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0:01 Após a urbanização desenfreada se espalhar por todos os cantos, a rotina amassante do trabalhador foi naturalizada. Vivemos em cidades que nunca desligam, temos empregos altamente desgastantes, estamos banhados pela ansiedade e pela sensação do atraso pessoal e físico. Encontramos alguns minutos de consolo no dia, quando abaixamos nossas cabeças e ficamos passando o dedo várias vezes por uma tela de LED. Uma vez, alguém me disse que a condição humana requer um pouco de anestesia para as dores existentes. Viver não é fácil, ainda mais em situações que drenam nossos desejos e sonhos. A nossa racionalidade exige que a mente também seja cuidada e alimentada constantemente com alguma
0:49 coisa. Se nós só trabalhamos, comemos e dormimos, em algum momento iremos desistir fácil. Se achamos, comemos e dormimos, em algum momento iremos desistir fácil de nós mesmos. Desde a cultura do pão e circo, a humanidade já está ciente de que o entretenimento é fundamental para o controle das massas, porque estas necessitam alimentar a mente e o espírito de alguma forma. É por isso que o desenvolvimento de pesquisa e tecnologia dentro do ramo do entretenimento, apesar de custar muito alto, também gera um retorno muito grande, porque é notório como as pessoas buscam se anestesiar do mundo de vez em quando, então se existe a demanda, esforços não serão poupados para promover a oferta. O entretenimento, aos poucos, se transformou em um poderoso valor de troca, em um potente gerador de riquezas na sociedade. De algum jeito, ele está lá, se enraizando no cotidiano
1:37 das pessoas desde a primeira infância. É incrível como aprimoramos a apresentação e os meios de consumo do entretenimento para que ele adquirisse a capacidade de incluir a maior parte da população do mundo de diferentes países. A capacidade de incluir a maior parte da população do mundo, de diferentes idades e gêneros, independentemente dos estratos sociais existentes. Quando falamos de ambientes urbanos, por exemplo, o consumo cresce ainda mais, por causa do fácil acesso ao sinal de internet, rádio e televisão. A Amazon Prime e a Netflix são os dois gigantes do entretenimento midiático, mais consumidos no Brasil e no mundo. É tanta coisa disponibilizada que, para assistir a todos os conteúdos de uma vez só, você precisaria de muitas horas sem dormir e sem ir ao banheiro. Hoje, essas plataformas valem muito dinheiro no mercado de ações. Em março desse ano, Netflix ultrapassou o Disney
2:22 +, e passou a valer quase 158 bilhões de dólares. Mas durante todos esses meses, o número continua subindo. A pandemia conseguiu efetivamente acelerar a revolução da distribuição do conteúdo midiático para o mundo todo. Os serviços de streaming deixaram de ser apenas uma opção para assistir filmes em casa, e passaram a ser um dos nichos mais valiosos da indústria cultural hoje. e passaram a ser um dos nichos mais valiosos da indústria. Bom, a indústria cultural é movida por empresas e instituições que aplicam muito dinheiro em produções cinematográficas, produtos e ativos digitais e as distribuem de forma massiva e instigante para a sociedade, de forma que ela seja persuadida através da comunicação e da publicidade empregada a continuar consumindo isso tudo. De acordo com os pensadores Adorno e Max Hocherman, que lapidaram a teoria sobre o que é a indústria cultural, ela busca padronizar e homogenizar
3:13 os produtos para que eles possam ser consumidos pela maioria das pessoas. Assim, tudo o que pertence à indústria cultural deve seguir um padrão pré -definido para o consumo imediato pelas massas. Um catálogo de séries é basicamente isso. Um padrão para apresentação de conteúdos e um player de vídeo que passa episódio por episódio de forma automática é o gatilho perfeito para o consumo imediato desenfreado. é o gatilho perfeito para o consumo imediato. Dentro do catálogo da Amazon Prime, uma das séries que mais se destacou pela reverberação do público foi The Boys, uma série de ficção científica que consegue assemelhar o seu enredo ao conceito do que é a indústria de entretenimento hoje, e como ela banaliza o consumo consciente de conteúdos imediáticos. A série de humor e drama conta a história de um grupo de heróis intitulado The Seven, que são administrados
