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0:27 [música] Ah. [música]
1:29 Meu nome é Júlia Satiro. Eu tenho 28 anos, sou advogada, gerente, professora e escritora. Eu percebi um padrão dentro dos meus relacionamentos depois de alguns anos, né? Isso começou quando eu tava ficando com um cara, morava até em outro estado e a gente conversava muito pelo celular. Foi a primeira situação que eu fui vítima do que a gente chama de ghosting, que é aquele fenômeno no qual a pessoa simplesmente para de te responder e não te dá nenhum motivo. E eu fiquei de agosto de 2016 até janeiro de 2017, mutada, né? Ele não me respondia mais. No ano seguinte, ele veio me pedir desculpas vazias e eu fiquei questionando o que que aconteceu? Por que que você parou de falar comigo?
2:14 Do nada, eu quero saber o que que eu fiz. E nessa oportunidade foi a primeira vez na qual o meu sucesso profissional virou uma questão dentro de relacionamentos. Ele me respondeu que ele não gostava quando eu compartilhava com ele os resultados bons que eu tinha na faculdade. Depois, no meu segundo relacionamento, agora um relacionamento mais concreto, eu comecei a perceber uns sinais de competição. Quando ele efetivamente me assumiu, ele basicamente queria ser o meu dono. Teve situações nas quais eu acordei de madrugada, não senti ele na cama, procurava o meu celular, não encontrava. E aí quando eu levantava, eu via que ele trancou dentro do banheiro e tava revirando o meu celular enquanto eu dormia. Ele não gostava que eu tivesse amigos homens.
3:01 Ele também se incomodava com amigos gays. Ele falava: "Será que fulano é gay mesmo?" E isso me horrorizava. E aí começava outra briga, porque na cabeça dele todo mundo me queria. Isso desafiava até a sexualidade alheia. também tinha as questões de competição. Nós dois estávamos vinculados à mesma instituição. Eu tinha resultados melhores do que ele e quando ele via que esses resultados melhores aconteciam, ao invés de me parabenizar, ele arrumava motivos para eu ter tirado uma nota maior do que a dele. Eu já escutei da boca dele que eu conseguia determinada nota porque alguém gostava mais de mim. a pessoa que estava avaliando gostava
3:46 mais de mim ou tinha interesse sexual em mim e aí virou a chave. Eu efetivamente fiquei muito tempo nesse relacionamento porque a gente se via todos os dias, mas ele usava isso contra mim. Ah, você não pode terminar comigo porque a gente tá todo dia nesse mesmo horário, no mesmo lugar. E o mais assustador assim, eu acho que eu nunca ouvi um eu te amo, apesar de tudo, durante vários anos que a gente ficou junto, eh, ele não conseguia expressar isso para mim dessa forma. O que eu ouvia, na verdade era: "Você nunca vai achar ninguém melhor do que eu". Acho que todo mundo já passou por esse evento, né, de ouvir essa frase. Eu já ouvi também, se você não melhorar, você vai morrer sozinho. E E o que que é melhorar, né? É fazer o que a pessoa quer, né? Uma coisa que me pegou muito no final também foi que, óbvio,
4:33 gente, é relacionamento abusivo, né? Não é só ruim. Você fica um tempo ali com aquela pessoa assim, considerada até grande, absorvendo algumas coisas ruins e etc, porque tem coisas boas. Antes da gente efetivamente se relacionar num namoro, nós éramos muito amigos. Eu nunca imaginei que isso estaria dentro daquela pessoa. E foi muito difícil esse processo de luto da expectativa mesmo que eu criei, porque eu acho que é mais difícil quando você começa a se relacionar com um amigo porque você espera muito dele, né? Eu percebi uma insegurança muito grande numa pessoa que pra minha cabeça não tinha como explicar, mas meu avô, apesar de ser homem, sempre falou com a minha mãe e as minhas tias: "Não dependa de homem". No
5:19 meu caso, eu já estou no não dependa de ninguém. Eu não vou abrir mão do que eu sou e do que eu quero ser por causa de um relacionamento. Eu não tenho medo de ficar sozinha, mas é claro que eu fico chateada quando coisas assim acontecem. É difícil, né? Porque ser mulher já é [risadas] um problema social. E aí ser uma mulher [ __ ] se torna algo pior no sentido de as suas qualidades serem usadas contra você.
