0:00 Olá, queridos alunos, olá, internautas. Me chamo Daniel Gomes, sou professor de filosofia e sociologia aqui do canal e falaremos hoje a respeito de um dos filósofos que mais aparecem no vestibular, em concursos, primeiros e segundos e terceiros e quartos e quintos anos de faculdade, na mídia, um filósofo que está em todos os lugares, que é o Maquel. Nesse pequeno vídeo faremos uma abordagem a respeito de sua obra mais conhecida, O Príncipe. Então vamos lá. Quem foi Maquiavel? Ora, em todo lugar nós ouvimos falar esse nome, Maquiavel. Se você pega algumas obras da literatura renascentista, fala assim: Old Nick, o
0:45 velho Nicolau, para referir-se a alguém mal. Quando eu te chamo de maquiavélico, quando alguém chama outra pessoa de maquiavélica, ele tá chamando essa pessoa de má, de ardilosa, de egoísta. O uso que existe da palavra maquiavélico significa mal. E veja, o pensamento de Maquiavel não é maquiavélico. Maquiavel não é um cara que defende que você deve usar sempre a maldade, o egoísmo. Maquiavel não é maquiavélico. Este termo maquiavélico representa uma distorção da obra de Maquiavel. Então, muito cuidado. Se você segue o pensamento de Maquiavel, você não é maquiavélico, você é maquiaveliano. Um dos maiores livros da
1:30 história do Ocidente sobre Maquiavel, de um historiador lá de Cambridge, já morto, chamado John Pocock, chama-se um momento maquiaveliano e não o momento maquiavélico. Muito bem. O Maquiavel, então, ele tá em todos os lugares, ele é fundamental, inclusive há muitas distorções. Vocês sabem, Maquiavel nunca escreveu, não existe essa passagem no príncipe, os fins justificam os meios. Muita gente usa, ela, atribui a Macavel, mas também não é dele. Acontece com todos os grandes filósofos. As pessoas fazem citações, distorções. É comum. De qualquer maneira, independente de tudo isso, não há como compreender o pensamento e especialmente o pensamento político, moderno e contemporâneo sem
2:16 Maquiavel. Muitos pensadores vão dizer que o Maquel é o primeiro, pelo menos no pensamento político, a pensar o mal como uma realidade, a pensar o mal, não que ele seja mal ou que ele defenda o mal, mas na sua análise política. Ele não considera os homens como sendo bons, como sendo gentil, ou o bem como uma idealização do homem, algo a ser alcançado. Não, ele considera o bem como uma realidade. Vejamos, por exemplo, um trecho do capítulo 17 do príncipe. No capítulo 17 do príncipe, nessa edição que eu estou usando da E de Ouro, está na página 208, Maquiavel diz: "Os homens são geralmente ingratos, volúveis, fingidos e covardes ante o perigo e
3:03 ganancioso, ingrato, gananciosos, ingratos, volúveis, fingidos, covardes e gananciosos. Assim que Maquiavel define os homens. Então, para Maquiavel, ao pensarmos a política, que é o objetivo dele, devemos considerar que nos nós estamos lidando com homens que muitas vezes são assim. Então, não é que Maquiavel é mal ou defende o mal, é que ele é um dos primeiros, senão o primeiro, a considerar o mal como uma realidade a qual o pensador, o político, deve saber lidar. E é isso que ele vai propor justamente no príncipe. Vários inclusive dizem que Maquiavel é o primeiro dos filósofos que pode ser considerado um mestre da suspeita. Niets é um mestre da suspeita. Freud é um
3:50 mestre da suspeita. Marx é um mestre da suspeita. E Maquiavel é o primeiro dos mestres da suspeita. Esses caras são filósofos, os mestres da suspeita, que desconfiam do que à primeira vista aparece aos nossos olhos. Maquiavel desconfia do homem tal qual ele gosta de se apresentar a nós e ele vai buscar uma outra realidade. Freud também desconfia, Marx também, cada um à sua maneira. Então, tendo isso em vista, vamos entender o contexto em que Maquiavel escreve para que a obra seja assim mais clarificada. Vamos então ao contexto. Que Itália Maquiavel vivia? Vale lembrar, vocês estudam isso aqui no canal, nas aulas do Walter, que a Itália no século
4:35 X, quando Maquel estava vivo, ele vive entre o final do século XV e o começo do século X, a Itália nessa época não era um país unificado, não era um estado. Itália era nessa época uma expressão geográfica, né? O que hoje é a Itália na época de Maquiavel, era uma pleiade, uma miriaíade, um conjunto de cidades estado, de cidades independentes, de cidades, muitas delas autônomas, Veneza, Gênova, Páua, Milão, Roma, a poderosa Roma, onde estava o Papa e Macavel era da cidade de Florença. Então, a Itália nesse momento não constituía um país, mas muitas cidades estado. Florença era a cidade de Maquiavel. Maquiavel tem um
5:23 livro que nós não analisaremos ele aqui, mas ele é fantástico, chamado História de Florença. E nesse livro, Maquiavel diz: "Florença é um lugar onde os bons são conhecidos como loucos." Por que que Macavel eh eh coloca a coisa dessa maneira? Ora, todos esses historiadores dizem que Florença, nos séculos XV e X era um laboratório político onde eram experimentados todos os tipos de governo. Florença chegou a ter mais de 30 conjuntos de leis diferentes, diríamos de constituições diferentes no mesmo século. Florença, pátria de Maquiavel, mas também de Dante, de Petrarca, de vários outros renascentistas. Era um lugar onde você tinha golpes, contragolpes, mercenários.
