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0:00 Então, naturalmente, você começa a se perguntar: "Bom, mas então qual é o desejo que faz falta e que importa ir atrás?" E aí, bom, a filosofia responde: "O desejo pela sabedoria". Aliás, filosofia é isso mesmo, né? E no desejo pela sabedoria, você tem algumas coisas que você tem que considerar. A primeira delas é que quem deseja sabedoria é porque não é sábio. Então isso é uma coisa importante. Desejar sabedoria é antes de mais nada saber que ela falta e que ela faz falta. Agora, entre faltar e fazer falta, aqui tem uma distância enorme, porque haverá milhões de pessoas que não são sábias e que não vem nenhuma eh nenhum problema nisso. Então é uma falta que não faz
0:45 falta, mas para alguns pode fazer. é o caso do filósofo, né? Aquele para quem a sabedoria faz falta. Como isso nunca é zero ou ou 100, isso são níveis diferentes, então o filósofo é aquele que tem alguma sabedoria e gostaria de ter muito mais do que tem e busca muito mais do que tem, porque isso lhe faz falta propriamente. Então, naturalmente, ele proporá que a sabedoria é um desejo, um objeto de desejo, eh, contributivo da vida boa. E por quê? Não só porque você eh tem um benefício eh digamos consistente, mas sobretudo porque esse benefício ele
1:32 ele permite até mesmo avaliar o valor dos outros desejos. Quer dizer, ele respinga em toda a vida, ele respinga eh de bondade em toda a vida, dirá alguém, né? ele ele ele contribui paraa vida o tempo inteiro. E como se não bastasse, a sabedoria é das poucas coisas eh do patrimônio humano que você distribui e não perde, né? Distribui, não diminui. Dependendo de como você distribuir a sabedoria, ela aumenta mesmo mesmo distribuindo. Lembrando um pouco algum milagre aí que vocês conhecem da Bíblia, né? você distribui e não acaba, né? Então, nesse sentido, a sabedoria ela
2:20 tem alguns elementos interessantes. Agora, claro, você nesse momento se pergunta: "Mas o que é exatamente a sabedoria?" E aqui a resposta é eh competência de reflexão sobre a própria vida ou sobre a vida humana. E naturalmente, direta ou indiretamente, todos os campos do conhecimento podem interceder na vida humana. Se você estuda a física, é por acreditar que minimamente a física ela contribuirá para a vida humana. Todo o conhecimento, mais ou menos imediatamente, contribuirá para a vida humana. Até mesmo aquelas reflexões que são específicas sobre a vida humana, como é a reflexão que eu tô fazendo hoje aqui, né? É uma reflexão
3:06 que tem a vida humana por objeto direto, imediato, né? Então, essas reflexões elas são altamente valiosas e a busca por elas configura um desejo de primeira classe, um desejo eh eu diria, eh, que configura uma propriedade valiosa da vida, né? Então, eh, naturalmente eh onde estão os obstáculos para isso, né? Os obstáculos para isso estão no fato de que eh aquilo que nós desejamos não resulta só da nossa reflexão íntima. Aquilo que nós desejamos resulta de um processo de socialização. Ou seja, a sociedade nos ensina aquilo que devemos
3:53 desejar, a sociedade nos direciona, né? Quem quiser ler alguma coisa magnífica e apetecível e abordável sobre isso, podem ler um livro do filósofo da escola de Frankfurt, Marcuzzi, chamado Eros e Civilização. E civilização. Qual é a tese? A civilização, toda civilização tem uma espécie de protocolo que direciona o EROS no sentido de salvaguardar uma certa ordem social. Então, eh, a toda a civilização acena com troféus que você deve buscar em detrimento de outros que você deve evitar de buscar. Então, há um aprendizado civilizatório do EROS legítimo, do EROS autorizado. Então,
4:40 quando você tá lá no primeiro ano do ensino fundamental, eh, a professora diz: "Você tem que estudar para passar pro segundo ano". Veja que aqui é um troféu que tá sendo assinado. Aenado como se fosse um toureiro que acena o lenço vermelho para o touro. Venha por esse lado, né? Venha por aqui, né? Vá para o segundo ano, né? Faça as coisas necessárias para ir para o segundo ano. Passar para o segundo ano é um troféu, é um objeto de desejo. Você tem que perseguir. E naturalmente, como a energia que nós temos é limitada, quando você direciona para um canto, você não direciona para outro campo. Então, veja como é interessante a civilização ao direcionar o EOS, ela também se protege
5:26 de manifestações desejosas que são perturbadoras, digamos, da sua ordem interna. Então, eh, nesse sentido, eh, você deve imaginar que na nossa sociedade capitalista você tem, eh, troféus que são inerentes ao consumo, né? Eh, você aplaudido por ter consumido essa ou aquela coisa. Eh, e também troféus inerentes à vida profissional, a carreira, ao sucesso profissional, ao aplauso, etc. Então você, tanto na produção como no consumo, você tem troféus que são acenados e que muitas vezes mobilizam toda a sua energia erótica, né? a sua energia desejante, mobilizam de tal maneira a tua energia
6:13 desejante que você perde o EOS para as atividades íntimas do final do dia, porque está extenoado, está com dor de cabeça, está destruído. A civilização te mobilizou de tal maneira que te sugou completamente em torno de um troféu a ser perseguido. troca a civilização, troca o programa de orientação erótica que essa civilização respeita. No feudalismo era diferente, né? No no Império Romano era diferente. Na nossa sociedade é do jeito que é que você conhece. Eh, a sociedade tá o tempo inteiro te dizendo e te mostrando coisas que você tem que conseguir comprar, porque, né, eh, senão você vai estar
6:58 excluído de um certo grupo de pessoas que detém aquilo. Número de câmeras atrás do seu celular, 3, 4, 5, 8, 18, né? Tablet 34, 35, 48, tablet helicóptero, tablet papel higiênico, tablet não sei quê, tablet que dobra, que enrola, que coisa tal. E e você vai sendo bombardeado com troféus que você tem que conseguir comprar. E para conseguir comprar, é claro, você entra num regime de trabalho muitas vezes escravizante, mas você não vê nisso nenhum problema, porque afinal de contas eh isso tem te permitido continuar jogando o jogo. Muito bem. Então eu acho que esse primeiro aspecto ficou fundamental, mas então aonde que o protagonismo entra aqui, né?
7:46 Aonde que o protagonismo entra aqui? E o protagonismo entra aqui exatamente na possibilidade que você tem de ter consciência de tudo isso e de dar por os seus limites. A possibilidade que você tem de ter consciência disso e pôr os seus limites. Isso é um protagonismo. Quem quem manda na minha vida sou eu. E como quem manda na minha vida sou eu, eu desejo o que eu achar por bem desejar. desde que, claro, não comprometa definitivamente a vida dos outros, não seja crime, não seja coisa tal, mas eh tirando isso, eh quem manda na minha vida sou eu. E não vai ser, né, meia dúzia de marqueteiros ou meia dúzia de publicitários ou meia dúzia de pessoas
8:33 que fazem esse tipo de trabalho sem ser oficialmente, mas que estão o tempo inteiro buzinando sobre o que você tem que desejar para continuar merecendo a sua atenção, o seu apreço, o seu aplauso e você terá que botar a mão e dizer: "Deixa eu explicar eh a minha Competência para atribuir valores às coisas da minha vida é uma competência inalienável.