6:09 começou com a violência psicológica. Ele tinha uma mania de procurar brigas comigo e eu ficava muito por entender dessas brigas. Vamos colocar um caso específico. Rodeio de 2022, primeiro rodeio pós-pandemia e eu comprei uma bota branca e deu determinado ponto do show meu pé doeu e eu tirei a bota. E isso foi motivo de uma briga astronômica. As minhas amigas falam assim: "Olha, amiga, você não fez nada, você só o seu pé doeu se tirou a bota". E assim, metade das mulheres do parque de exposição aquela hora, 3 da manhã já tinham tirado a bota. eram esses tipos de situações que ele criava, que eram coisas muito pequenas. E aí ele arrumava briga comigo e a culpada sempre era eu. É um poder de manipulação muito grande. Ela fala assim: "Olha, tá vendo? Se não for eu, ninguém vai te querer. Você dá tanto surto, você é tão difícil de lhe
6:56 dar que só eu dou conta do você." E você passa a acreditar naquilo. Mes foram quatro términos até o quinto, que foi o último. Nós voltamos, compramos uma viagem, tava tudo pago. Quando foi em janeiro, próximo dessa viagem, um belo domingo, ele tava dormindo ainda, eu acordei mais cedo e aí o telefone dele vibrou. Era uma foto de uma mulher com o nome do melhor amigo dele. Eu achei isso muito estranho. E eu desbloqueei o telefone dele e vi ele conversando com essa mulher, mas era com o nome do amigo. E ele acordou e perguntei: "Quem que é fulano?" E aí ele deu um show, gritou, berrou comigo, falei: "Tá tudo bem, eu acho melhor mesmo a gente finalizar". E ele jogou para cima de mim, chamou de louca de tudo quant não tem jeito de eu planejar nada com você, tá vendo o que que você causou? E eu peguei minhas coisas, fui embora. Aí passou três dias, ele começou de novo. Como a gente estava com a viagem paga, fiquei muito naquela volta, não volta,
7:43 aí uma amiga minha pegou e falou assim: "Nossa, não vai. Eu tô com uma sensação tão estranha dele sacanear nessa viagem, fazer alguma coisa com você". Só que tinha uma questão que era a questão do valor dessa viagem e eu não podia destemperar o humor dele que eu precisava ele me pagar primeiro para depois eu bater o pé e falar assim com ele: "Não, acabou o mesmo". E assim eu fiz. E assim que ele fez o Pix para mim. Quando ele viu que não ia ter volta, aí ele começou a me perseguir. A agressão foi dois meses depois do término. Um mês antes eu tinha bloqueado ele em todas as minhas redes sociais. Aí eu tive que fazer uma escolha. Ou eu ia pro contato zero, ou eu ia ficar alimentando aquela loucura. E aí eu decidi bloquear. E aí eu bloquei de tudo. Quando foi na madrugada do dia 24 de março, ele me ligou e ele me pegou num momento de baixo. Era meiaoite e pouco, ele me ligou umas três vezes. Tinha bloqueado
8:30 de tudo, menos de chamada. Na terceira vez eu atendi, tava bêbado num bar, me ajuda, por favor. Eu perguntei você quer que eu mando um mube? Não, eu quero sua mão estendida para mim. Eu fui, mas fui no intuito de olhar, falar: "Será que é isso mesmo que eu quero pra minha vida?" Busquei ele bêbado, já pagou a conta, pus ele dentro do meu carro, cheguei na porta da G, quando eu olhei, não, não é isso que eu quero pra minha vida. Ele não descia do meu carro, abri a porta da casa dele, coloquei ele lá dentro. Na hora que ele dormiu, eu peguei o telefone. Quando eu peguei o telefone, que eu fui lendo as mensagens dele com a namorada, eu peguei e mandei uma mensagem para ela do telefone dele. Eu não acho legal o que ele tá fazendo com você enquanto ele tá com você. Ele tá correndo atrás de mim, ele não tá me dando passa, tá me dando sei, eu acho que você merece saber o que de fato está acontecendo. E pede ele para não me procurar mais. E aí foi meu erro, porque aí nesse momento ela começou a ligar e ele desesperou. Falei: "Atende, atende,
9:16 não vai ligar não". Eu liguei, falei com ela dia tal, lugar tal, ele tava com você, tava ligando para mim, falando que me iam, tava na porta da minha casa fazendo escândalo. Passei toda a situação para ela e ele pegou e falou comigo assim: "Você tem um minuto para ir embora". Eu falei o quê? Perfeitamente. Desci as escadas, quando eu cheguei lá embaixo, que eu tô tentando abrir o portão, não abria pelo interruptor. E eu escutei a porta batendo e era ele vindo. E ele chegou no topo da escada, ele é um um homem de quase 1,90 m de altura. do quarto degrau que ele tava, ele pegou o impulso e me deu um chute na costela. E nisso eu já bati na porta. É uma porta, era uma porta de vidro. E nisso ele começou a me dar soco na cabeça, só na cabeça. Ele pegava só a minha cabeça. E era soco, soco, soco, soco. E teve uma hora, eu lembro direitinho que ele tentou pegar minha cabeça e socar na escada, mas aí eu segurei. Eu não tenho noção de quanto tempo durou essas que eu vi que a coisa