6:08 Perceba que Maquiavel vivia num contexto político, então, altamente conturbado. Repetindo, ele diz que em Florença os bons são conhecidos como loucos. Já que para você sobreviver politicamente em Florença, você deveria ser astuto, você deveria ser esperto, você deveria saber jogar com o momento. O próprio Maquiavel atuou como diríamos hoje, uma espécie de diplomata de Florença. Depois ele vai ser preso em Florença e é na prisão que ele dedica o príncipe a Lourenço de Médice, tirando de Florença. Ele será libertado, terá um emprego por conta disso. Esse é o contexto de Macavel. Só para você ter um comparativo, outras cidades da Itália, por exemplo, Venezia.
6:54 Venezia também era uma cidade, só que diferentemente de Florença, só que ao contrário de Florença, Veneza era conhecida como a Sereníssima. Se Florença num único século teve vários conjuntos de leis, Venezia por séculos e séculos e séculos manteve uma única constituição que as pessoas diziam que teria sido feita por anjos, tamanho a sua perfeição. Veneza tinha um complexo sistema político, claro, diríamos hoje, de cunho aristocrático, mas Veneza era muito mais pacífica. Ela tava lá e ainda tá em cima de ilhotas no mar Adriático, fundada lá no século IX. Então, uma região basicamente estável. É interessante porque os renascentistas de
7:39 Florença, como Maquiavel e muitos outros, vão se dedicar fundamentalmente à política nesse contexto conturbado, ao passo que muitos renascentistas de Veneza dedicam-se fundamentalmente à ontologia, isto é, a ciência que a filosofia que busca entender qual é a essência do ser. Então, Florença, Veneza, para terminar a minha exemplificação do contexto de Maquiavel, vale lembrar a Roma dessa época. Ora, a Roma de Maquiavel era a Roma do Papa, conhecido nos filmes, seriados e até quadrinhos, Alexandre Borja. Este Papa Alexandre Borja, para muitos, um dos auges da corrupção do do de Roma, da corrupção da igreja, tinha um filho, César Borgia, que veja, Maquiavel elogia
8:27 o filho do Papa. Num momento do príncipe, o Macavel fala o seguinte sobre César Borja. César Borja, fazer uma uma síntese, dominava uma região que é a Romanha. A România estava se revoltando contra César Borja e o César Borja mata um de seus funcionários, Ramiro de Lork, para pacificar a Romanha. Só que o responsável pelos pelos males da Romanha era o próprio César Boja. Então ele mentiu, matou um homem, parece que ele partiu esse homem ao meio e deixou em praça pública. Ele mata um homem para pacificar a Romanha e a população da Romanha passa a gostar do César Borgia e ele evita uma guerra civil. Maquiavel pergunta mais ou menos assim: "Ora, o Ramiro de Lork mentiu, o Ramiro de Lork matou um homem e com isso
9:14 ele evitou uma guerra civil e a morte de milhares". Será que o que o Ramiro de Lork fez foi mal? Será que matar um para salvar milhares não é melhor do que falar a verdade e assim deixar que milhares morram? Maquiavel elogia a ação de César Borgia, filho de Alexandre Borgia, o Papa. Então, veja o contexto em que Maquel escreve. Eu sempre falo isso pros meus alunos. Em filosofia você sempre tem que entender o contexto da obra e o contexto, inclusive linguístico, o que significava aquela palavra naquele momento. Se você ficar tentando sempre trazer a obra pro presente, claro que você pode fazer esse paralelo, mas se você tentar entender as obras do passado com conceitos do presente, você comete o chamado anacronismo, né? Um falso entendimento
10:00 do passado. E aí você pode cometer alguns enganos. Então, feito esta contextualização, vamos falar sobre esta obra escrita em 1513. Vamos falar sobre o príncipe. Falemos então sobre o texto príncipe. Antes da gente começar, eu queria indicar para vocês o que eu considero uma das melhores edições do príncipe, que é essa edição da E de Ouro. Por que que eu indico essas edições? Não só porque ela é bonita, não só porque ela tem umas ilustrações muito legais, mas também porque ela tem uma introdução de um dos maiores especialistas em pensamento político do século passado, que é um pensador liberal extremamente complexo e profundo chamado Isaia Burling, né? Então tem uma introdução do Isaia Burlin chamada A
