0:05 Esse webinar de hoje, pessoal, é parte da programação preparatória pro primeiro simpósio nacional em saúde mental, práticas e atualizações. Um caminho iniciado por Nise da Silveira, que vai ser agora dia 20 e 21 de setembro em São Paulo, aqui na sede do Instituto Freedom, que esse simpósio tem como missão aprofundar e atualizar os olhares sobre o cuidado psíquico no Brasil, tá? Como parte dessa programação, esse webinar hoje apresenta duas palestras inéditas, tá? Que vão resgatar a experiência da Casa das Palmeiras. para quem ainda não conhece, que é um espaço criado por Nise da Silveira como alternativa viva e afetiva à lógica
0:51 manicominial. Então, hoje hoje nós temos hoje nós temos como convidado o Dr. Jean Pierre Hargraves, eu juro que eu tentei falar o nome antes, psiquiatra e colaborador da Casa das Palmeiras com uma palestra comestra com o tema o silêncio é mais rápido silêncio é mais rápido. caminhos dos clientes da Casa das Palmeiras, que vai ser refletido sobre escuta, silêncio, expressão simbólica a partir da trajetória do poeta José Bastos. Também tem hoje conosco Patrícia Fonseca de Oliveira, que vai nos conduzir na palestra A poesia como caminho, trilhando as trilhas da Seguindo as trilhas de Nise da Silveira também, também revisitando a
1:40 história de José Bastos e revelando como a poesia pode ser um meio potente de reinvenção subjetiva e cuidado psíquico. E é claro que como mediadora nós vamos ter a Patrícia Teixeira, que também é a nossa coordenadora da nossa pós-graduação em práticas e atualizações em saúde mental e claro do próprio Simpósio Nacional em Saúde Mental. Esse simpósio, pessoal, é um convite a uma escuta sensível à arte como forma de cuidado e a memória viva de uma das maiores referências da saúde mental no Brasil, que é claro Nise da Silveira, tá? Então, ao final desse encontro, eu tenho certeza que vocês vão sentir um pouco do que que vai ser esse simpósio nacional em saúde mental, porque vai ser
2:26 muito mais do que o evento, pessoal. É um chamado, um espaço de reencontro com a clínica que tem de mais vivo, simbólico e transformador. Boa noite, Jan. Boa noite, Patrícia Fonseca. Boa noite, Patrícia Oliveira. a minha mais profunda gratidão pelo tempo de vocês e pela momento de vocês estarem aqui, por você poder compartilhar um pouco da história. E Patrícia, muito obrigada pela organização, pelo esmero disso tudo. Então, boa noite a todos e a todas. Eu vou dar a palavra para vocês, Patrícia. Muito obrigada. Olá, pessoal. Boa noite, Luciana de novo. Obrigada por a possibilidade de est sempre fazendo esses trabalhos tão
3:13 importantes na Freedom, esse comprometimento com a psicologia, com a saúde mental, com a arte, com a filosofia, com a arteterapia, com a antropologia. um espaço dialético aonde muitos profissionais trocam toda a sua caminhada nesses caminhos, nessa jornada em busca da alma, porque falar de de psique, falar de psicologia, falar de alma. Então, quero agradecer a você, quero agradecer a organização daqui, Mateus também, todos que trabalham aí, Stefana, Diúlia, Bia e agradecer principalmente a presença dessas duas pessoas aqui, Patrícia e Jampierre, que tem aí uma sincronicidade que é o encontro com José Basto, um dos
4:01 primeiros clientes da Casa das Palmeiras. E aí, dando continuidade ao que a Luciana começou agora, eu queria falar um pouquinho primeiro porque a gente vai conversar, vai ser um bate-papo aqui, né? A gente tá aquecendo o simpósio, o simpósio práticas e atualizações e saúde mental, um caminho de coexistência e resistência iniciado por Nice da Silveira. Como é que esse caminho está hoje, né? Quais são os desdobramentos desse caminho? Então, começamos o nosso pré-simpósio no dia de hoje e vamos dar continuidade a esse no dia 20 e 21 de setembro presencialmente na própria Freedom, no Instituto Freedom, que fica em São Paulo, no bairro de Santa Cruz. A gente vai falar
4:47 um pouco disso no final. E aí eu quero de novo, né, agradecer a Patrícia, né, a Patrícia Fonseca, ela é psicóloga, ela tá fazendo um doutorado em psicologia na Universidade de São João del Rei. Ela é integrante do grupo Caminhos Unguianos, né, desse laboratório de pesquisa em Psicologia analítica que é vinculado a Universidade Federal de São João del Rei, à Universidade Federal de Juiz de Fora e ao Museu de Imagens do Inconsciente no Rio de Janeiro. A Patrícia, ela trabalha como psicóloga clínica, né, no Centro de Atenção Psicossocial Infanto Juvenil, e na Prefeitura Municipal de Conselheiro Lafaete, em Minas Gerais. A Patrícia se
5:36 coloca como uma Benedita, apaixonada pelas trilhas deixad por Nis da Silveira, né? Não esquecendo que quando ela utiliza essa palavra, ela tá falando da estrutura do livro que a Nise constrói eh todo esse esse trabalho dela em relação à Casa das Palmeiras e também o trabalho que ela desenvolveu no museu. O Jean Pierre, ele é psiquiatra há 40 anos, ele fez pós-graduação em homeopatia e ele ampliou esse estudo na França, onde ele trabalhou por 3 anos. Vê se eu tô certa, hein, Jean? No centre hospitalier especializé de Maison Blush, um hospital psiquiátrico. E aí ele
6:23 voltou ao Brasil e ele conheceu a Nise e ele assumiu vários cargos na Cata das Palmeiras de de 1987 a 1992, sendo presidente e vice-presidente nos anos de 2017. a 2022. Hoje ele continua na Casa das Palmeiras como um colaborador importante e imprescindível. Ele é membro da societé François de Psicatropologia e la expression. Não sei se eu tô bem no francês, depois você fala. Tá bem, ele apresentou vários trabalhos sobre a Dra. Nisa da Silveira. Ele ganhou prêmio
7:10 de um vídeo no Congresso Brasileiro de Psiquiatria em 2024. Ele também tem um lado de roteirista. O vídeo que ele que ele que ele roteirizou e produziu com o irmão dele se chama o Direito de Sonhar. E ele tem outros roteiros também, como o delírios, né, que é um trabalho que ele desenvolveu. São a visão de várias imagens que aparecem nos ateliê da Casa Palmeiras, produzida pelos clientes, né, no tempo que ele trabalhou lá. Eu vou começar esse bate-papo, né? A gente vai falar com os dois ao mesmo tempo, né? Cada um fala um pouquinho. Vou começar com Jean, né? Então, Jean, eu queria que você contasse um pouquinho, te agradecer a tua presença, que você contasse um
7:57 pouquinho para nós da tua trajetória nesses 40 anos como médico homeopata e posteriormente como psiquiatra. o teu encontro com a Nise da Silveira na Casa das Palmeiras e esses roteiros imprescindíveis e criativos que você cria a alma também. É isso, Gen. Obrigada. Então, eh, eu me formei em 1984 e como eu sou de uma família de homeopatas, eu já tinha feito os cursos de pós-graduação de homeopatia no Brasil antes de me graduar. Então eu fui paraa França, eu tinha uns contatos importantes lá, fui para estudar mais homeopatia lá e levei um saco de livros, né? E dentro desse saco
8:43 de livros tinha os livros da Dra. Nise, porque eu já li esses livros pelo interesse de coisas alternativas, né? Fui para lá e eu precisava trabalhar porque eu não tinha bolsa. Conheci o chefe de um serviço de psiquiatria importante em Paris, que era inclusive o editor da revista, né, Formação Psiquiatri, que é uma revista importante. E ele aos poucos foi me apadrando e eu acabei trabalhando por três anos com ele. Então eu comecei eh a trabalhar dentro da psiquiatria e na homeopatia eu já tinha um foco nos sintomas psíquicos, né? A homeopatia tem muito isso, trabalha muito a questão psíquica. Então, eu já tinha um foco nisso, já tinha feito alguns estágios em psiquiatria aqui no Brasil, trabalhei lá
9:30 e foi uma grande escola porque foi o início da deshospitalização. O serviço que eu trabalhei foi o serviço que iniciou a deshospitalização, só que a deshospitalização na França foi feita de uma maneira muito mais lenta, gradativa, eh não foi como foi feita no Brasil, que que deixou algumas sequelas aqui no Brasil. E aí voltei pro Brasil, a minha mãe, ela fazia os desfiles da Acácia Dourado, o chá da Cácia Dourado, que era um chá beneficente que eh arrecadava fundos paraa Casa das Palmeiras. E pedi para ela conhecer a Dra. Nise. Aí fui apresentada a Dra. Nise no primeiro momento, primeiro contato com a Dra.
