0:00 Tradutor: Inês Brandling Revisora: Nuno Miranda Ribeiro O que é que se passa na mente deste bebé? Se fizéssemos a mesma pergunta há 30 anos atrás, a maioria das pessoas, incluindo psicólogos, diria que este bebé é irracional, ilógico, egocêntrico; que não é capaz de assumir a perspectiva de outra pessoa ou compreender a relação causa-efeito. Nos últimos 20 anos, a ciência do desenvolvimento inverteu essa imagem por completo. Em alguns aspectos, acreditamos que o pensamento deste bebé é equivalente ao pensamento dos cientistas mais brilhantes.
0:45 Deixem-me dar-vos um exemplo. Uma coisa que este bebé poderia estar a pensar, que poderia estar a passar-se na sua cabeça, seria tentar perceber o que é que o outro bebé está a pensar. Afinal, uma das coisas mais difíceis de fazer para todos nós é tentar decifrar o que as outras pessoas estão a pensar e sentir. E talvez o mais difícil de tudo seja perceber que o que as outras pessoas pensam e sentem não é exactamente o que nós pensamos e sentimos. Qualquer pessoa que tenha enveredado pela política pode confirmar como isso é difícil para alguns. Nós queríamos saber se os bebés e as crianças pequenas são capazes de compreender esta coisa tão profunda sobre as outras pessoas. A questão aqui é: Como é que lhes perguntamos? Afinal de contas, os bebés não falam e se perguntarem a um bebé de três anos o que está a pensar
1:30 apenas vão conseguir um bonito monólogo de pensamentos sobre póneis e aniversários e coisas do género. Então como é que fazemos a pergunta? Parece que o segredo era brócolos. O que nós - Betty Rapacholi, minha aluna, e eu - fizemos foi dar aos bebés dois pratos de comida: um prato com brócolos crus e um com bolachas deliciosas em forma de peixinho. Todos os bebés, mesmo em Berkeley, gostam das bolachas e não gostam dos brócolos crus. (Risos) Mas o que a Betty fez a seguir foi provar um bocado de cada prato e agir como se tivesse gostado ou não. Metade das vezes agia como se gostasse das bolachas e não gostasse dos brócolos tal como um bebé ou qualquer outra pessoa boa da cabeça.
2:16 Mas na outra metade, o que ela fazia era provar um bocadinho dos brócolos e dizer "Mmmmm, brócolos. Provei os brócolos. Mmmmm." E depois provava uma bolacha e dizia "uuuu, blhac, bolachas. Provei as bolachas. Uuuu, blhac." Agia, portanto, como se o que ela queria fosse o oposto daquilo que os bebés queriam. Experimentámos isto com bebés de 15 e 18 meses. E depois ela simplesmente estendia a mão e dizia, "Podes dar-me um bocado?" A questão é: O que é que o bebé lhe daria, o que ele gostava ou o que ela gostava? O interessante é que os bebés de 18 meses, que mal andam ou falam, lhe davam as bolachas se ela gostasse das bolachas, contudo davam-lhe os brócolos se ela preferisse os brócolos.
3:02 Por outro lado, os bebés de 15 meses ficavam a olhar para ela durante muito tempo caso ela agisse como se preferisse os brócolos, como se não percebessem a situação. Mas depois de olharem para ela durante muito tempo, simplesmente lhe davam as bolachas, o que eles pensavam que toda a gente gostava. Há duas coisas impressionantes em relação a isto. A primeira é o facto de estes bebés de 18 meses terem já descoberto esta verdade profunda da condição humana: que nem sempre queremos as mesmas coisas. E mais, eles sentiram que deviam fazer o possível de forma a ajudar as outras pessoas a terem o que queriam. Mas mais impressionante, o facto de os bebés de 15 meses não terem feito isto indica que os bebés de 18 meses aprenderam esta verdade profunda sobre a natureza humana nos três meses que passaram depois de fazerem 15 meses.