10:01 estava muito séria, porque eu vi muito sangue no chão, mas é porque a minha boca abriu por dentro. A minha mãe, ela teve a ver 12 anos e eu cuido dela e a minha só foi porque ele criou vinculo com a minha mãe. E aí eu peguei e falei com ele: "Eu preciso cuidar da minha mãe. Você sabe que minha mãe precisa de mim". E ele pegou e falou comigo assim: "Você pode ir embora. Se você chamar a polícia, eu mato sua família inteira. Com sua mãe eu não mato não, mas sua família eu mato." Quando eu entrei no carro, eu não tinha noção do que que ele tinha feito comigo. Eu lembro de olhar e ter um ovo assim no meio da minha testa. E eu tenho uma amiga que é enfermeira. Eu fui pra casa dela e aí ela me socorreu. Ela conta que assim que ela passava a mão no meu cabelo assim, saía tufos de cabelo e ele ligou na hora. Aí quando eu atendi, ele falou assim: "Tá feliz? Tá satisfeita com o que você fez eu fazer?" Eu lembro nitidamente dele falar isso. E aí a minha amiga pegou meu
10:47 telefone, pegou e falou assim com ele: "Você é um merda, você é um bosta. Tô levando ela pra delegacia agora". E aí começa, começou o dilema. denunciar ou não. Quando é com você, a coisa muda, porque era eu a vítima, eu a ameaçada, eu lidando com um agressor. A sociedade não sabe receber uma mulher vítima de violência doméstica. O que eu mais ouvi das pessoas na época foi: "Mas o que que você fez para ele fazer isso com você?" As pessoas sempre julgam a vítima. E eu lembro que eu fiquei na delegacia de 8 horas da manhã até 2 horas da tarde para denunciar, pegar depoimento, fazer corpo delito, fazer tudo. Fiz com peito cheio de sangue, a roupa toda ensanguentada e aí depois começa o seu processo, que é de entender e agora eu denuncio. O que que acontece? E você lida assim com o sentimento de ainda amar o seu agressor,
11:33 porque você fala assim: "Nossa, era uma pessoa que eu fiz plano de casar, de formar família, de ter filhos". É um processo extremamente doloroso. Tive pessoas próximas que fizeram gozação da situação. Ah, mas conta o que que você fez? Conta que você mexeu no celular dele. Aí você encontra poucas pessoas mesmo nessa rede de apoio que fala assim: "Ele podia ter te pegado na cama com outro. Ele não tinha o direito de fazer o que ele fez com você". E aí você entende porque que algumas mulheres desistem, porque aí depois que você denuncia, você tem uma audiência que aí o juiz te pergunta se você quer tocar [risadas] o processo ou não. Então assim, aí depois dessa audiência que vem a audiência, quando você fala assim: "Não, eu quero tocar". O próprio juiz no dia falou assim: "Mas por quê?" Aí eu falei: "Porque eu quero que ele pague pelo que ele fez comigo". Você lida com a frustração de saber que ele vai sair ileso. Você lida com vários tipos de
12:18 sentimentos, muita terapia e você vai ressignificando. Você vai entendendo realmente onde você falhou, porque sim, você falha em não identificar, em não acreditar que a pessoa vai ter coragem de fazer isso, que o cargo status na empresa. E aí eu entendi que isso não é sobre sobre cargo, isso é sobre caráter, isso é sobre a pessoa. E aí você começa a entender isso. Passou um tempo, a mulher que ele namorava entrou em contato com o meu irmão e ela falou que ela hoje tem uma medida protetiva contra ele. E eu acredito muito que ele só não bateu nela, que ele só não fez com ela o que ele fez comigo, porque ele já estava respondendo o meu processo. Pras mulheres que acreditam que não salva, não faz diferença, salva. Eu acho que o que salvou essa mulher de ser agredida foi o meu processo. Muitas vezes a
13:04 sociedade desacredita. Ah, uma medida protetiva não faz diferença. Para mim fez. Eu tive uma rede de apoio muito importante de amigos da associação Meu Amar, de advogadas. E hoje é o que eu falo sempre, se uma mulher for salva já valeu muito a pena. Hoje eu tô em outro relacionamento, a gente acha, não, não vou dar conta, a gente consegue seguir ressignificar. Lógico que ficam os traumas, ficam alguns medos, mas a gente vai, como se diz, um passo de cada vez se vai ressignificando. Olá,