10:17 Nise, ela me pediu para estudar Gastom Bachelar. Eh, foi foi algo importante, porque depois eu fiz um eu na realidade eu fiz uma apresentação de slides com os textos do Gastão Bachelar para ela e depois virou filme e ganhou o prêmio ano passado no no Congresso Brasileiro de Psiquiatria. E aí eu comecei a trabalhar com psiquiatria. Eh, cheguei a trabalhar aqui no Rio eh em um manicômio, né? inclusive fui mandado embora porque ajudei um cliente a fugir, eh fiz umas denúncias, mas foi importante também essa experiência do manicômio, saber como é essa realidade, né? Eh, e
11:04 um amigo meu me chamou para trabalhar em São Paulo. Eu passei dois concursos lá e trabalho a São Paulo desde 1993 no serviço público, em enfermaria, de periferia. Então eu tô vendo o que realmente está acontecendo com a psiquiatria no Brasil, pelo menos em São Paulo, na periferia de São Paulo. Então isso e comecei na Casa das Palmeiras em 97, né? e fiquei até eh, não lembro muito bem as datas, mas fiquei por uns 5 anos, saí, depois voltei e já tô por mais desde acho que 2017. Eu não, eu não, eu não me dou muito bem com datas, mas eh e a
11:54 importância da Casa das Palmeiras é o contato com a a é difícil dar um nome, né? Eh, com a loucura, vamos dizer loucura para simplificar, né? Eh, mas não loucura no sentido pejorativo, loucura no sentido de de uma uma liberdade de de de ser, né? o porque eh nós vivemos numa sociedade em que existem várias eh várias regras, né, para para viver, várias regras para trabalhar e o o a pessoa que tem tá em sofrimento psíquico, ela não eh se adapta a essas regras, né? Então ela vive um mundo um
12:41 pouco eh diferente do mundo que a gente vive no dia a dia. E a Dra. Niz criou a Casa das Palmeiras em 1956 com objetivo de evitar as reinternações. A Dra. Nise nunca foi contra a internação. Ela inclusive em alguns momentos ela propôs que alguns clientes se internassem. O Emídio ficou em crise e ela propôs que que fosse internada. Então, existe a necessidade de ter alguns lugares humanos em que você possa eh a pessoa tendo a necessidade possa eh se internar. Então, a Dra. criou a Casa das Palmeiras com objetivo de evitar as reinternações e evitar as internações.
13:27 Então, ela criou um espaço onde através do que ela já tinha visto que funcionou dentro do hospital, né, que é são as atividades expressivas, um a emoção de lhe dar, o o afeto, eh o carinho, né, a possibilidade diferente daquela daquela realidade do manicômio, né, porque ela, ela transformou, ela abriu de alguma maneira um espaço dentro do manicômio eh onde as pessoas podiam viver de uma maneira diferente. Então, ela ela criou um espaço fora da instituição, né, do do hospital para evitar que essas pessoas eh tivessem a necessidade de retornar
14:14 a ao hospital ou caso eh nunca tivessem sido internadas, mas tivessem em crise, através do trabalho eh afetivo, do trabalho expressivo, pudessem evitar eh a internação. E ela fundou essa casa em 1956. E essa casa é uma é uma experiência alternativa em psiquiatria mais duradora do mundo. Nenhum lugar do mundo uma instituição alternativa, né, com propostas alternativas de tratamento, durou tanto tempo. Inclusive na casa a gente não tem enfermeiro, não tem eh medicação ou tem muito pouco, só como um
15:01 caso de emergência, né? e funciona como um espaço fora fora inclusive da questão psiquiátrica, né? não tem aquele aquele eh aquela etiqueta de uma instituição psiquiátrica, como o CAPS tem. Queir ou não, o CAPS tem uma proposta de terapia, uma proposta eh de ser atendido pelo psiquiatra, eh pela equipe, você tem uma avaliação na Casa das Palmeiras, é diferente, quer é um espaço mais livre do que do que a instituição do do CAPS, né? Então, a casa eh sobrevive esse tempo todo e tem uma outra característica
15:47 importante da casa, é que todos que trabalham na casa trabalham eh porque querem estar estar trabalhando lá. Eles não ganham, ninguém ganha praticamente nada por trabalhar lá. Então, tem o desejo, o desejo das pessoas estarem ali é outro fator que ajuda muito nesse processo dessa troca e desse dessa interação com os clientes. E na casa, eh, existe uma outra característica importante e que tem se perdido muito, que é você poder acompanhar o processo dos clientes, né, o que eles têm a dizer, o que eles expressam através das atividades
16:32 no decorrer do tempo. Eh, porque isso se perdeu muito. próprio Franco Basagra, ele fala numa certa fala contraditória, ele fala que ele largou a universidade para se dedicar à goríia, que foi uma alternativa em que ele fechou o manicômio, né? Mas ele fala que na universidade não se aprende nada, se aprende é no é no no hospital que se aprende, né? Então, para você realmente aprender, entender um pouquinho a psicótica, você tem que estar junto, você tem que tá ali do lado, eh, observando, ouvindo, vendo os detalhes, porque às vezes num discurso
17:18 que parece confuso aparecem pepitas, aparecem coisas de uma riqueza extraordinária, né? Então, a gente tem que eh pra gente trabalhar com isso, primeiro a gente tem que gostar, né? tem que gostar de estar ali junto, de interagir e tem que eh estar disposto aprender. Dr. Anito falava muito sobre isso, né, que muitas vezes eles estão muito além da gente. O José Basto era uma pessoa que tinha uma uma sacação assim profundíssima, né? Então era estar do lado dele era eh como se tivesse do lado de um de um monge, né? Dom guru, né?
18:04 Então, eh, a casa permite isso, permite essa essa interação, né? E e e esse aprendizado, eh, você me fala do tempo porque eu sei que não. Eh, fica tranquilo que fica tranquilo que a gente tá no tempo ainda. A gente tem mais 10 minutos de fala sua e depois mostrar o filme que parece que você quer mostrar um pedaço do filme. É, é, eu fechei um pouco o o espaço do filme que eu quero mostrar. Então, eh, Torasa é esse espaço, né? Esse espaço, eh, eu chamo até, eu gosto muito de um termo eh, do Freud, né? Uma outra cena.