3:48 Portanto as crianças sabem e aprendem mais do que aquilo que alguma vez imaginámos. E este é apenas um de centenas e centenas de estudos feitos nos últimos 20 anos que realmente demonstrou isso. A pergunta que podem querer fazer é: Porque é que as crianças aprendem tanto? E como é possível aprenderem tanto em tão pouco tempo? Quer dizer, afinal, se olharmos para os bebés superficialmente, eles parecem bastante inúteis. E na verdade, em muitos aspectos são piores que inúteis, tendo em conta o tempo e energia que gastamos só para mantê-los vivos. Mas se procurarmos na evolução uma resposta para este quebra-cabeças sobre porque gastamos tanto tempo a tomar conta de bebés inúteis, verificamos que há realmente uma resposta. Se olharmos para as muitas, muitas espécies de animais,
4:33 não apenas nós, primatas, como também outros mamíferos, aves, até mesmo marsupiais como cangurus e vombates, verificamos que existe uma relação entre o tempo de infância que uma espécie tem e o tamanho dos seus cérebros em relação ao corpo e quão espertos e flexíveis eles são. Exemplo disto são aqueles pássaros ali em cima. Num dos lados está um corvo da Nova Caledónia. E os corvos, tal como outros pertencentes à família Corvidae, gralhas, etc, são aves incrivelmente inteligentes. Em alguns aspectos são tão inteligentes como os chimpanzés. E este é um pássaro na capa da revista Science que aprendeu a usar uma ferramenta para conseguir comida. Por outro lado, temos a nossa amiga galinha doméstica. E as galinhas, os patos, os gansos e os perus
5:20 são burros que nem portas. Muito, muito bons a bicar o grão, e basicamente a fazer mais nada. Acontece que os bebés, os corvos da Nova Caledónia bebés, são altamente dependentes. Eles dependem das mães que lhes põem minhocas nas suas boquinhas abertas durante o que pode chegar a dois anos, o que é muito tempo na vida de uma ave. Ao passo que as galinhas atingem esse nível de maturidade em poucos meses. A infância é, portanto, a razão pela qual os corvos acabam na capa da revista Science e as galinhas na panela da sopa. Há alguma coisa nessa longa infância que parece estar relacionada com o conhecimento e a aprendizagem. Que explicação podemos ter para isto? Alguns animais, como a galinha,
6:05 parecem adaptar-se perfeitamente a fazer muito bem apenas uma coisa. Estas parecem estar perfeitamente adaptadas a bicar o grão num ambiente. Outras criaturas, como os corvos, não são especialmente bons a fazer uma coisa específica, mas são extremamente bons a aprender as regras de diferentes ambientes. E como é óbvio, nós humanos estamos muito para além da curva de distribuição tal como os corvos. Os nossos cérebros são maiores em relação aos nossos corpos do que em qualquer outro animal. Somos mais inteligentes, mais flexivéis, capazes de aprender mais, sobrevivemos em diferentes ambientes, emigrámos para povoar o mundo e viajámos até ao espaço. E os nossos bebés e crianças dependem de nós por muito mais tempo do que qualquer bebé de outra espécie. O meu filho tem 23 anos. (Risos)
6:50 E pelo menos até fazerem 23 anos, continuamos a atirar aquelas minhocas para as suas boquinhas abertas. Pois bem, como é que chegaríamos a esta correlação? Uma ideia é a de que essa estratégia de aprendizagem, é uma estratégia de sobrevivência muito poderosa, mas tem uma grande desvantagem. E essa grande desvantagem é que, até concluirmos todo o processo de aprendizagem, seremos indefesos. Não vamos querer que o mastodonte venha atrás de nós e pensar, "Talvez uma fisga ou uma lança funcionem. Qual será melhor?" Vamos querer saber isso antes de o mastodonte aparecer. E a forma como a evolução parece ter resolvido esse problema foi com uma espécie de divisão de trabalho. Ou seja, numa primeira fase estamos completamente protegidos,
7:37 não temos de fazer nada, apenas aprender. Depois, enquanto adultos, podemos pegar nas coisas que aprendemos quando éramos bebés e crianças e pô-las em prática na vida real. Uma perspectiva seria pensar que os bebés e as crianças pequenas são como o departamento de Investigação e Desenvolvimento da espécie humana. São os investigadores protegidos que apenas têm que sair, aprender e ter boas ideias, e nós somos a produção e o marketing. Nós temos que pegar nessas ideias que desenvolvemos em criança e pô-las em prática. Outra perspectiva é a de que em lugar de pensarmos nos bebés e nas crianças como adultos defeituosos, deveríamos pensar neles como estando numa fase diferente de desenvolvimento da mesma espécie - tipo lagartas e borboletas - contudo sendo eles as borboletas brilhantes