10:46 originalidade do Maquiavel, que eu recomendo como como leitura para aprofundar esse tema. Quem quiser esse texto a originalidade de Maquiavel, também encontra-se num livro do Isaia Burlin chamado Estudos sobre a humanidade. Contra-se nesse prefácio e encontra-se nos estudos sobre a humanidade. Assim você acha esse texto em português. O livro Príncipe é um livro que na maior parte das edições não tem muito mais do que 100 páginas. Então, é um livro curto. Não trata-se de uma obra extensa como a de Aristóteles. Não se trata de uma obra com uma metafísica complexa, como a obra de Kante, a crítica da razão pura, nada disso. O livro do príncipe, ele tem 26 capítulos. Ele é um livro extremamente curto, perto do que a gente tá
11:32 acostumado. Um livro objetivo com exemplos. Pra gente de filosofia. Às vezes um livro ter exemplos é uma maravilha para nos ajudar a conceber. curto, objetivo, direto, com exemplos, uma linguagem fácil, pelo menos perto dos outros livros, é uma linguagem fácil, direta. Entretanto, este livro causou um alvoroço no momento em que ele passa a ser lido na Europa. Entretanto, esse livro chegou a estar no topo da lista dos livros proibidos da Igreja Católica na época do Renascimento, o Index. Então, como é que pode um livro tão pequeno, tão simples que o Maquel escreve na prisão causar um alvoroço tão grande? E mais, este alvoroço não é só
12:17 um alvoroço na época que foi escrito, não é só um alvoroço histórico. Hoje, entre os historiadores, não há consenso sobre o que Maquiavel queria sobre esse livro. O Isaiah Burlin, por exemplo, fala que no livro O Príncipe existem mais de existem mais de 20 interpretações diferentes sobre qual seria o significado desse texto. Antigamente, talvez vocês aprenderam isso na escola, dizia-se que o livro príncipe era uma defesa do absolutismo. Hoje praticamente ninguém concorda com isso, até porque não existia absolutismo ainda na época do Mikevel. Não dá para defender algo que ainda nem se formou, nem ganhou corpo. Tem gente que fala que o livro Príncipe é uma defesa da unificação da Itália. Tem gente que fala que o Maquevel escreveu aquilo só para agradar o Lourenço de Méice e sair da
13:02 cadeia. E ele consegue isso. Tem gente que diz que aquele livro o Maquiavel escreve para proteger a população dos príncipes. Aí você me fala: "Professor, que absurdo, nada disso. Se você lê outros livros do Maquiavel, que são, aliás, mais importantes do que o príncipe pro Maquiavel, apesar de serem menos conhecidos para nós, como por exemplo os discursos sobre a primeira década em titulívio, os discorse do Maquiavel, o Maquiavel defende a República. O Macavel fala da importância das lutas entre as os diferentes grupos sociais em Roma para a construção de Roma. Então, o que o Maquiavel queria com o príncipe? Infelizmente eu não sei. Infelizmente não há resposta para essa questão. Eu deixo para você ler e você mesmo pensar, se alinhar, ler o livro,
13:49 ler Isaia Burling. O que nós podemos comentar aqui é sobre como o que que essa obra trouxe pra filosofia. Aliás, além de tudo, a gente tem também uma outra questão de como o príncipe é é usado em diversas maneiras hoje, né? Porque o livro é um livro político. O Maquiavel tava pensando as políticas do seu tempo na Itália, em Florença. Aí você entra numa livraria no aeroporto e tá lá Maquiavel para empresários, Maquiavel para isso, Maquiavel para aquilo. Quer dizer, há vários usos possíveis da obra do Maquiavel. Como que uma obra pode ser então tão plástica, vamos dizer assim, tão possível de múltiplas interpretações? Muito bem. Então, qual é a contribuição fundamental deste texto?