18:53 A casa é como se fosse uma outra cena, porque ela não tá inserida na psiquiatria, né, no mundo psiquiátrico, eh, nem psicológico, né? A casa é um espaço livre. eh onde a Dra. Nice fazia questão de dizer isso, que a formação das pessoas não era o mais importante. Eh, era até um impecío de alguma maneira. A Dra. dizia que a terapeuta número um da casa era Maria, que era a quem fazia o lanche, né, dos clientes e eh praticamente analfabeta, mas uma pessoa que era conseguia, ela tinha um um afeto
19:41 muito grande pelos clientes e ela era ela, ela não interpunha na relação dela com de cliente, nenhum conhecimento prévio. Então, ela não tentava entender o cliente através de um de Jung, de Freud, de de conceitos psiquiátricos, nem nada. Ela tinha uma uma relação de pessoa para pessoa. E isso a Dra. Nise eh assim eh achava muito importante, né? Jean, Jean, eu tô me, eu tô me lembrando que quando a gente conversou, você falando assim que a casa é esse centro de expressão e convivência, né? Eu achei legal essa essa fala, né? A casa é uma outra cena,
20:28 né? É esse espaço fora do contexto psiquiátrico, né? Que ela que ela buscou construir isso e que ela conseguiu, né? é do contexto psiquiátrico e do contexto capitalista também, porque a você imagina uma casa que sobrevive desde 1956, sempre com grandes dificuldades financeiras. Na época que a Dra. Nise tava viva, ela a Dra. Nha noção direito do que era dinheiro, né? Ela não tinha muita noção e e ela não dava importância para isso. Mas na época que ela tava viva, a gente conseguia, muita gente dava shows para casa. Eh, tinha uma senhora da alta sociedade que que era presidente da casa, que era Bibi Frank Leal, né, que os o quem organizava o chá da Cácia
21:14 Dourada era essa essa senhora da sociedade, né? Então, a Dra. Nice tinha um um um grupo que de alguma maneira conseguia manter a casa, né? O Caetano Veloso deu show eh de graça para casa, né? O fundo, os fundos foram arrecadados para casa. Então você tinha, quando ela tava viva, você tinha muito essa esse movimento, né, que fazia com que a casa conseguir conseguia sobreviver. Hoje em dia, eh, continua sobrevivendo, mas com dificuldade. Então, e todo mundo que trabalha ali, a maioria, tirando a a secretária e o rapaz que faz a faxina, todo mundo não recebe. Então, eh, é uma outra característica importante, né?
21:59 você tem uma instituição que consegue sobreviver praticamente sem as pessoas não cobram eh pelo seu trabalho. Eu fui presidente durante dois mandatos, eu muitas vezes tinha que botar dinheiro do meu bolso para poder fechar as contas, porque eh por causa da dificuldade. Então, a casa, essas características da casa, eh, infelizmente são difíceis de repetir essas características em outros locais, né? Eh, então você tem várias instituições que que de alguma maneira se influenciaram na casa, né? Inclusive o CAPS parece que tem uma influência importante da casa, mas não consegue eh
22:45 funcionar como a casa funciona, né? e cada vez menos, porque agora é terceirizado, então tem uma alta rotatividade de de pessoas e e o o cliente eh o cliente em sofrimento psíquico, né, eu detesto a palavra saúde mental também, que eu nunca vi, nunca vi saúde mental. Então eu acho que e a eu acho que a Dra. N também não gostaria dessa palavra. Essa palavra tem uma conotação, eh, tem um tem uma mãozinha dos laboratórios nela, né? Se você sofre, você ou você tem saúde mental ou você tem doença mental. Se você sofre é porque você não tem saúde mental, então teria que se tratar. Bom, isso é uma questão polêmica, né?
23:31 Mas eh a questão da da eu eu até eu falo às vezes, né? Eu continuo na casa porque eu acho que a casa é a evolução do trabalho da Dra. Então, a casa tem que tem que viver, a casa tem que se manter, porque a casa é uma parte importante do trabalho da Dra. Nise. O museu tem a sua importância. A Dra. Nise queria que a casa e o museu fossem independentes, né? Mas a casa ela tem ela ela ela é muito importante porque ela prova que o trabalho funciona. E hoje em dia você tem no mundo vários lugares que tísticas parecidas com a casa. Sem conhecer a
24:20 casa. Eh, você tem vários lugares em que as pessoas eh têm uma convivência, tem a possibilidade de expressão e normalmente são em países ricos, então eles conseguem fazer uma coisa eh com mais recursos, né? Então, eh, você no Japão, nos Estados Unidos, na Europa, hoje em dia, você tem várias instituições que têm algumas características muito próximas dessa visão eh certamente eh pioneira da Dra. Nise, né, mesmo sem conhecer. Por isso é que eu eu sempre tento apresentar alguns trabalhos lá fora que eu acho que seria interessante inserir o trabalho da Nise
25:07 dentro da história, né, dessa história toda, dessa de de uma mudança que tá havendo eh no cuidado com as pessoas em sofrimento psíquico, né, que eh eh a possibilidade, a questão do afeto, a questão eh da expressão, né, a A gente hoje em dia sabe que essas coisas têm uma efetividade. Agora, o que a gente vê hoje em dia é isso, isso acontece em alguns poucos lugares. Na realidade, eh, o sofrimento psíquico tá eh tá sem cuidados, né? Eu eu trabalho numa região que eu vejo os CAPS
25:53 eh não tem estrutura para atender todo mundo. Os os clientes com com histórias mais complexas, o CAPS não dá conta. Eh, e não tem onde tratar, né? Porque a a reforma psiquiátrica brasileira, ela é capsocêntrica. Então o CAPS é que teria que eh eh ser o centro, né, do tratamento com a a opção do hospital geral. Só que o hospital geral as enfermarias são pequenas. Eu frequento um pouco uma instituição na França chamada Laborda, que é ligada à psicoterapia institucional francesa, que é um hospital grande, eh, criado por
26:39 Jeão R praticamente no mesmo ano da Dra. Nise, que a Dra. criou a a Casa das Palmeiras, 1956 e que tem muitas semelhanças com o trabalho da Dra. Anise, só que é uma estrutura no país que tem recursos, né, que tem eh e funciona, né, e que às vezes o cliente psiquiátrico ele o que ele precisa é de um de um de estar longe. Ele ele não precisa ser reinserido no no na família. é no espaço que muitas vezes a própria família e o espaço onde ele vive é o que foi o o o móbile da doença dele. Então ele às vezes precisa de um espaço eh independente. E isso a Casa
27:25 das Palmeiras também funciona. Funciona como ponto de referência. Nós temos um cliente da casa que hoje em dia ele frequenta, ele ele tá em outra instituição e ele tá numa instituição que é porta fechada e ele sai da instituição, foge, vai andando até a casa das Palmeiras, que é longe, ele tá em Bota, ele tá eh é uma uma grande caminhada. Ele vai na casa das Palmeiras para, ele ia, né, para tomar um café com a com a Maria, quando a Maria ainda tava lá, né, ele ia lá, tomava, voltava pra instituição onde ele tava e batia na porta para entrar, porque ele tinha essa necessidade desse ponto de referência. O o o cliente às vezes ele não ele não precisa nem estar frequentando, mas ele
28:11 tem que saber que existe um lugar no mundo onde ele pode ir e ser ele mesmo do jeito que ele for. Isso é primordial também, é saber que existe um lugar onde você vai ter uma certa paz. Eh, Jean, só para te falar que a gente tem agora 10 minutos, tá? Então, quer passar o filme ou quer Não, eu acho que a conversa tá muito legal. Você fica à vontade. Eu acho que tá bem legal a conversa. Veja o que que você acha melhor. Tá. Não, o filme eu vou passar um pedaço e depois quem quiser, a gente já tinha falado, né, tem no YouTube esse filme eh inteiro, né, o filme dura 27 minutos. Eu vou falar um pouquinho sobre essa
28:57 questão do eh a Dra. Ise, ela ela fez alguns trabalhos, né? Ela ela escreveu sobre alguns clientes, né, famosos, né? Eh, o Emí, o Rafael, o Adelina, né? Então, você tem alguns clientes importantes que a Dra. conheceu a fundo porque ela convivia com eles diariamente. Isso até uma questão. Esses trabalhos que ela produziu, ela produziu dentro de um hospital que era um manicómio. E ela teve essa vivência, essa convivência com esses clientes. O Jeão R ele fala num termo muito interessante
29:44 que ele fala que para você eh para você se aproximar de um, você tem que ter o AVEC, né? Tem que estar junto. Estar junto é estar no mesmo espaço e no mesmo tempo. Não é apenas se encontrar. Você tem que conseguir ir pro espaço onde o cliente tá e pro tempo onde ele tá, que é diferente do tempo onde nós estamos. Então, a Dra. Anise produziu vários trabalhos dentro da estrutura que ela tinha lá, né, da eh fez alguns estudos em série, né, estudou algumas imagens em série. Eh, e através dessas imagens, né, ela se
30:32 aproximou muito do Jung, né, eh, porque o Yung tem essa característica, eh, que trabalha muito o lado das imagens, né, a questão arquetípica, eh, do inconsciente coletivo, etc. Então, a, a, a Dra. eh conseguiu de alguma maneira entender um pouco o que se passava no mundo interior de alguns clientes através desse estudo e de outros estudos, né? Eh eh ela estudava muito, o Benedito mostra isso, né? Não era só Jung, tinham várias outras eh vários outros eh vários vários outros autores, né? como Bachelar, né, o Lenin, né, tantos
31:18 outros aí, Espinoza, isso. E certamente se a Dra. N estivesse viva hoje, o Benedito ia ser muito maior, que lançaram muitas coisas. se lá fora hoje em dia, eh, você tem vários museus que que que tem espaços de arte bruta, né, de arte de pessoas com com problemas e se fazem muitos estudos sobre esses autores, né, se tenta entender o que que eles estão querendo dizer através das imagens, né? Então, eh, a Dra. publicou esses trabalhos, né, que são mais ou menos os livros principais dela, né, imagens do consciente mundo, das imagens.
