacá-los, sei lá o quê… Se gerou um grande clima de caos que fez com que muitos camponeses começassem a atacar propriedades nobres, a atacar nobres, a matar gente. E aí, por isso que esse período é chamado de Grande Medo, porque muitos nobres tiveram um medo, com razão, né, gente? E acabaram fugindo da França. E fugindo da França pra onde?
37:15 Pra países absolutistas, pra países que ainda tinham absolutismo. Então, muitos nobres fugiram da França nesse momento por causa do Grande Medo. -Fui. [Débora] E em resposta ao Grande Medo, pessoal, a Assembleia Constituinte fez várias medidas que ajudaram essas populações camponesas, tá? Então, eles começaram a abolir esses impostos feudais, né? Começaram a tirar esses resquícios de feudalismo que ainda tinham na França. Eles confiscaram vários bens e várias terras da Igreja, da Igreja Católica, né, pra dar para os camponeses. E pouco tempo depois, em agosto de 1789, a gente vai ter a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Não precisa decorar a data, mas precisa lembrar desse nome, ok? Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que é um documento, pessoal, que oficializa o caráter da Revolução, né? Que mostra quais eram os objetivos, o que eles acreditavam e tudo mais.
38:03 É um documento, galera, que é contra a sociedade do Antigo Regime, inspirado nos ideais liberais e inspirado, obviamente, no Iluminismo. Então, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, gente, ele reconhece que as pessoas têm direito, todas, todas as pessoas têm direito à liberdade, à propriedade, à igualdade jurídica, e eles também têm direito a resistir à opressão. Além disso, pessoal, o mais importante, que aí vocês têm que lembrar: a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão acabou… Acabou essa patacoada de privilégios da nobreza! Acabou nobreza, não existe mais barão, conde, visconde… acabou, não tem mais isso. Não tem. -Então ó… [Débora] Literalmente, pessoal, o começo da Declaração dos Direitos do Homem é: "Todos os homens nascem e permanecem livres e com direitos iguais."
38:48 E eu gostaria de focar em uma palavra específica, que é "homens". Porque, pessoal, literalmente, a galera aí tá inspirada no Iluminismo, falando de liberdade, falando de igualdade… E as mulheres? -Desumano. [Débora] Então, nesse momento da Revolução Francesa, galera, a revolução ainda não está tão radical. Claro, já quebramos a Bastilha? Já quebramos a Bastilha. Mas a gente ainda vai ficar mais radical. Nesse momento, os burgueses que estão encabeçando a Revolução Francesa, e esses burgueses, muitas vezes, eles tinham negócios nas colônias francesas, muitos deles tinham pessoas escravizadas trabalhando pra eles. O Iluminismo, ele foca muito na liberdade das pessoas. O Iluminismo é antiescravagista, mas, por interesse da burguesia francesa, nesse momento, as pessoas escravizadas nas colônias francesas… Gente lembrando: a França foi um dos países mais imperialistas do mundo, né?
39:34 Até hoje a gente vê impactos disso. A França tinha muitas colônias nas Américas, na África, com escravidão. Essa escravidão não foi abolida, por quê? Os burgueses lucravam muito com isso, tá? E as mulheres, que foram grande parte do motor da Revolução Francesa, a gente vai entender isso, elas também foram excluídas. As mulheres não têm direito. Gente, o documento se chama literalmente Declaração dos Direitos do Homem. -E a pessoa tem que ter um mínimo de senso. Isso é ridículo. [Débora] As mulheres foram completamente ignoradas, e os escravizados também. Então, pessoal, por isso que a gente vai questionar essa declaração, porque ela literalmente começa com a frase: "Todos os homens nascem e permanecem livres e com direitos iguais". Mas a gente tem pessoas que não são livres, né? Pessoas que são literalmente escravizadas, e apenas os homens nascem com direitos iguais, aparentemente, né? Porque as mulheres estão completamente ignoradas nesse momento.