14:34 O príncipe paraa história da filosofia e por que com isso ele funda a ciência política? Vamos ver. O livro de Maiavel é um livro de um gênero muito comum na época dele, que é o gênero espelho de príncipes. Isto é, é um livro que diz para os príncipes. E quando eu falo príncipes aqui, não é príncipes o filho do rei. É príncipes no sentido de os governantes, né, como era usado na época. para os príncipes, para os governantes, para os líderes políticos, um manual de como governar, um manual de onde tirar questões, de onde tirar regras e reflexões. Muito bem. Então, tendo isso em vista, o que que esse livro oferece de diferente? Bom, eu acho que o Croach, um italiano que estudou
15:20 Maquiavel, entre outras coisas, resumiu a questão assim: o Maquiavel é o primeiro a nos mostrar que política não se faz com água benta. Quer dizer, não dá para você ser ao mesmo tempo um bom cristão e um bom político. Se você seguir a risca, os princípios do cristianismo, tudo bem para você, mas você não será um bom político. Se você seguir a risca aquilo que é preciso fazer para ser um grande político, legal, mas você não será um bom cristão. As duas coisas são inconciliáveis. Um brasileiro, inclusive numa expressão bastante inteligente, chegou a dizer certa vez: "A política é uma atividade para pecadores." Gitadini, um discípulo
16:06 de Macavel, é considerado um dos criadores da expressão razões de estado. Razões de estado. A política é uma atividade para pecadores. A política não se faz com água benta. O Maquiavel mostra então que existem duas éticas. Cuidado. Muitos dizem que Maquiavel separou ética e política, separou moral e política. Nada disso. O que Maquiavel faz é mostrar que existe uma ética que é a ética cristã, que vai dizer para você não mentir, vai dizer para você ser sempre bom em todas as circunstâncias, sempre verdadeiro em todas as circunstâncias. E existe uma outra ética que é a ética política. Para governar não dá para você ser sempre bom, tá?
16:53 Vamos ler então o trecho do capítulo 18 do príncipe para você entender isso que eu tô falando. Maquiavel lista uma série de qualidades que um ser humano pode ter e depois o o Maquiavel diz: "Mas um príncipe não precisa possuir todas essas qualidades. Basta que ele aparente possuí-las. Ouso até mesmo afirmar que possuir e ter todas essas qualidades que fazem um homem bom, honestidade, transparência, é danoso. Mas que parecer possuí-las é útil. É útil parecer piedoso, fiel, humanitário, íntegro, religioso e ser tudo isso, mas mantendo o ânimo preparado para que em caso de
17:39 necessidade se possa e se saiba agir de modo contrário. É preciso entender o seguinte, que um príncipe, especialmente um príncipe mais jovem, um novo príncipe, não pode observar todas as coisas a que são obrigados os homens considerados bons, pois ele é frequentemente forçado para manter seu governo a agir contra a caridade, contra a fé, contra a humanidade e contra a religião. Pensem, alunos, que o Maquiavel diz isso em pleno início de século X. Daqui a pouco a igreja vai ser contra a reforma. Ele tá dizendo que o governante tem que às vezes quando necessário, e este quando necessário é o que diz para você, que ele não é um cara que defende a maldade. Quando
18:25 necessário, o príncipe tem que apartar-se, né, separar-se do bem, da humanidade, da integridade, porque às vezes isso é melhor pra população. Às vezes é bom ser ruim. Essa brincadeira que eu tô fazendo é para você entender que Macavel não é antiético. Ele tá dizendo que às vezes usar máscaras vai ser o melhor pro bem comum para mantener elostato, para manter o governo, como ele vai dizer aí, tá? Por exemplo, várias passagens famosas do príncipe que expressam esta ideia. Ele fala: "É melhor um príncipe ser temido ou é melhor ser amado?" O Maquel disse: "Se puder os dois, é bom que as pessoas te amem e temam você, como fazemos com um pai rigoroso. Mas tendo que escolher, escolha ser temido,
19:11 porque o amor, diz Maquiavel, é um laço que prende muito mal os homens. Os homens traem aqueles que eles amam. O temor é um laço muito mais firme. Tem do que escolher, escolha ser temido." Depois o Macavel diz: "É melhor ser uma raposa ou é melhor ser um leão?" Ele vai dizer: "A raposa é aquela que tem astúcia, o leão é aquele que tem força. Ele diz: "É preciso que o príncipe saiba ser um leão para amedrontar os lobos, mas saiba também ser uma raposa para saber enganar aos lobos. Ou seja, a raposa é a inteligência, é astúcia, o leão é a força. O príncipe tem que reunir as duas qualidades. Não basta ser forte e não ser astuto. Não basta ser astuto e não tem não ter a força. Outro