4:02 por uma agência de marketing e propaganda chamada Vought, que são administrados por uma agência de marketing e propaganda. a qual é responsável por estruturar a narrativa sobre o que é o grupo e apresentá -los para a população, bem como é responsável por todo o marketing de produtos, acessórios, campanhas e ações beneficentes. O líder desse time é chamado Homelander. Em seguida temos todos os outros integrantes, que são basicamente versões escrachadas dos heróis tradicionais que já conhecemos hoje. No começo da narrativa, vemos que os heróis são cultuados pelas pessoas que moram na cidade. No começo da narrativa vemos que... Existe uma divulgação massiva em cima da imagem deles, como celebridades, seres religiosos, influenciadores políticos, além de haver uma supervalorização disso tudo por parte das autoridades estadunidenses. Mas, a partir do segundo episódio, somos apresentados aos poucos para uma
4:52 outra perspectiva desse enredo saturado. The Seven é um grupo de super -heróis que não possuem valores éticos. e morais estabelecidos, que foram ensinados a fazerem o que querem, na hora que querem, e abusar de quem foi o preciso para conseguir o que desejam. Em vários episódios, vemos que o líder do grupo, Homelander, é um cara bastante estressado e impaciente, mas que sempre tenta manter a elegância e o sorriso no rosto. Ele tem uma vaidade exacerbada em relação à sua imagem e se sente no direito de abusar moral, verbal e sexualmente de pessoas inocentes, bem como de se sentir o protagonista em todos os cenários possíveis. Ele claramente se mostra como uma criança mimada, que mede o mundo com a sua própria régua, e aos poucos, sufoca as pessoas que estão ao seu redor, praticando jantagens, ameaças e até assassinatos. Mas apesar disso, a comunicação e
5:41 a abordagem publicitária empregada na imagem do grupo todo é a melhor possível, a fim de mascarar quem são esses super -heróis de verdade. Isso possibilita a criação de uma verdadeira cultura midiática em torno dessas figuras. mobilita a criação de uma verdadeira cultura midiática em torno dessas figuras. Afinal, ao preservar a imagem dos super -heróis, a cidade toda irá continuar consumindo produtos relacionados a eles, bem como de acreditar que eles são extremamente necessários para o bem da população. Dessa forma, toda a população é iludida a respeito do que são esses super -heróis, e como o consumo dessa cultura estimula cada vez mais a propagação de valores e ideias artificiais criadas por uma equipe de comunicação e marketing, objetivando a fidelização do produto herói para com o público. população, e assim garantir a permanência do culto e do consumo a esse produto, evitando qualquer discurso racional que faça com que a população questione a abordagem que se dá aos
6:30 decebem, nos grandes meios de comunicação. Isso coloca a sociedade em uma grande bolha de conforto, onde tudo aquilo que é agradável de se acreditar e consumir é constantemente reafirmado, banalizando o real significado do que é ser um super -herói e como... o significado do que é ser um super -herói e como questões éticas e bélicas deveriam sim ser discutidas em público. O entretenimento, que temos acesso rápido e fácil dentro das nossas casas, nos são apresentados de forma encantadora, seduzentes e benéficas. Assistir aos conteúdos dos serviços de streaming nos deixa relaxados e estimula uma série de hormônios entorpecentes no nosso cérebro. O efeito é rápido, nos sentimos cada vez melhores depois de ter tido um dia péssimo. eles se repetem e voltamos a passar mais e mais horas
7:16 na frente das telas. Isso cria um loop infinito, onde não conseguimos superar viver em certas condições e começamos a nos alienar e a depender de válvulas de escape rápido. Ao explorar essa fraqueza, a indústria do entretenimento nos estimula a acreditar que esses produtos são extremamente necessários para a vida de cada um de nós. A verdade é que, salvando algumas exceções, consumir mais não significa consumir mais. que, salvando algumas exceções, consumir mais não significa consumir qualidade, e por isso, na persistência de se lucrar cada vez mais com a fidelização do produto mídia para com o público, sociedade frustrada, a poderosa indústria cultural incentiva a banalização do consumo midiático consciente e suprime a discussão de ideias que as envolvem. De acordo com Adorno e Max Hockman, a indústria cultural não introduz as massas nas áreas de que eram antes excluídas, passas nas