8:23 que esvoaçam e exploram o jardim, e nós as lagartas que a pouco e pouco vamos avançando pelo caminho de adultos. Se isto for verdade, se os bebés estão programados para aprender - e a história evolutiva assim o comprova que as crianças existem para aprender - poderíamos supôr que eles possuem poderosos mecanismos de aprendizagem. De facto, o cérebro dos bebés parece ser o computador de aprendizagem mais poderoso do planeta. No entanto os computadores reais estão a melhorar muito. Houve uma revolução recentemente no nosso entendimento de máquina de aprendizagem. E tudo graças às ideias deste senhor, do Reverendo Thomas Bayes, especialista em estatística e matemático do século XVIII. E basicamente o que Bayes fez
9:08 foi criar um método matemático utilizando a teoria das probabilidades para caracterizar e descrever a forma como os cientistas fazem descobertas sobre o mundo. O que os cientistas fazem é partir de uma hipótese que acham ser um ponto de partida viável e testá-la, comparando-a com os dados. Os dados fazem-nos alterar essa hipótese. Depois testam essa nova hipótese e assim sucessivamente. E o que Bayes demonstrou foi um método matemático que permite fazer isso e que a matemática está na base de todos os programas de aprendizagem automáticos que existem hoje. Há cerca de 10 anos, propus que os bebés poderiam estar a fazer algo semelhante. Se quiserem saber o que se passa por detrás daqueles lindos olhos castanhos, penso que será qualquer coisa como isto. Este é o caderno de apontamentos do Reverendo Bayes. Penso que aqueles bebés estão a resolver cálculos complexos
9:53 tendo em conta probabilidades condicionadas que usam para compreender como funciona o mundo. Pois bem, isto pode parecer um processo ainda mais difícil de demonstrar. Afinal de contas, se perguntarmos a adultos sobre estatística, eles fazem figuras ridículas. Como é possível que as crianças façam análises estatísticas? Para testar isto utilizámos um aparelho ao qual demos o nome de Detector Blicket. Isto é uma caixa que acende luzes e toca música quando pomos uns determinados blocos em cima dela e não outros. Usando este aparelho tão simples, o meu laboratório e outros fizeram dezenas de estudos que comprovam como os bebés são bons a compreender o mundo que os rodeia. Deixem-me mostrar-vos um que fizemos com um aluno meu, Tumar Kushner. Se vos mostrasse este detector, muito provavelmente pensariam de imediato que a melhor forma de accioná-lo seria pôr um bloco em cima do detector.
10:39 Mas na verdade, o detector funciona de uma forma um bocado estranha, porque se abanarmos um bloco por cima do detector, algo que nem sequer pensámos, o detector activar-se-á duas em cada três vezes, ao passo que se fizerem a coisa mais óbvia, pôr o bloco em cima do detector, ele activar-se-á apenas duas em seis vezes. Concluímos, portanto, que a hipótese menos provável é a mais satisfatória. Parece que abanar é uma estratégia mais eficaz do que a outra. Então fizemos o seguinte: demos às crianças de 4 anos esta série de resultados e pedimos-lhes que accionassem o aparelho. Obviamente, as crianças, com base nos resultados anteriores, preferiram abanar o objecto por cima do detector. Há duas coisas deveras interessantes nisto. A primeira é que, lembrem-se, estas crianças têm 4 anos.
11:24 Começaram agora a aprender a contar. Mas inconscientemente, estão a fazer estes cálculos bastante complicados que lhes darão uma medida da probabilidade condicionada. A outra coisa interessante é que eles estão a usar aquela informação para chegar a uma ideia, a uma hipótese sobre o mundo, o que em si parece muito pouco provável. E nos estudos que temos feito no meu laboratório, estudos semelhantes, demonstrámos que as crianças de 4 anos são melhores a descobrir uma hipótese improvável do que os adultos perante a mesma tarefa. Nestas circunstâncias, as crianças estão a usar estatísticas para descobrirem coisas sobre o mundo. Mas afinal de contas os cientistas também fazem experiências e por isso queríamos ver se também as crianças o fazem. Às experiências das crianças chamamos "meter-se em tudo" ou "brincar".
12:10 E recentemente tem surgido uma série de estudos interessantes que comprovam que esta brincadeira é na verdade uma espécie de programa de investigação experimental. Aqui está um do laboratório da Cristine Legare. O que a Cristine fez foi usar os nossos Detectores Blicket. E o que fez foi mostrar às crianças que os blocos amarelos acendiam a caixa e os vermelhos não, tendo-lhes depois mostrado uma anomalia. E o que vão verificar é que este menino vai testar cinco hipóteses no espaço de dois minutos. Menino: E que tal assim? Igual ao outro lado. Alison Gopnik: A primeira hipótese dele acabou de ser refutada.
12:55 (Risos) Menino: Esta acendeu e esta nada. AG: Está a registar as suas notas experimentais. Menino: O que faz esta acender? (Risos) Não sei. AG: Qualquer cientista reconhece aquela expressão de desespero. (Risos) Menino: Ah, é porque este tem que ficar assim, e este assim. AG: Muito bem, hipótese número dois.