19:57 momento, por exemplo, ele fala sobre as virtudes. Virtudes aqui, a virt pensada no sentido romano, né? Coragem, altivez, astúcia e a fortuna. Fortuna aqui e no italiano geralmente usa-se assim, significa for e eh sorte, fortuna. Aqui no italiano, geralmente usa-se assim, significa sorte. Era uma deusa grega da sorte. Um príncipe, claro, a sorte é importante, mas um homem virtuoso sabe aproveitar-se das sortes. Então, não basta o príncipe depender da fortuna, da sorte. É preciso ter vão virtudes e as suas virtudes o fazem que a sorte te favoreça. Para usar as palavras do Maquiavel, ele diz o seguinte: "É preciso que o príncipe saiba mudar
20:44 conforme exijam os ventos cambiantes da fortuna". Quer dizer, o a como a sorte tá sempre mudando, é preciso que o príncipe tenha a inteligência, a astúcia para se adaptar, para mudar quando necessário. Perceba então que o Maquiavel, como nós estávamos falando, não tá pensando o homem como ele deveria ser, tá pensando o homem como ele é, o mal como uma realidade. A filosofia de Maquiavel, portanto, é realista. Perceba que Maquiavel diz que é bom não aquilo que é bom porque segue a um preceito bom. é bom aquilo que faz bem a comunidade. Ele é, portanto, utilitarista. Cuidado, existe o utilitarismo, que é uma corrente filosófica do século XIX. Quando digo utilitarista, porque Macavel está dizendo: "É bom o que é útil à
21:29 comunidade". Isso na ética política. Maquiavel também é antiutopista. Quer dizer, diferentemente do Thomas Moore contemporâneo. Aí Maavel não tá pensando em utopias, em governos ideais, no homem como deve ser. Ele tá pensando no mundo como é e como sobreviver nesse mundo, que é o que a gente tem, e não em outro mundo. O próprio Zia Burlin faz uma uma observação que eu considero genial. Maquiavel, claro que não é um liberal, mas o Zia Burlin coloca o Maquiavel como antecessor do liberalismo, uma vez que ele é um dos primeiros a admitir uma pluralidade de éticas. Quer dizer, existe a ética cristã, ser bom sempre, existe a ética política. É bom o que faz bem à comunidade. O Macavel não tá dizendo que
22:15 uma melhor que a outra, ele tá dizendo que a política é melhor para governar, a cristã é melhor para salvar a alma. Você decide o que você quer escolher. Por isso que o Burlin falou que o Macavel abriu uma chaga no seio da humanidade e essa chaga continua a sangrar. Ora, que que ele quer dizer com isso? Quantas vezes em nossa vida você não se pergunta: "Será que eu minto por um bem maior ou será que fazer isso é errado?" Toda hora nós nos colocamos essa questão e o Maquiavel é o primeiro a deixar isso com clareza. E aí, será que vale a pena ser corrupto pensando na política por um bem maior? Ou será que essa corrupção em si já é ruim? Perceba que essa discussão é atual. E agora você tá entendendo porque que as pessoas até hoje leem Maquiavel. Porque que o Maquiavel é aqueles pensadores que vão além do seu
23:01 contexto. Por isso que ele é um clássico, tá? Um pensador clássico tem como muitas vezes como uma das suas qualidades isso, né? Ele transcende a sua época. A gente lê ele hoje, imediatamente pensamos em situações da política brasileira, em situações da nossa vida. Ele é por isso que ele é fundamental. Muito bem. Com certeza vocês aí que vão fazer maratonas de vestibulares no fim do ano vão se deparar com Maquiavel. E quase sempre o que se cobra, é exatamente a pergunta que aparece quase sempre no Enem mesmo, em vários outros vestibulares, é como Maquiavel rompe com essa ética cristã. Entender essa proposta dele de uma ética de ser bom sempre que possível, entender esse dualismo que nasce com ele, isso sempre aparece, às vezes relacionando com presente e esse tipo de coisa. Muito
23:47 bem, eu espero muito que vocês tenham gostado dessa aula, aproveitado essa aula. Eu queria pedir duas coisas. Primeiro, se inscreve no canal, se liga nessa história. Eu ainda vou gravar muitos e muitos e muitos vídeos por aqui. A gente tá no estúdio com Ari gravando vários vídeos. E segunda coisa, eu vou pedir para vocês, se vocês quiserem, por gentileza, comentar no vídeo temas que vocês gostariam que a gente gravasse, filósofos que vocês gostariam que a gente abordasse, pode ser um filósofo, um tema, uma questão pra gente ter ideias aí pros próximos vídeos. Muito obrigado, um grande abraço e até a próxima. Amém.