8:03 áreas de que eram antes excluídas, mas serve, ao contrário, nas condições sociais existentes, justamente para a decadência da cultura e para o progresso da incoerência bárbara. Ou seja, assim como em The Boys, os heróis não tornam a cidade um lugar melhor e mais seguro, já que eles são a própria representação do mal e da barbárie. O entretenimento produzido em larga escala e servido através dos serviços de streaming não democratiza o acesso à cultura e educação, nem tampouco torna a vivência... o acesso à cultura e educação, nem tão pouco torna a vivência cotidiana mais tolerável, mas sim aliena cada vez mais as pessoas que os consomem e seduzem de forma cada vez mais apelativa aqueles que não o consomem. A sociedade está tão acostumada a passar feeds, verem vídeos de segundos no TikTok, Facebook e Instagram, que quando se deparam com a
8:52 verdadeira oportunidade de se imergir em conhecimento e teoria, ela não reconhece mais isso. Mas isso, tudo é diversão prazerosa e passageira, onde nada se leva dela. Tudo é diversão prazerosa e passageira, onde nada... No texto Entre o Céu e o Inferno, do professor Vinícius Romanini, discute -se exatamente essa questão. O discurso se baseia nas várias experiências que ele teve ao de entrar em galerias e museus, de se deparar com uma onda de selfies e registros digitais das obras. As pessoas passam pelas obras, mas poucos se interessam para se aprofundar nelas. Tudo é muito superficial. O que verdadeiramente importa é o registro da passagem. que a pessoa teve por esses espaços. A educação incrementada nesses centros expositivos históricos deixou de ser a preciosidade que torna esses lugares algo
9:37 desejado, pois agora, na era das mídias eletrônicas, o que mais importa é a própria experiência da visita ao local compartilhada nas redes sociais. Isso se tornou muito mais importante e mais valioso do que o conhecimento agariado no museu. porque no fundo não se trata da exposição em si, mas sim de mais um autorregistro Porque no fundo não se trata da exposição em si, mas... para uma coleção interminável deles. A conduta de se consumir desenfreadamente qualquer tipo de conteúdo midiático, que nos é apresentado de forma persuasiva e encantadora, cega a nossa sensibilidade de nos relacionarmos com outros tipos de conteúdos artísticos e educacionais. Nós vivemos em um mundo semi -automático, onde a frustração imposta pelo sistema capitalista lá fora é amenizada com altas doses
10:23 de entretenimento rápido aqui dentro. E nessa realidade, o verdadeiro artista independente que não está associado à indústria é uma figura distante para nós, porque aos nossos olhos eles são uma pura exceção e dessa forma acabamos também por não enxergar que cada um de nós, de alguma forma, também é um artista. não é um ser banhado do incrível dom de produzir algo, ele não é um cara visionário que prevê o futuro. Um artista é uma pessoa que faz arte. E a arte é uma caixa que guarda a junção de várias ferramentas essenciais para se compreender e se comunicar com o mundo. Às vezes, a sociedade tende a acreditar que os artistas pegaram essa caixa e usufruíram dessas ferramentas sozinhos, e que por isso carregam a fórmula mágica da mistura perfeita dessas
11:11 ferramentas. Mas isso tudo é só uma ilusão. Olegário do Santos Filho. Era um escritor e compositor brasileiro. Ele faleceu com 62 anos de idade na cidade do Rio de Janeiro no ano de 2017, por uma insuficiência cardíaca. Lourenço foi o criador de uma das músicas mais famosas do país, chamada Sorte Grande, mas que todo mundo conhece como Poeira, interpretada pela cantora Inved Sangalo. Apesar de ser o autor, ele nunca recebeu metade da idolatria e da fama que... a Ivete Sangalo recebe até hoje por causa dessa música. Isso porque é comum associar a imagem de um ícone ao sucesso que ele consegue fazer com o produto musical, e muitas vezes atribui -se a ele, e somente a ele, a genialidade do trabalho em cima da música.