13:40 Menino: É por isso. Oh. (Risos) AG: Esta foi a ideia seguinte dele. Ele disse à investigadora para fazer isto, tentar pôr um em cima do outro. Continua a não resultar. Menino: Ah, é porque a luz só vai para aqui e para aqui não. Ah, o fundo desta caixa tem electricidade, mas este não. AG: Quarta hipótese. Menino: Acendeu! Então é quando se põem quatro.
14:26 Esta precisa de quatro para acender e esta só precisa de duas. AG: Ora aí está a quinta hipótese. Trata-se de um menino especialmente adorável e particularmente eloquente, mas o que a Cristine descobriu foi que isto é bastante normal. Se olharmos para a maneira como as crianças brincam, quando lhes pedimos para que nos expliquem qualquer coisa, o que eles fazem é uma série de experimentações. Na verdade isto é bastante comum em crianças de 4 anos. O que é que se sente sendo este tipo de criatura? Como é ser uma destas borboletas brilhantes e ser capaz de testar cinco hipóteses em dois minutos? Se nos voltarmos para os psicólogos e filósofos, muitos afirmaram que os bebés e as crianças pequenas são pouco conscientes se é que são conscientes sequer. Eu penso exactamente o contrário.
15:11 Creio que tanto os bebés como as crianças são mais conscientes do que nós enquanto adultos. Isto é o que sabemos sobre como funciona a consciência nos adultos. A atenção e consciência dos adultos funciona como um foco. O que acontece com os adultos é que decidimos se algo é relevante ou importante, e se devemos prestar atenção a isso. A nossa consciência sobre aquilo a que prestamos atenção torna-se extremamente vívida e brilhante enquanto tudo o resto se apaga; e nós até sabemos como é que o cérebro faz isto. O que acontece quando prestamos atenção é que o córtex pré-frontal, digamos a parte executiva dos nossos cérebros, envia um sinal que torna uma pequena parte do nosso cérebro mais flexível, mais plástica, mais apta para aprender, e suspende toda e qualquer actividade no resto do nosso cérebro. Temos portanto uma atenção muito focada, voltada para um propósito.
15:56 Se olharmos para os bebés e crianças pequenas, deparamo-nos com algo bem diferente. Creio que os bebés e crianças pequenas têm mais um candeeiro de consciência do que um foco de consciência. Os bébes e as crianças pequenas são portanto muito maus a concentrarem-se numa única coisa, mas muito bons a absorver informação de muitas fontes diversas ao mesmo tempo. Se observarmos os seus cérebros, vemos que estão repletos de neurotransmissores muito bons a estimular a aprendizagem e a plasticidade, e que os mecanismos inibidores ainda não se desenvolveram. Por isso quando dizemos que os bebés e as crianças pequenas são maus a prestar atenção, o que queremos dizer é que eles são maus a não prestar atenção. Eles são maus a livrarem-se de tudo o que os rodeia e a focarem-se apenas no que é importante.
16:41 É esse tipo de atenção, de consciência que podemos esperar daquelas borboletas que estão programadas para aprender. Quem quiser ter uma ideia de como funciona a consciência dos bebés, acho que o melhor é pensar nas vezes em que nos encontramos em situações nunca antes vividas, como quando nos apaixonamos ou quando visitamos uma cidade pela primeira vez. O que acontece então não é que a nossa consciência se contraia, pelo contrário, expande-se de modo a que aqueles três dias em Paris pareçam mais cheios de consciência e experiência do que todos os meses a caminhar, a falar e a ir a reuniões em piloto automático na nossa cidade. E já agora, aquele café, aquele maravilhoso café que tomaram lá em baixo, na verdade imita o efeito dos neurotransmissores dos bebés.
17:26 Como é ser um bebé? É como estar apaixonado em Paris pela primeira vez depois de se ter tomado três cafés curtos. (Risos) Uma sensação fantástica, mas que tem tendência a deixar-nos acordados até às três da manhã a chorar. (Risos) É bom ser-se adulto. Não me quero alargar muito mais sobre como os bebés são maravilhosos, porque é bom ser-se adulto. Conseguimos fazer coisas como atar os sapatos ou atravessar a estrada sozinhos. Faz sentido investirmos tanto esforço em fazer com que os bebés pensem como os adultos, mas se queremos ser como aquelas borboletas, ter uma mente aberta, estar disponível para aprender coisas novas, ter imaginação, criatividade, ser inovador, talvez fosse bom, pelo menos às vezes,
18:11 os adultos começarem a pensar mais como as crianças. (Aplauso)