32:04 E na Casa das Palmeiras a gente teve vários clientes importantes também e muito pouco foi publicado sobre esses clientes, né? Muito pouco estudo foi feito sobre esses clientes. Então, existe um um espaço para estudo eh infinito praticamente, né? O próprio José Basto é um é um cliente que escreveu muito, né? Eh, teve uma a Júlia fez um trabalho sobre ele, né? Na época que que eh na época eu tava na casa, ela foi lá, pesquisou, ela fez um mestrado sobre José Basto, mas ele depois escreveu muitas outras coisas, então tem muita coisa para ser estudada e são coisas difíceis de estudar, né? Não é não é tão simples assim você estudar
32:52 esse mundo interno eh da loucura, porque a loucura põe em questão tudo, todas as teorias. Dra. Anise fazia questão de dizer que eh todas as teorias eram apenas ferramentas. Então você usava, você usa aquelas ferramentas para tentar se guiar nesse mundo eh cheio de questões, né? num mundo que não te dá uma resposta eh clara, né, sobre o que acontece, porque eh por mais que você veja, se você vê a loucura de um de um plano, se você vê apenas através de neurotransmissores e e você não vê o o a substância, né, o que
33:37 o que o que é dito ali, né, por que sob o efeito de algumas alterações bioquímicas Eh, o indivíduo vai falar coisas às vezes tão profundas, né? Eh, a gente tem um um dos autores que a D. Nice mais gostava era o Artur, né? Eh, o Artor ele falava coisas assim, eh, você estudar Artô é pesado, é difícil, porque ele fala umas verdades muito eh angustiantes, né? Eu vou falar um pouco sobre isso quando a gente for falar do diz basto, porque tem essa questão, né? A psicose tá sempre ligada a
34:23 questões de sentimento, de afeto e questões metafísicas. E essas coisas vêm meio embrenhadas, né? Tem uma conotação eh religiosa às vezes, né? E é muito difícil penetrar nesse nesse mundo da psicose, né? Eh, tentar entender um pouco o que acontece ali dentro. Única maneira de tentar entender o que acontece ali dentro é estando junto, é estando do lado o tempo todo, que foi o que a Dra. Nise fez. Dra. passou a vida ali do lado dos clientes, dos clientes que sofriam de de de
35:08 com sofrimento psíquico importante. Eh, o Jean R também passou a vida do lado de cliente que sofriam. Então isso é é primordial, é tá ali atento, né, observando, eh estando presente, né, tem uma foto que eu gosto muito da Dra. Eh, tem uma foto dela atrás do Rafael. Você vê o Rafael desenhando e você vê um sorrisinho nele porque ele sabe que ela tá ali. Então, não tem palavra, não tem nenhuma troca, tem só a presença, né? Então, eh eh a presença é primordial, né? E quanto mais
35:55 a presença for eh inócua, né, que um dos eh uma das frases mais importantes do Hipócrates é primum nonscere, em primeiro lugar, não fazer mal. Então é isso, é estar presente sem interferir demais, sem mexer demais, mas saber que tem alguém ali eh presente, né? Isso é o que ela chama de afeto catalisador, né? Quer dizer, tem uma pessoa ali afetiva, tá aí e e o outro sente aquela presença, né? Eh, que mais que eu posso falar? É tanta coisa para falar, né? São tantos anos, né? Tantas experiências. Eh, posso
36:41 contar algumas algumas histórias, por exemplo, é muito interessante a questão do tempo também. Nós temos um cliente na casa, o Ricardo, que ele entrou para casa, ele não fazia nada, né? Não não participava de atividade nenhuma, né? E ele eh passou a participar depois de muito tempo, depois de ano, ele começou a participar do arranjo floral. Então ele pegava um pote e botava uma flor. E sempre no arranjo floral a gente pede que as pessoas escrevam alguma coisa, eh, e ponha no no vaso, no arranjo que a pessoa fizer, né? E ele ia lá e escrevia
37:28 sempre: "A flor é e um adjetivo". A flor é e um adjetivo. E a gente guarda, né? Guarda tudo, né? E depois de mais de 2 anos, a gente viu que ele só repetiu o adjetivo duas vezes. Ele conseguia cada vez criar um adjetivo novo. Com o tempo ele faz, começou a fazer arranjos com mais flores e come e continuou com essa questão do adjetivo. Então, a gente ficava sempre na curiosidade o que que ele vai colocar como auditivo pras flores, né? Eh, e continuou com essa, cada vez ele
38:14 vem com adjetivo diferente. E esse cliente é um cliente muito grave, né? Muito assim para dentro de si, né? Ele, ele, mas ele, a casa é de primordial importância para ele. Ele vai, ele mora na Tijuca, ele vai sozinho para casa, praticamente todo dia, vai lá, participa, ele fica até o lanche. Depois do lanche ele vai embora sempre. E e você vê uma evolução nele eh muito demorada, entendeu? Inclusive os desenhos que ele faz, ele faz desenhos, ele repete muito desenho e ele repete a ordem das cores que ele põe no desenho,
39:00 né? Tudo isso é importante observar esses detalhes, mesmo que a gente não chegue à conclusão nenhuma, porque o o fato da gente ler as imagens eh é importante pra gente, porque isso não vai ser repassado pro cliente e e não vai através desse repasse pro cliente, ele vai ter um insight e vai eh ter uma mudança. É importante pra gente entender o que se passa no mundo interno desses indivíduos, mas o importante para ele é fazer, é fazer e estar ali e estar presente ali, evoluindo dentro do dentro da possibilidade dele. Então, ele sabe que
39:46 tem um lugar no mundo que ele pode ir e que ele vai poder ser ele mesmo e ele vai poder ter o caminhar dele, eh, mesmo que seja lento, mas ele vai ter um um movimento, né? E isso é que a a o mundo oficial não consegue entender como é que você vai investir um trabalho enorme numa pessoa para ele ter uma melhora mínima. Eh, Jean. Hum. Muito importante toda essa fala. A gente, o tempo parou, passou agora um pouquinho. Eh, a gente, a gente, a gente organizou da seguinte forma, a gente tem 2 horas, a gente começou com 13 minutos
40:32 depois, eu tô bem categórica aqui no horário, tô bem cronos aqui no horário. A gente tá falando de cairóis, o tempo da alma dentro de Cronos, né? E aí vamos nessas duas horas, Jean, Patrícia, e voltamos pro Jean depois, tá? E voltamos para Patrícia. Jean, obrigado nesse momento agora. E aí eu queria perguntar pra Patrícia, né? Eh, sim, Patrícia, você vem pesquisando no seu doutorado sobre os primeiros clientes da casa, né, que o Jean trouxe maestralmente para nós, toda essa experiência dele, né? E e a gente tá falando também, vocês dois são dois pesquisadores sobre o José Basto, que
41:18 depois o o Jean Pierre vai continuar, né, que é um poeta. E aí eu queria saber, Patrícia, como vem sendo esse trabalho entre psique e literatura, né, partindo do pressuposto dos escritos do José Basto. Obrigada, Patrícia. Boa noite. Obrigada, Patrícia. Boa noite. Boa noite pessoal. Muito feliz de estar aqui hoje. Agradeço ao Instituto Freedom pelo convite, né, Mateus, a Luciana, a Patrícia, né? E muito feliz de estar aqui com Gan também, né? Está ouvindo todas as histórias. uma pessoa que tá na Casa das Palmeiras, que que esteve com a Nise e com o José Basso, né, que é quem eu tenho estudado agora no doutorado. Meu doutorado é sobre ele, na verdade, sobre uma obra de poesia dele, né? E tô tentando nesse percurso
42:03 trabalhar justamente essa questão, né? Como pode a poesia salvar uma pessoa, né? E aí eu vou trazer um pouquinho da história de José Basto e um pouquinho do que eu tenho estudado pra gente conversar, tá? Eu vou vou compartilhar aqui na tela. Fiz um slide. Só um minutinho. Abrir aqui. Então, a minha fala eh eu coloquei o nome, a poesia como caminho, né? Seguindo as trilas de Silveira. E eu vou abrir falando, trazendo um poema do José Basto: "De que serve colher rosas se não tenho a quem ofertá-las?" Então é um pequeno trecho de um poema dele que ele traz um pouco dessa angústia, né, dessa estigmatização da loucura, né, como é difícil tá apartado,