40:21 ♪ Pequeno e frágil ♪ E aí, pessoal, gostaria de lembrar pra vocês que o rei da França ainda existe, tá? O pau tá torando, o pau tá quebrando, mas o rei ainda existe. O que acontece, pessoal? O rei estava lá em Versalhes e estava ficando cada vez mais enfraquecido. Nesse contexto, a gente vai ter o que eu acho que é o momento mais interessante de participação feminina da revolução. Não se enganem, pessoal, as mulheres estiveram presentes em todas as etapas da Revolução Francesa. As mulheres eram parte importante, fundamental, indiscutível do motor que fazia a França funcionar. Mas, nesse momento, elas, ó… mataram a cobra e mostraram o pau. Porque, pessoal, a gente vai ter, em 1789, a Marcha das Mulheres sobre Versalhes. Porque, gente, o rei, lembrando… O rei estava lá em Versalhes, que é bem longe de Paris. E as pessoas queriam que o rei estivesse perto
41:08 justamente pro rei dar satisfação pra população, pra ele não ficar isolado naquela bolha de luxo e glamour enquanto as pessoas estavam passando por necessidade. E lembrando, gente, na época não existia só o Palácio de Versalhes, não. Existia… hoje não existe mais. Mas existia aqui em Paris um palácio gigantesco, maravilhoso, que era o Palácio das Tulherias. O rei escolhia estar em Versalhes porque Versalhes é mais longe da cidade, mais isolado e mais chique. Então, nisso, pessoal, as mulheres ficaram indignadas com a ausência do rei. E, literalmente, as mulheres se uniram. Tinham homens também, mas era uma marcha de mulheres. As mulheres se uniram e foram andando, foram andando até Versalhes pra reivindicar os seus direitos. -Vamos galera mulheres! [burburinho] -Girl power, p*rra! [Débora] Chegando lá, pessoal, eram tantas mulheres, a pressão foi tanta que elas conseguiram,
41:53 as organizadoras da marcha conseguiram ter uma reunião pessoalmente com o rei. Lá elas falaram, né, as reivindicações e tudo mais, e o rei estava pronto pra ignorar. -Depois que tu cozinhar aí, tu limpa os vidros e o fogão, tá? -Não vou limpar, desculpa. [Débora] Só que elas falaram: "O quê? Hã-hã!" "Você volta com a gente, você não vai ficar aqui, você vai voltar conosco e vai passar a morar em Paris, vai ficar perto do seu povo." O rei, pessoal, protestou, não queria sair do Palácio de Versalhes. As mulheres, e agora tinham homens também, né? Mas as pessoas que organizaram a Marcha das Mulheres rodearam, cercaram o Palácio de Versalhes. E aí chegou o momento que eles conseguiram invadir o palácio, pegaram o rei e falaram: "Você vai pra Paris, sim!" E aí, nisso, pessoal, transferiram o rei oficialmente, conseguiram tirar o rei de Versalhes e transferiram ele pra Paris. Esse movimento, pessoal, foi muito, muito importante.
42:40 Não só porque agora o rei tá mais próximo do povo, mas porque isso mostra o tanto que o poder do rei estava minguando, né? E agora, pessoal, o que a gente vê? As mulheres tiveram um papel fundamental. Gente, o símbolo da Revolução Francesa é uma mulher. A "Liberdade guiando o povo" é o quê? É uma mulher. Porra! E o direito das mulheres foi completamente negado. Então, as mulheres foram parte fundamental. Sem elas, não teria havido Revolução Francesa. Mas os direitos são pra quem? São só pros homens. Protesto. Nesse meio tempo também, pessoal, a gente vai ter a Constituição Civil do Clero, né, em 1790, que era basicamente um documento aí que separava a Igreja e o Estado, confiscava terras da Igreja. E agora a gente vai ter outro documento que esse você precisa saber… Que é a Constituição. Finalmente. Vocês lembram que a Assembleia Constituinte tá desde 1789 falando que a França precisa de lei, que a França precisa de lei? Pois bem, agora veio aí:
43:26 em 1791 veio a Constituição da França. E essa Constituição, gente, desmontou o Antigo Regime e implementou medidas liberais burguesas, ok? Vamos lá, gente. Primeiramente, o que essa Constituição definia? Que a França, a partir de agora, é uma monarquia constitucional. Ou seja, o rei ainda tá lá. O rei ainda é rei, mas agora ele não é o rei da França, ele é o rei dos franceses. Ele não é mais absolutista, ele não é mais "o Estado sou eu", não. Agora ele ainda tá encabeçando o governo, mas agora ele governa sobre cidadãos, e não sobre súditos. Os franceses, eles são cidadãos franceses, não são mais súditos do rei. Então agora o rei tem que respeitar a Constituição, ele tem que obedecer à Constituição. Os poderes agora vão ser divididos. Isso é um ideal iluminista, tá? No Brasil tem isso, inclusive, né? O poder ser dividido em Legislativo, Executivo e Judiciário.