13:57 meu nome é Telmo Rodrigues. Eu sou advogada de famílias há mais de 30 anos e há 15 anos, um pouco mais, talvez, eu me especializei e me dedico ao direito das mulheres em específico. Então a Lei Maria da Penha contempla cinco tipos de violência contra a mulher, que é a violência psicológica, a violência moral, a violência sexual, a violência patrimonial e a violência física. Mas a gente vê, a gente sabe e entende que existem muitas violências, mas a violência contra a mulher vai para muito além da letra fria da lei. A gente pode falar da violência obstétrica, da violência institucional, da violência jurídica, violência que as mulheres vivem enquanto vítimas de um processo judicial. Muitas vezes a mulher entra pedindo uma pensão, uma revisão de
14:43 pensão ou quer quer mesmo se divorciar, que é algo simples, né, hoje em dia. E aí ela é revitimizada, inclusive nas barras do tribunal. Então a gente vê que são vários tipos de violência que nós mulheres vivemos todos os dias. Num divórcio mesmo, a gente percebe a carga que vem de violência de gênero feminino. A mulher simplesmente deseja sair daquela relação ou não consegue mais estar naquela relação, sustentar aquela relação enquanto esposa. E vem aquela avalanche de violências, sofrendo a violência patrimonial na dilapidação do patrimônio que o marido geralmente faz, porque é ele quem tem o controle financeiro do casal e da família. a violência psicológica, que eu sempre falo que é a porta de entrada de todas as outras, porque ela começa a ser diminuída, ela começa a ser subjulada,
15:29 ela começa a ser humilhada, ela começa a sair do papel real da mulher, né, da sensibilidade, da amorosidade, do acolhimento, para ir para um lugar de submissão mesmo, né, de obediência ao marido. A violência moral muitas vezes constitui na calúnia, né, na difamação, na injúria. ele começa a falar mal, né, a inventar histórias com relação à moral daquela mulher junto aos amigos ou à própria sociedade. Existe a violência física, né, que é a que a gente mais vê, que é geralmente quando deixa marcas, a gente tem que ficar atenta, porque ela não começa com o soco, ela não começa com o chute, ela começa com o soco na parede, né, com uma televisão que ele empurra, com uma xícara que ele joga no chão, um carro que ele acelera na hora da raiva. Ai, eu estava nervoso. Ai, é porque eu bebi. sempre tem um é porquê.
16:16 E ela vem geralmente com a porta de entrada da violência psicológica. E ela não é com o chute, com o pé nas costas ou com um soco. Ela começa assim, em terceiros, né? ou em objetos ou em outras coisas para depois chegar na gente. A gente bebeu tanto dessa água do patriarcado que a gente vai normalizando. Por quê? Com certeza eu já vi meu pai, eu já vi meu avô, eu já vi meu tio, eu já vi algum homem do meu ciclo familiar, da minha linhagem fazendo a mesma coisa ou coisas muito piores. Então eu acho que assim, ele socar a parede, ah, de repente é normal, coitado, ele tá nervoso, eu também irritei ele, eu também não ajudo, né? A vítima sempre fica confusa, fala assim: "A culpa veio, né? fala assim: "Até que ponto fui eu que provoquei ou até que ponto eu tô colaborando com isso? Vou dar mais uma chance. Não, agora realmente ele mudou. Se ele foi pra
17:02 igreja, ele tá me mostrando que realmente ele quer conservar a família, ele quer essa relação, eu vou investir também, eu vou dar a minha parte. A vítima fica sempre confusa nesse ciclo, mas como ela tem a dependência emocional, ela tá presa ali e ele volta pra explosão. E até até que isso vire um hábito, um costume que a própria vítima acaba sentindo falta se isso se quebra. Para além dessa dependência emocional, existem vários motivos e fatores que impedem essa mulher de sair dessa relação. Por vergonha, por medo, medo de não ser acreditada, porque geralmente os agressores, primeiro, eles não vêm, né, com letreiro assim na testa, sou agressor de mulheres, eles estão nos primeiros bancos das igrejas, estão à frente de grandes empresas, à frente de bancos, de comércio, eles são homens maravilhosos pra sociedade em geral.