42:49 né, um pouco dessa solidão. E antes de entrar assim no no que eu gostaria de trazer do José Bass, eu quero apresentar quem ele é, né, um pouquinho do seu percurso, depois o Jean vai trazer um pouquinho da obra dele. Eh, eu queria falar um pouquinho do percurso da NIS com a literatura também, né? Porque quando a gente estuda as obras da Nise, a gente fica muito voltado pras produções plásticas, né? Que é o que se fez mais estudos de séries de imagens, né? Mas os trabalhos na Casa das Palmeiras eram muito variados, né? Tinha mais de 17 atividades na casa. Não sei se é o mesmo número hoje, né? Mas então tinha várias possibilidades de expressão. Então eu tô focando na poesia, que é uma delas, né? E a Nise, ela destacava a relevância da literatura como um instrumento para compreensão do universo psicológico humano, né, ao sugerir que a psique pode
43:35 ser mais bem compreendida por meio da arte do que pela literatura estritamente psiquiátrica. Então, o tempo todo ela tava trazendo a arte como esse lugar de acesso ao outro, né, realmente saindo desse lugar da psicopatologia. Então, bem o Jean falou, né, e nos seus escritos ela estimulava muitas pessoas a lerem. Então ela chega a falar que ela aprendeu muito mais com Machado de Assis sobre a a psiqua estudou na na faculdade, né? Então ela cita Machado de Assis Guimarens Rosa, a gente sabe da relação dela com alguns poetas como Marco Luques, e o próprio Manuel Bandeira, né, que foi vizinho dela. Então a Nise traz a importância da da literatura paraa compreensão e também como um instrumento de intervenção, que é o que a gente vai ver no trabalho do José Basto, né? Então, para trazer um pouquinho dessa relação da da literatura, quis trazer
44:22 também a Nise, eu tô chamando a Nise poeta, que é um outro lado que a gente não conhece muito da Nise, né? Mas a Nise tinha uma escrita muito sensível que talvez a gente não consiga ver tanto nos livros mais voltados pras pras análises e tal, né? Mas ela tem esse poema que tá publicado no livro que chama Caminhos de uma psiquiatra rebelde, que é do Lula Melo. E é um poema, na verdade, que ela nunca publicou, que ela escreveu numa carta para uma amiga quando ela estava na na Suíça em 1974. Então, vou ler esse poema. As montanhas escondem órgãos gigantescos, quase sempre silenciosos. Quando o poeta do espaço eventualmente brinca sobre os seus teclados, proveja. O poeta do espaço tem à sua disposição uma infinidade de licores. Hoje, o que ele irá beber? Resina de abetos, luz azul ou
45:09 neve recém-caída? O poeta do espaço é um andarilho errante. Ele salta de um planeta a outro, de uma estrela a outra, em grandes passadas. Ele não carrega nem cajado, nem sacola, ele é livre. Ao anoitecer, o poeta do espaço escreveu um poema. Sua pena foi um cirro branco, sua tinta pequenas nuvens irriquirizadas. O poema durou apenas um instante e ninguém o compreendeu. Então eu gostei muito de ter conhecido e essa poesia da Nid e eu gosto de pensar no José Basso como esse poeta do espaço, né? Ela trouxe essa imagem tão bonita, né? Não sei se ela tem outros poemas que ela escreveu. A gente não tem tanto acesso aos documentos dela, mas uma escrita muito sensível. E além dessa poesia, a Anise também tem uma escrita muito poética nesse livro, né, que chama Viagem a
45:56 Florença. Quem ela troca cartas, né, com o poeta e amigo dela, o Marco Luques. Então o Marco ele era, ele é do signo de Sagitário, né? E ela escreve para ele assim numa das cartas. O Sagitário é uma imagem de sublimação. O centauro aos pés encravados na terra, com mãos firmes busca orientar a flecha em direção às estrelas. Aí está, porque você sente a nostalgia do mais. Constante Afo, Nise. Então são e eh esse livro de cartas tem escritas muito sensíveis da Nise, né? Muito poéticas, né? Inclusive é um livro que tava esgotado, tá? Tá sendo relançado agora, tem que relançar. E outros dois livros da Nívia também que eu acho muito interessantes, que ela traz uma linguagem muito poética, é o Ní da Silveira Gatos, a emoção de lidar.
46:41 Então ela vai praticamente uma declaração de amor aos felinos, né? Então, ela traz vários poemas sobre gatos, relação de alguns autores da literatura com seus felinos e estudos também, né, sobre o gato enquanto uma ligação com os arquétipos e tudo mais. E o livro Cartas da Espinosa também, que ela escreve uma série de cartas, né, a esse autor foi tão caro para ela, né? Então, ao passo que ela ia estudando a obra do Espinosa, que tantos séculos separam um do outro, né, mas ela se põe nessa posição de uma apaixonada pela Espinosa escreve essas cartas e lá ela fala muitas coisas inclusive da vida pessoal dela. Então são cartas muito bonitas. Então quis trazer essas obras, trazer um pouco dessa escrita poética da Nise, né? Então esse olhar que ela tinha para poesia também. E agora eu vou apresentar propriamente,
47:27 né, o o José Basto, né, eh, coloquei o José Basto, o poeta, né? Então ele foi um poeta e o primeiro cliente da Casa das Palmeiras. Então a Nise dizia que era o cliente número um, porque ele entrou na casa antes dela ser inaugurada, na verdade, né? Então eh ele foi acompanhado pela Nise de antes da inauguração oficial. Nissi conheceu por um acaso ao voltar do trabalho do Hospital Psiquiátrico de Engenha de Drento, com o colega de trabalho e também psiquiatra Carlos Alberto Teixeira Baso, o irmão de José. Então, na ocasião, o seu José estava sendo visitado em sua 13ª internação. Em um gesto emblemático, Nise da Silveira diz a José que se encontrava deitado no leito hospital: "Levanta, José, vamos sair daqui." Nesse mesmo dia, José Basto começou a frequentar a casa, né, antes de inaugurar. Então, acho que tem muito do José Bast na construção desse espaço,
48:15 né? Embora isso não apareça de uma maneira explícita, mas eu acho que de uma maneira velada, sim. E ele nunca mais foi reinternado a partir do convite na casa. E antes disso ele tinha passado por 11 internações a em 13, né, aliás, em 13 internações em 11 anos, né, mais de uma internação por ano, né? E a primeira foi em 1948, quando ele tinha apenas 28 anos de idade. Então, um pouquinho da biografia do José pra gente conhecer ele, né? Ele nasceu em 11 de janeiro de 1920 no Rio de Janeiro. Eh, foi criado em uma família muito tradicional, educado com uma disciplina muito rígida. Eh, quando o jovem ele queria ser prade, não foi aceito por religiosos, eu desconheço a razão, e veio se tornar instrutor de pilotagem aérea, profissão que ele
49:01 exerceu por alguns anos, vindo a ter vários alunos. Então, eu gosto de pensar que desde jovem ele já era dedicado a voos, né? Depois esses voos foram na literatura, na escrita, na arte dele. E simpatizante das ideias do partido integralista, ao reconhecer o apoio deste ao nazismo, começou a passar por intensas crises emocionais. sentindo-se culpado e perseguido por ter apoiado indiretamente a causa. Então esse foi o grande gatilho, né, da primeira crise de José Basto que levou a sucessiva internações depois, né? Então o primeiro surto psicódico acontece em 1945, né? A gente tava no auge do Segunda Guerra, né, no início, quando ele ainda trabalhava na aviação e em 48 essas crises foram se agravando, né? Então ele se sentia perseguido, ele tinha um quadro
49:47 persecutório pelos nazistas e veio essa primeira internação. E depois dessa internação, ele passou por várias outras, né, nunca conseguindo realmente se estabelecer no no seio da sua família. Depois disso, ele passa por um movimento que a gente chama, né, na psicologia analítica deodromia, né, que que é uma eh uma mudança, né, na na relação com com a realidade que a gente vai pro oposto, né, um tensionamento de opostos e os valores que ele que ele valorizava tanto anteriormente, ele passa a estabeleceu o contrário, né? Então ele passa dali as ideias do comunismo. Então deliberadamente ele fala que ele era comunista. Em suas palavras, comunismo para ele significava a felicidade comum a todos. Nos anos 50, ele passa a