44:14 Então, a partir de agora, vai ter divisão de poderes lá na França. Pra garantir as vontades dos burgueses, essa Constituição também garantia a propriedade privada. Ela proibia a venda de cargos públicos, que era uma coisa que acontecia antes, suspendeu os privilégios fiscais da nobreza e estabeleceu o voto. "Débora, voto universal? Todo mundo pode votar agora? Todo mundo vota na França, todo mundo participa da política?" Não. O voto é censitário. Ou seja, o voto agora é pela renda, tá, pessoal? Só pessoas que têm… obviamente, homens que têm uma renda acima de um nível tal podem votar. Então agora, pessoal, vocês estão vendo, né? São os burgueses que estão no comando. Porque eles… lembra que eu falei no comecinho do vídeo, pessoal? Que a burguesia muitas vezes tinha mais dinheiro do que a nobreza, mas não tinha participação política? Agora, os burgueses têm participação política, sim!
45:01 Mas apenas eles. Porque só vota quem é rico, só vota quem tem dinheiro. Então, de que adianta? A maior parte da população é pobre. E assim, gente, eu não sei vocês, mas se eu fosse o Luís XVI, ó… minha bundinha tá tão travada que não passa nem sinal de 3G. E realmente, o Luís XVI estava apavorado, pessoal. Nisso tudo, o rei, como mencionei pra vocês, o rei saiu do Palácio de Versalhes e estava em outro palácio que hoje não existe mais, mas que era aqui em Paris. Então ele tava vendo de camarote a treta acontecer. Agora ele tem que obedecer à Constituição. Agora ele tem um tanto de regra que precisa seguir. Não é mais rei absolutista. O rei não estava nada feliz com essa situação. -Ela não tem esse direito. -Fica de boa, relaxa. Deixa ela. -Nossa, bicho… [Débora] E aí, nisso, pessoal, o rei começou, em segredo, tá? Secretamente, ele começou a conspirar com outros países que ainda eram absolutistas,
45:50 pra tentar recuperar o poder dele, pra tentar fazer as coisas voltarem a ser como eram antes. E aí, nisso, o rei arma um plano porque ele queria tentar fugir da França, pra sair, se reencontrar com outros monarcas, se organizar, pra ele voltar pra França e reestruturar as coisas, voltar as coisas a serem como eram antes. Ele não estava gostando da situação. E aí, nisso, ele arma um plano para fugir para a Áustria. Por que a Áustria, gente? Porque, primeiro, a Áustria ainda era um país absolutista e, segundo, a Áustria era comandada pelo cunhado dele. Simplesmente porque o rei Luís XVI era casado com uma mulher que você muito provavelmente já ouviu falar, chamada Maria Antonieta. A Maria Antonieta não é francesa, ela era austríaca, ok? Então, o Luís XVI, a Maria Antonieta e os filhos deles, literalmente, têm que se vestir de criados pra tentar fugir da França,
46:36 pra sair dessa situação, porque eles estavam quase que como prisioneiros no próprio castelo deles, né? No Palácio das Tulherias. E o plano quase deu certo, mas, obviamente, né, ele foi reconhecido, acabou sendo capturado e escoltado de volta pra Paris. Aí agora que o caldo vai entornar, pessoal. Porque assim, gente, o rei fugir do próprio país já é… hum. E aí, à medida que o pessoal foi investigando as circunstâncias nas quais o rei estava fugindo do próprio país, eles foram descobrindo isso. Foram descobrindo que o rei estava conspirando com outros países contra a França. E, gente, imagina, já é um papelão você fugir do seu próprio país sendo literalmente o rei, né, o governante. Agora, você literalmente falar pra outro país, você tentar conspirar junto com outro país pra outro país invadir o seu país, matar sua própria população pra você voltar a ser absolutista todo poderoso…
47:22 Fica muito feio, né, gente? Fica uma situação muito complicada, né? -Coragem, né? Tem gente que tem coragem. [Débora] E assim, gente, enquanto isso tudo acontecia, enquanto o rei fugia, era capturado, sei lá o quê, a Assembleia Nacional não para de trabalhar. Gente, esses homens da Assembleia Nacional, de verdade mesmo.. . Se teve gente que trabalhou na vida, na história da humanidade, quem mais trabalhou na história da humanidade, pra mim, foi a Assembleia Nacional. Era o pau quebrando, era Bastilha caindo, era o negócio pegando fogo… Os deputados estavam lá fazendo lei, não parava de fazer lei, tá? Enquanto isso, a Assembleia Nacional ainda estava em pleno funcionamento, tava lá bonitinho, normalzinho. Mas calma, gente, vamos deixar a situação do rei no pause. O rei foi capturado. Depois a gente volta a falar do rei, porque agora eu preciso contar pra vocês sobre duas pessoas. Duas pessoas não, assim, dois grupos de pessoas muito importantes que vocês com certeza já ouviram falar
48:08 e que vocês vão precisar decorar, que são os jacobinos e os girondinos. O que acontece, pessoal? Se no início da Revolução Francesa a divisão política, mais ou menos, que tinha era entre quem era a favor da revolução e quem era contra a revolução, nesse momento a gente vai ter divisão entre os próprios revolucionários. As pessoas que já estão lá na Assembleia e tudo mais, elas têm opiniões diferentes, elas têm opiniões divergentes. E é aí, nesse contexto, que a gente vai ter essa divisão em grupos. Então, quem que eram os girondinos? Os girondinos, pessoal… esse nome vem de uma região da França que chama Gironda. E eles eram a nobreza liberal. Então, os nobres que eram a favor de reforma eram girondinos, e também a alta burguesia. Então, os burgueses mais ricos, mais importantes, eles eram em geral, girondinos. E os girondinos, pessoal, eram mais moderados, ok? Eles queriam reformas, mas principalmente reformas econômicas. Eles não queriam grandes mudanças sociais, ok?