11:58 Ninguém faz nada sozinho, nem mesmo a Ivete Sangalo. É um erro atribuir todo o sucesso de sorte grande à imagem da cantora, pois tem o esforço de muitas outras pessoas nesse processo. Além do compositor, tem pessoas que ajudaram na gravação, na produção, nos instrumentos utilizados, ajudaram a fazer a mixagem, a masterização, ajudaram a fazer a arte, a propaganda e a divulgação da música. E quem escuta o produto final também é um colaborador disso tudo. A Ivete pode ser a cola que junta toda essa galera ao redor dessa música, mas ela não fez isso tudo sozinha. Os artistas nada mais são do que pessoas comuns que pegaram a caixa de futebol... Os artistas nada mais são do que pessoas comuns que pegaram a caixa de ferramentas e fizeram vários testes a fim de ver o que realmente poderia resultar. Todos nós somos artistas, só precisamos
12:44 aprender a combinar essas ferramentas. A indústria cultural peca no sentido de nos esconder essa verdade e nos convencer através de seus grandes veículos de propagação que a cultura é alheia ao nosso cotidiano, que ela é um ser invisível, mágico, difícil de ser compreendido, criado por poucos. e esses poucos são os poucos. E esses poucos são os possuidores do dom, os mais privilegiados possíveis, de coisas e oportunidades que não queremos conhecer, que não queremos ter. Em uma perspectiva mais filosófica, o dom é apenas uma palavra de origem bíblica, que serve para explicar como as pessoas da mesma idade e características sociais parecidas desenvolvem habilidades geniais desde cedo. A questão é que em um país cristão e conservador, esse tipo de
13:32 argumento consegue fazer um ótimo efeito, A questão é que em um país cristão... mesmo que ele contribua para uma cegueira coletiva em relação à produção de conteúdo, entretenimento, cultura e qualquer outra coisa. A crença em dons é reforçada por justificativas teóricas tradicionais, que tentam deduzir o nascimento dessas habilidades por uma determinação da herança. Dizer para uma criança que ela não é dotada é manter em termos pseudo -científicos que nada se pode fazer para desenvolver sua inteligência e habilidades. Dizer para uma criança que ela não é dotada é manter... Isso é um ótimo álibi para uma política escolar baseada no Malthusianismo da inteligência, já que Malthus criou uma teoria pessimista e cruel de que todos estariam fadados à fome e à miséria, salvando poucas exceções. Nesse caso, a política defende que todos
14:20 estariam fadados ao entendimento básico do mundo. e poucos possuiriam a verdadeira inteligência, o que é uma política funcionalmente antidemocrática. No caso do homem, não está nos bens patrimoniais biológicos o progresso e o desenvolvimento de habilidades e inteligência, mas sim no patrimônio social que o cerca, instrumentos de produção instituições idiomas culturas viagens experiências etc. Durante a vida toda, somos marcados por parâmetros biológicos, mas no entanto, isso não é capaz de decidir nada, porque tudo aquilo que é decidido passa por um desenvolvimento posterior, que no caso é o nosso histórico social. Portanto, qualquer um pode ser um artista.
15:07 O consumo de referências estéticas, culturais, musicais e folclóricas nos torna mais preparados para desenvolver nossa própria criatividade e de nos enxergar como protagonistas do entretenimento. também. Talvez, com o maior incentivo à discussão de pautas como a moralidade abordada nos meios de consumo e de como os serviços midiáticos, que parecem ser inofensivos, impactam muito as nossas vidas, um dia a nação possa acordar, levantar a poeira e se libertar das mentiras da angústia cultural.