17:48 portas adentro, a coisa muda drasticamente e só essa mulher vê geralmente. Então, ela tem medo de ser desacreditada, de ser doida, né, em muitas aspas. Ah, ela é louca, ela precisa se tratar, então ela fica constrangida de se expor a esse ponto. Muitas são dependentes financeiras, eles ameaçam a tirar a casa, elas nem sabem os direitos, né, a falta de informação faz essa mulher ficar no ciclo da violência. várias pessoas que trabalham com mulheres vítimas de violência doméstica que diariamente relatam a dificuldade que as mulheres têm de sair dessas relações. Elas vão entregar, por exemplo, a medida protetiva, muitas vezes ela já está de volta com o agressor. E a gente vê também no escritório mulheres que entram com a medida protetiva e por causa dessas várias camadas que não cabe a mim
18:34 enquanto profissional julgar e eu acho que a ninguém enquanto sociedade, a gente vê que essa mulher se arrepende, ela quer voltar, ela quer retirar a medida protetiva, ela fica com dó. Não, doutora, mas ele prometeu. Dessa vez eu acredito, ele mudou. Eu vejo que ele mudou. Eu nem gosto de falar isso por primeiro, eu sou uma árdua e ercúlia defensora da Lei Maria da Penha. Muita gente critica, não serve para nada. E aí eu gosto muito de recordar a todos nós que a minha avó não podia votar, que a minha avó não podia estudar sem autorização de algum macho que dominasse a ela naquele momento. A Maria da Penha é uma conquista das lutas feministas, então é injusto falar que não funciona porque nós já caminhamos muito. Geralmente a porta de entrada é a
19:20 delegacia de mulheres. Então você vai passar por uma triagem, onde a psicóloga vai identificar qual o tipo de violência, vai te encaminhar pro escrivão para fazer a medida protetiva que vai para o judiciário, pro juiz deferir ou não a medida protetiva. Em tese, ela deveria ser em até 48 horas. Aí depende muito da medida protetiva, né? Quais são as restrições desse agressor. Tem o número 180, que muito pouca gente sabe que você pode tirar dúvidas, não é só fazer uma denúncia anônima. Tem também o Cras, o Creas, né, que isso, todos esses instrumentos fazem parte da rede que a Lei Maria da Penha contempla. Acho importantíssimo estimular cada vez mais, mostrar o benefício do amor próprio, da autoestima, da independência financeira, da realização profissional. Me assusta
20:06 muito ver esse movimento de esposa, troféu, voltando assim avaçalador na nossa sociedade. Porque a violência contra a mulher é a violência mais democrática que eu conheço. Ela não tá presa a cor da pele, ao quanto eu tenho no meu bolso, ao quanto eu estudei. a gente vê juízas, delegadas da mulher, advogadas médicas dentistas mulheres que em tese passaram boa parte sentadas, né, na academia, né, no nas escolas e mesmo assim estão presas a um agressor. São vítimas de violência de gênero. A gente olha pras vítimas de violência doméstica, a gente mal consegue enxergar a mulher que tem ali atrás, né? Então, a gente tem que se reeducar. Eu tô falando no lugar de mulher mesmo, com toda a propriedade do machismo que a gente replica sem perceber muitas vezes nos
20:52 detalhes e de forma igualmente sutil. Da mesma forma que os homens perpetuam um patriarcado muitas vezes de forma sutil, a gente também repete isso de forma muito sutil. Por quê? Porque viemos de um homem, né? convivemos com homens e muitas vezes se a gente não tiver bem resolvida com a própria feminilidade, à vontade dentro da condição feminina, a gente mesmo começa a atacar outras mulheres. Então ela foi estuprada, mas também com aquela roupa, ela queria o quê? Ela podia est pelada, que ela não precisa e não merece, não pode ser atacada. O que que eu tenho que julgar uma outra mulher por ela estar sofrendo? Ao invés de levar informação, ao invés de acolher, ao invés de dar a mão, ao invés de oferecer cura para essa mulher? Por que que eu tenho que julgar? Por que que eu tenho que falar: "Ah, ela tá com cara porque ela gosta de apanhar."
21:38 Ninguém gosta de apanhar. E a gente tá falando de um lugar de onde tudo parte, que é o patriarcado. E a gente não pode esquecer disso e normalizar o que ele traz e o que ele impõe no dia a dia da gente, porque é muito sutil. E outra coisa que a gente tem que ficar muito atentas é que nasce uma mulher e nasce uma culpa. Então, a tendência feminina do gênero mesmo é de se culpar de tudo. Então, quantas mulheres eu vejo todos os dias que sofrem violência e elas se culpam, elas têm vergonha de falar porque elas se sentem culpadas. Isso é uma herança do patriarcado. Todas e todos nós bebemos da mesma água do patriarcado. E são sinais que a gente tem que ficar muito atento. sutileza da violência do patriarcado e a culpa que nasce junto com a gente. เฮ
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