48:55 Eles queriam melhorar a economia, mas não se importavam tanto assim com as desigualdades sociais e tudo mais. Eles não queriam uma mudança tão grande na sociedade francesa. Eles queriam mudanças mais moderadas, ok? Eles eram mais tranquilinhos, queriam limitar as conquistas populares. Enquanto isso, os jacobinos eram mais radicais. Os jacobinos, pessoal, têm esse nome porque tinha um clube aqui em Paris chamado Clube dos Jacobinos, que foi feito numa igreja que, infelizmente, eu queria visitar, mas não existe mais, né. Numa capela, que era a capela dos jacobinos, em Paris, tá? E os jacobinos queriam mudanças mais radicais. Eles queriam aumento das conquistas populares, eles queriam aumento dos direitos da população. E os jacobinos queriam a proclamação da república! Ó, a primeira vez que eu vou falar essa palavra aqui pra vocês, hein? República! Os jacobinos falavam: "Gente, vamos parar com essa coisa de monarquia.
49:43 Chega de monarquia. Vamos colocar república na França. Vamos todo mundo participar do governo." Enquanto os girondinos pensavam: "Não, tá de boa, uma monarquia constitucional, o rei tendo limite, a gente pode continuar tendo rei". Enquanto os jacobinos pensavam: "Chega de rei, vamos instaurar a república". E foram os jacobinos e os girondinos que deram origem a um conceito que até hoje a gente tem, que é o conceito de direita e esquerda. Justamente porque, pessoal, na assembleia, os girondinos, que eram mais moderados, mais conservadores, se sentavam do lado direito da assembleia, e os jacobinos, que eram mais radicais, se sentavam do lado esquerdo. "Débora, como que eu vou decorar quem é de direita, quem é de esquerda?" Vou te dar um macete facinho que você vai decorar na hora, gente. Olha pras letras G e J: a letra G está virada para o lado direito, está aberta para o lado direito, enquanto a letra J está virada, está aberta para o lado esquerdo.
50:28 Jacobinos são de esquerda, girondinos são de direita. Ficou fácil de decorar agora, né? Deixa like no vídeo. E agora, pessoal, a gente vai começar uma fase da Revolução Francesa que é chamada de Convenção. Nesse momento, os girondinos, que são aqueles mais moderados, que estão no poder, ok? Nisso tudo, o rei foi preso, né, o rei estava preso, estava sob julgamento, daqui a pouco a gente vai falar do rei. E aí, pessoal, os girondinos proclamaram, né? Foi declarada por unanimidade, porque houve voto e tudo mais. Por unanimidade, a França acaba se tornando uma república. Então, agora chega de monarquia, não tem mais rei da França. Agora o governo da França é republicano, ok? Isso no dia 21 de setembro de 1792. Então a Revolução começou em 89. Três anos depois, em 92, a gente já teve constituição, já teve proclamação da república, o rei já está preso. E assim, pessoal, vamos parar pra pensar.
51:14 O pau está quebrando na França, mas o mundo tá assistindo isso tudo. E vários países ao redor da França, vários países europeus, eram absolutistas. E os reis desses países estavam morrendo de medo das suas populações se inspirarem no que os franceses estavam fazendo
…