50:34 frequentar terreiros de umbanda. Então ele tinha uma questão muito ligada a à cultura nacional, né, a valorização da nossa cultura, mas ele deixa de frequentar em 1958. E aí nos escritos deles a gente vê por isso, porque ele passa a acreditar que existe uma religião do amor. Ele traz a o amor é um é um fio condutor de toda a obra de José Basto. Acho que isso é é uma coisa que mais me marca assim tudo que eu já li dele, né? Então, de acreditar que a amorosidade era um caminho, né, das nossas relações. E o José Basto dedica muitos poemas a Nise da Silveira, grato às experiências que ele viveu na casa, né? Um deles, ele diz assim: "Asim, o louco pode curar, sim, curar-se por experiência própria, mas sem esquecer a Dra. Nice da Silveira, a mãe da humana idade,
51:20 conscientemente livre, e a gloriosa casa das palmeiras conscientemente livre". Então esse escrito é é um que ele já fazia uma prática que ele chama de conscientização das palavras, né? Então humano, humanidade ele coloca como humana idade e ele se referia assim à Dra. Nise, né? Eu acho muito bonito ele falar que isso em curar-se por experiência própria, né? Então algumas coisas que o Jean falou, a importância desse espaço da Casa das Palmeiras para que essas pessoas possam acontecer ali, né? Um ambiente de proteção, um ambiente seguro em que o apoio afetivo afetivo permite que essas pessoas se expressem, né? Então, no período de 43 anos, frequentando a casa, ele escreveu mais de 70 livros. Eh, essas informações eu tirei da dissertação da Júlia de Almeida, né, que
52:05 o Jean citou. Ela fez um trabalho em 93 sobre José Basto. Vou falar um pouquinho mais desse trabalho dela, mas quando ela tava com ele, ele já tinha escrito mais de 70 livros. Depois dela terminou o trabalho, imagino que ele continue escrevendo. Ele escrevia muito incessantemente. Era algo que realmente o organizava, né? Esse é o primeiro trabalho, né, feito por José na Casa das Palmeiras em gesto. Então também não era só o trabalho da poesia escrita, né? Então tem a poética em outras matérias, né? Então ele fez essa papel em gesso, representando um homem sentado dentro de uma pequena cela cercada de grades, as quais algumas encontram-se vergadas para cima, representando representando a liberdade do homem preso. É uma imagem muito bonita, né? A gente vê essa figura maior aí abrindo essas grades, né? e é um dos
52:52 primeiros trabalhos que ele fez na casa e são os primeiros anos da casa também. Então acho que eu vejo muito da Casa das Palmeiras nessa imagem, né, do objetivo da Casa das Palmeiras. E essa imagem ela foi publicada na revista Quaternio, que é uma revista organizada pela Anisia a partir dos grupos de estudos, né, realizados por ela e eh faz parte do acermo da Casa dos Palmeiras. Ele veio se tornar monitor da oficina de marcenaria a convite de Níis. Então, acho que uma coisa muito importante na biografia do José, né, é que de cliente ele passa a monitor, depois ele passa até ter um cargo dentro da diretoria da casa, né? Então esse espaço aqui ele também construiu ali, né, como um colaborador. Então isso é muito bonito porque além dos trabalhos que eu poesia, a gente vai ver um pouquinho da marcenaria também. Então o universo criativo de José Bá se
53:38 estende desde suas criações poéticas as produções em madeira. Então ele não produzia só as poesias escritas, né? Então tem a poesia na madeira, digamos assim, ele fazia vários objetos em formatos de coração, então objetos de madeira cadeiras, portar retratos, né, e sempre expressando essa amorosidade, né, nos corações. Então, a perspectiva de uma existência marcada pelo simbolismo é vivida pelo poeta de maneira profunda para além das palavras. Então, eh, o José Basto, ele era uma pessoa que realmente vivia aquilo que ele acreditava. Isso é muito bonito, isso é muito raro, inclusive, né, uma pessoa ter tamanha eh integridade na sua forma de viver, né? Então, a Júlia conta que ela, ela, a Júlia que fez essa dissertação, ela frequentava a casa de José, então ela acompanhou ele dentro da
54:24 casa, mas fazia visitas a aonde ele morava também. E ela disse que na casa dele todos os objetos carregam sentido. Então, portas retratas em forma de coração. Eh, tinha o objetivo de de exaltar lembranças de amigos. Corujas entalhadas em corações podem trazer ideias e mesmo as plantas são dotadas de significado. Ele tem vários cactos para lembrar a origem nordestina da família. Então, esse simbolismo, né, se estende a todos os objetos, todo ao todo ao redor dele, né, tanto na sua postura também, né? Então, o olhar simbólico se estende a gestos ao cumprimentar alguém, sempre fazia com a mão esquerda, a mão do coração, para estender o coração ao irmão, como dizia. Mas eu acho muito bonito também uma coisa que a Júlia traz na dissertação, que ele sempre estendia
55:09 a mão esquerda, porque é a mão do coração, mas ele dizia que se a pessoa estendesse a direita, ele pegaria do mesmo jeito, porque as pessoas têm direito de ser quem elas são. Eu achei isso fantástico assim, né, esse respeito à possibilidade do outro, né? Então, como era o cotidiano dele nessa época, né? Ele fazia, incluía ginástica, banho frio de manhã, que ele tinha asma, redação em todos os momentos livres. Então, uma coisa que a Júlia pontua muito, que José Basto era um clássico poeta mesmo, porque o instante poético a gente nunca sabe quando vai acontecer, né? Então ele andava com caderninho, era sempre visto escrevendo, né? Então, não só na casa, mas em outros espaços também. passava tardes na Casa das Palmeiras, onde conversa muito, coordena e participa de atividades de expressão. Então, da marcenaria, como eu disse, né,
55:54 que ele chegou a ser monitor do grupo de poesia e de teatro também. Vai volta de metrô e Bondinho partindo de Santa Teresa, que era o bairro que ele morava no Rio, ajuda sempre os amigos, eles têm a sua preferência. Eu achei muito interessante isso, essa questão da afetividade, né? Então, concertos de móveis, de portas, de coisas de madeira eram em geral feitos gratuitamente, apesar da sua idade e das dificuldades físicas. Quando a Júlia acompanhou o seu José, ele já era idoso, né? E parece que ele faleceu em 96, a Júlia acompanhou ele em 93. Além disso, ele ajuda na Casa das Palmeiras de na época ele era diretor, né, orientando pessoas na luta contra a doença mental, sugerindo mudanças, consertando objetos. São ele zerável pelos objetos da casa também. E tem, como dizia, a alegria de dar
56:43 mais um versinho do José Bastos, né? Eu me livro a escrever, que eu acho muito emblemático, né? Eh, que é tudo isso que a gente fala dessa importância de de permitir que essas pessoas se expressem, né? Trazer a sua alma, manifestar a sua alma, né, em alguma atividade expressiva. E também essa brincadeira do livro, né, porque ele fez vários cadernos e são vários livros, né, que ele nunca publicou, mas são livros. Então, tem um risquinho aqui, mas dá para ver. Então, alguns estudos. Eu queria trazer também alguns estudos sobre José Basto, né, que não tem muito, como o Jean disse, né, não tem muitas pessoas que se dedicaram a entender a obra dele. A gente tem uma, como a gente falou, um foco maior nas obras plásticas, né, mas tem muita coisa, muitos outros tens produzindo outras formas de expressão, né? Então, um
57:30 desses estudos é da Júlia Almeida, que eu citei, esses dados biográficos, eu tirei tudo da dissertação dela, né? Se chama Loucura das Palavras, o que é muito interessante porque a Júlia não é psicóloga, então é um estudo da linguística. Então a gente tá colocando José Basco no outro lugar, né, saindo mesmo da da psicopatologia, né? Então, nessa pesquisa, a Júlia, a partir de um olhar sobre a linguística, conclui que a escrita do José apresenta características que dialogam diretamente com o campo da literatura e não com o campo da psicopatologia. Então ela elegeu alguns textos de José Basta, ela fez um recorte, né, e ela foi estabelecendo diálogos com outros autores, né, e ela pontua isso, né, a linguagem de ITJB, pela questão ética da época José Bastos era vivo, né, mas a
58:15 linguagem de José Bastos, com relação à produção linguística considerada normal. Ao contrário, excedendo-se no jogo com a linguagem, José Basso realiza sua utopia, um delírio intrinsecamente linguístico. Busca similares sonoros com sentidos diferentes para as palavras e acreditar que tais achados sejam originais e verdadeiros. Eis, em síntese, a prática a teoria de José B sobre a linguagem. Então, ele ele desconfiava das palavras, digamos assim. A palavra todas as palavras carregam sentidos ocultos. Então, eh é uma consciência de realmente daquilo que se fala. Isso é muito muito importante, né, para quem é da área da escrita, sabe como a palavra tem um preço, né, como ela é importante. Outro estudo que foi feito sobre Jus de
59:00 Debate é um capítulo de uma tese e ninguém vai sozinho ao paraíso, percurso de iníci da Silveira na psiquiatria do Brasil do professor Walter Melo Júnior. E desse do capítulo dessa tese, a gente tem um artigo que é etimologia inspirada. Então, nesse artigo que é publicado na revista Estudos e Pesquisas em Psicologia da ERGE, o Walter resgata o trabalho do José Basto e o contexto de criação da Casa das Palmeiras, né, por ele ter sido esse cliente número um e os seus modelos inovadores de tratamento no campo da saúde mental. Então, eh, nesse trabalho, o Walter vai dizer, vai falar de dois aspectos singulares da escrita de José, que é a pontuação e a prática da conscientização das palavras. Então é muito comum nos poemas ele ele finalizar com reticências. Então a Ní da Silveira
59:47 dizia que José Basto era infinito, né? Então tem os poemas sempre tem as retiscências, né? E esse trabalho de conscientização, né? Então cada palavra tem um sentido oculpo. Então ele buscava entender o simbolismo e a etimologia original das palavras. Então ele se preocupa com o sentido original das palavras e com a possibilidade de uma melhor comunicação entre homens, os homens. Então ele quer entender as palavras para que elas sejam mais claras. possíveis para que não haja ruídos nas na na comunicação, que para ele era isso que causava as guerras, as dificuldades, né? Então, esforço de José Basto leva a buscar uma linguagem que melhor expressa os afetos, pode curar o passado de mal entendidos e estender-se num futuro em que possa haver mais amorosidade entre as pessoas. Ele fala o tempo todo de amor. Então, a utopia da
1:00:33 linguagem de José faz couro com a utopia da Nise em ver um tratamento psiquiátrico prescindir de internações, né? entrar na tosta dela na casa das palmeiras é que não precisa haver internações e reinternações. Então José, o primeiro cliente da casa, escreve um recado para a humanidade. Tem um texto que tá publicado nos livros da Nive, no qual ele pede a criação de uma casa das palmeiras em cada bairro, tamanha a importância que ele via nessa instituição, né, o quanto ela fez por ele. Então, coloquei só uma provocação pra gente pensar, porque é uma coisa que me provoca muito quando eu leio o José, né, tô muito mergulhada na obra dele agora. Eh, quantos de nós nos preocupamos com a potência e o significado das palavras que usamos, né? A gente às vezes banaliza tanto o nosso dever e ele traz isso uma consciência profunda do que é
1:01:20 dito, né? Eu acho isso muito muito importante assim. E alguns outros estudos também sobre, como eu disse, né, a parte da marcenaria, né? Coloquei essas duas imagens, eh, são só ilustrativas, não são obras do José, né? Mas ele fazia muitas cadeiras para esse formato de coração e portaretratos também em formato de coração. Então o Osvaldo dos Santos foi um psiquiatra que trabalhou na Casa das Palmeiras e depois ele até desenvolveu a questão da terapêutica ocupacional mais voltada para grupos, né, em outras instituições. Mas nessa época ele fez um artigo sobre José Basso em 1962 que ele queria demonstrar um caso clínico onde a atividade de mercenaria forneceu possibilidades autoexpressivas através da livre associação. Então,
1:02:06 nesse estudo, ele demonstrou como todo tipo de ocupação pode ser afetiva. Então, a maçenaria às vezes poderia ser usada, olhada como uma atividade mais objetiva, né? Só consertar móveis, fazer objetos, mas não. O José Basso conseguiu expressar muito L. Ele fez obras artísticas, né, com esses corações. E na época o José Bastos. Esse é é um objeto feito pelo José Basta, uma cadeirinha, a fotografia não tá muito boa, que é bem antiga, né? Mas é uma cadeirinha de criança, ela é toda feita de corações. O encosto em formato de coração, né? A as laterais e o acento também. Então aí uma fala do José Basso sobre essa cadeira. Essa cadeira é destinada ao futuro da humanidade. Ela é dedicada às crianças que não têm assistência do amor, especialmente para
1:02:53 as crianças pobres, embora seja também para as ricas. Quando eu era menino, se tivesse uma cadeira dessa, ficaria muito contente e satisfeito. Vai servir por isso como um guia da infância, como um símbolo de amor que ela é. Então, é muito bonita a forma como ele realmente simboliza essa amorosidade nos objetos que ele produz, né? E eu acho muito bonito eh eh esse olhar inclusivo, né? Vai ser paraas crianças pobres, mas é também para as ricas, né? Para todos, né? E e o Osvaldo também fala nesse nesse artigo sobre outros objetos, o portaretrato, né, que ele usava para colocar o amor ali, o amor e a consciência completa, como ele dizia, e balanças também que ele fazia, que eram balanças suspensas por um coração, então onde pesava de um lado a consciência positiva e a negativa. Ele faz muito no trabalho dela e e dele essa coisa da
1:03:39 busca do equilíbrio dos opostos. Acho que é uma coisa que atravessou muito ele por ele ter tido essa mudança tão radical, né, quando ele realmente percebe que houve o apoio ao nazismo, né, do partido integralista. Então ele faz o tempo todo esse conflito de opostos, né, Patrícia, como é poético tudo isso, né? Eh, esse guia paraa infância, né? Essa e esse servir para todos os lados, né? Sim. É um símbolo realmente de amor, de troca, de plenitude, né? Sim. E ele fala o tempo todo da da do amor como a base da importância do ele fala da religião do amor, ele chama assim quando ele fala do amor, né? Seria a base das nossas experiências, né? Eu acho muito bonito porque assim, tem alguns poemas são anteriores à Casa das
1:04:25 Palmeiras, mas a maioria foi feita a partir da experiência dele lá. Então acho que é uma coisa que a gente pode pensar o quanto aquela afetividade daquele espaço, aquele colhimento de um lugar que ele nunca mais saiu para ser internado. Isso é muito importante, né? como essa amorosidade se manifestou na sua obra, né? Então isso é muito bonito mesmo, né? É, ele ele é um poeta que vai muito além das palavras, né? Um poeta, eu até falar disso agora, né? Que eu acho bonito assim, né? O Jean falou do do bachelar, eu também tô mergulhando bastante nele agora, que o bachelar fala do poeta da mão, assim, vou até ler um trechinho do bachelar que eu acho que que cai muito bem para para quem o José, né? Então ele diz assim: "Um escritor romântico, pintor nas horas vagas, acreditava fazer voto de realismo ao proclamar: "Para mim, o mundo exterior
1:05:12 resiste. O gravador se compromete mais. Para ele, a matéria existe e a matéria existe imediatamente sobre a sua mão obrante. Ela é pedra, ardóseia, amadeira, cobre e zinco. O próprio papel com seu grão e sua fibra provoca a mal sonhadora para uma rivalidade da delicadeza. A matéria é assim o primeiro adversário do poeta da mão. Assim, com a mais extrema delicadeza, a mão desperta as forças prodigiosas da matéria. Todos os sonhos dinâmicos, dos mais violentos aos mais insidiosos, do suco metalho aos traços mais finos, vivem na mão humana. Síntese da força e da destreza. Então ele diz, onde a gente onde se via a matéria, né? A a madeira, por exemplo, o Joséata, ele via a possibilidade do fé
1:05:58 expressa em seus corações, né? Eu acho isso muito bonito ver ele como poeta da mão, né? Tanto da mão que escreve, mas como essa mão que esculpe também, como essa mão que se oferece ao outro, né? A mão do coração ao outro, de consertar as coisas do outro, né? Então ele ele é todo amor, eu diria assim, né? Então e só para finalizar um pouquinho a minha fala, né, que o Jean vai trazer um pouquinho da obra do José, mas falar também de como ele aparece na na obra da Nice da Silveira, né, que ela cita ele em alguns momentos, assim. Então, José Basso não foi, não teve sua obra analisada pela Nise, como outros trabalhos, né, esses artistas famosos que já falou, por exemplo, né, mas ele é citado por ela no livro Imagens do Inconsciente ao tratar das questões afetivas dos pacientes psiquiátricos e
1:06:45 suas dificuldades em experienciar o afeto após anos de exclusão em silenciamento. Então, no capítulo que ela fala sobre o afeto catalisador, né, ela traz esse trecho do poema de José, né, que eu li no início, de que serve colher rosas se não ten a quem ofertá-las. Eu, eh, um trecho do poema chamado Paixões humanas, né? Então, ela traz essa problematização da importância do afeto catalizador, principalmente para esses sujeitos tão estigmatizados, tão excluídos, né, muitas vezes até impedidos de viver o amor, né, que uma das problemáticas também na poesia do José é a dificuldade em viver o amor romântico, né? Então ele também traz isso, né? Então esse amor também muitas vezes idealizado e com uma dificuldade de de uma realização objetiva. Então embora a Nise não colocou o nome José
1:07:30 Basso nessa publicação, no Imagens do Inconsciente, a autoria é revelada em outras publicações. Então a gente pega lá na revista Paternio, lá tá esse trecho, né, com o nome José Basto e também entrevistas que ela cedidas por ela e colaboradores próximos, né, como Jean e outros, né? Então, a Nise cita José Basso em algumas falas reunidas pelo Lula Melo na publicação intitulada Encontros, né, que é uma série de entrevistas realizadas com a Nise entre 76 e 97, então depois da sua aposentadoria compulsória. E aí eu vou citar alguns trechos de entrevistas que ela fala do José. Então, em uma entrevista publicada em 1991 na revista Ano Zero, ela cita um evento realizado no circo voador no Rio intitulado Chá da Doutora, em que José Bastos estava presente e no qual ela
1:08:17 convidou música Thomas Lima para acompanhá-lo, recitando versos de seu poema Paixões humanas, que justamente tem esse trecho que a gente leu agora, né? Então, Thomas acompanhou José, que inicialmente recitava baixinho e aos poucos o improviso se tornou uma musicalização do poema ento pelos dois. Niz revela nessa entrevista que naquele momento não sabia que o músico tinha grande representatividade no cenário musical. Então ali foi vivido um momento muito bonito, muito potente, né, do encontro de José Baso, uma pessoa que poderia ter excluída, esquecida dentro de um manicôio com grande música e eles produzem uma coisa juntos, né, como artistas, né, a de José Basto é um artista. E em outras duas entrevistas também, ela fala desse emblemático presente que foi feito pelo José Basto, que é um livro
1:09:02 entalhado em madeira com formato de coração. Então, pertence ao acervo pessoal da Nise e fica eh na na no gabinete de trabalho pessoal dela, né? Tem poucos objetos lá. Esses dos objetos decorativos que ela tinha, né? Acho que é pela importância que que ele tem. E ela diz, né, nessa entrevista, então um cliente que trabalhava na mercenaria sentiu, farejou, intuiu que eu amava os livros e me deu de presente. Era um coração de madeira, tendo ao centro um pequeno livro também esculpido em madeira, e me disse assim: "Livro sem coração não vale nada". Acho que aí essa quebra do do da coisa cartesiana, né? Assim, até da gente pensar os tratamentos, né? Ficados na psicopatologia, né? importância da
1:09:48 afetividade. E ela diz, né, e essa é uma das características do meu serviço, o apeto. Nunca chamei ninguém de paciente, chamava todos os internos pelo nome, Maria, Adelina, Fernando, e isso aproxima muitas pessoas. Então, é muito lindo esse presente, muito emblemático mesmo do trabalho da Nise, né, dele perceber esse trabalho da Nise e de dar esse lembrete para ela também, né, porque ela era uma, ela fala isso, né, eu era uma pessoa muito livresa, ela usa isso, né? Então, muito a coisa do pensamento de de ela muito estudiosa, né? Benedito tá aí para provar, né? E e ele traz isso, né? Que livro sem coração não vale nada. E inclusive esse objeto eh em alguns algumas cidades do país que tem o o CCBB, né? O Centro Cultural do Banco do Brasil teve uma exposição nígida sobre a
1:10:33 efetividade e esse livro tava entre os objetos que foram expostos. Assim, aí eu tive a oportunidade de ver em Belo Horizonte, fiquei super feliz. Legal, Patrícia. Tá, passamos um pouquinho do tempo, dois minutinhos. Tô, tá, tô terminando. Vou só falar isso aqui rapidinho, então. Perdão. E aí, só para finalizar, então, que eu acho importante eh de falar que no que que uma que eu além dessas entrevistas que a Nise citou o José, o José também escreveu junto com a Nise, digamos assim, né? Então, no livro Casa das Palmeiras, A emoção de Lidar de 1986, eh, lá descreve as várias atividades que tinha na Casa dos Palmeiras, né? E o José participa escrevendo um dos capítulos, né, e publica um texto em que fala da atividade da marcenaria, no qual
1:11:19 eu monitor. Então vou ler rapidinho o que ele fala. Fui convidada a descrever sobre a marcenaria da gloriosa casa das palmeiras. Fui nomeada para ser monitor da sessão de marcenaria por Dra. Nise da Silveira. Foi uma alegria imensa que tive. Na marcenaria temos uma prática de psicoterapia imensa, pois temos que trabalhar com uma paciência tão livre que nos liberta do medo sempre traiçoeiro e sempre esconde-se numa paciência escrava. Então é muito bacana saber que ele foi esse colabora, que também escreveu junto com a Nive, né, um dos livros dela, né? Aí eu coloquei aqui só para ilustrar uns poemas escritos pro uma letra linda, né? Mas eu não vou ler não, que o Jean vai trazer também a obra dele, né? E é isso, né? Só falar rapidinho, só finalizando mesmo, né? É minha última fala, que só para enfatizar
1:12:05 a importância da Casa das Palmeiras nesse processo do José, né? A casa como pequeno território livre, como esse espaço de proteção, né? E o bachelato tem uma fala muito bonita sobre isso. Então, se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: "A casa abriga o deverio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz." Nosso objetivo está claro agora. É necessário mostrar que a casa é um dos maiores poderes de integração para os pensamentos, as
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